O guarda-sol e o subteto

afpesp-praia3Teo Franco

Fim de ano, festas natalinas e o tão aguardado momento de curtir o feriadão na praia. Lá fui eu com a família enfrentar o trânsito caótico na descida da serra, como se não fosse o suficiente, amargamos mais dois dias de chuva dentro do apartamento torcendo pelo tão desejado sol de verão. Em tempos de seca, até torcemos muito pela chuva, mas não precisava vir tudo de uma vez justo nos dias de folga.

Enfim, o dia raiou com tempo firme e com ele a turistada compareceu em peso à praia. Com o alívio de não precisar tirar o carro da garagem, atravessamos a rua e já no calçadão fomos recepcionados pelo concierge praiano, Wallace, funcionário da barraca de petiscos à beira mar. Esquadrinhando o escasso espaço nas areias, ele lançou mão da ferramenta e instalou o guarda sol da Associação dos Funcionários Públicos, colocou a mesinha plástica e sacou o menu que carregava debaixo do braço suado: “Qualquer coisa é só chamar doutor”.

Não demorou muito para descobrir que o lugar que conseguimos só estava vazio pela simples razão do calor que recebia do carrinho de milho verde estacionado ao lado.

Depois de ser escalado para cuidar dos pertences enquanto os demais faziam caminhada e tentavam um espaço para mergulhar nas águas lotadas, aproveitei o momento para despertar o intelectual adormecido, apesar do barulho, calor e agito, me concentrei na leitura do recém lançado Brasil: A Turbulenta Ascensão de um País que traça um panorama político-econômico desde a colonização até os dias atuais.

Pouco tempo passou para reparar na movimentação que começava perto, quando chegou um casal, filha e neta, com tralha e equipamento que supus não iam conseguir instalar em 1 metro quadrado de areia. Como a Lei de Murphy não falha, vieram exatamente ao meu lado e a ali fincaram o guarda-sol extra large com 4 metros de diâmetro (o dobro dos demais mortais), como se não bastasse, pediram ao barraqueiro mais 1 normal acompanhado de, nada mais nada menos que, 8 cadeiras.

Enquanto eu mudava, mais uma vez, a minha cadeira devido a mudança da posição do sol, apertado embaixo do meu, agora, mísero guarda-sol, os vizinhos ajeitaram o cooler de bebidas e passaram a se besuntar de protetor solar. Exceto a bebê, os demais tinham a configuração física de lutadores de sumô. Logo depois chegou, também, o pai grandalhão da bebê com, pasmem, mais outro guarda-sol e 2 cadeiras espreguiçadeiras, mais a piscininha da criança. Dava para ler o pensamento dos vizinhos que serviam de coadjuvantes para aquele teatro da vida real.

Não sei se foi efeito da caipiroska, influência do livro ou resquício de sentimento de frustração da vida profissional, mas comecei a associar aquela situação sui generis com a dos servidores públicos do estado de São Paulo. Fiquei imaginando que aquela família podia ser de um magistrado que além do teto salarial diferenciado, mais elevado, tem penduricalhos (auxílio moradia, vale refeição, assistência médica, ajuda com livros, etc.) que criam um sombreamento ou cobertura adicional, com puxadinhos, varandas, anexos, etc. Enquanto os demais tem que se apertar dentro do espaço de um guarda sol “de pobre” ou subteto diferenciado.

O exemplo, por mais simplório que possa ser, demonstra bem a distinção e privilégios existentes. Até onde os olhos alcançavam aquela família era um contraste das demais pessoas, pela postura e comportamento, chegando à ostentação, com iphone 6, bolsas de grife e cardápio consumido. Talvez eles tenham errado de praia, pois ali é a frente da sede de veraneio da AFPESP no Guarujá. Aliás, naquele pedaço, servem uma das melhores tapiocas do litoral, além dos petiscos de camarão, isca de peixe, etc., o que, pelo menos, serve de consolo para o ‘sacrifício’!

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6 Comentários to “O guarda-sol e o subteto”

  1. Téo, belíssima crônica! parabens! o texto reflete muito bem a atual situação da nossa classe de fiscais de rendas.

  2. Caro Tião,
    Esqueci de dizer que todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros…

  3. Neste final de ano, depois do resultado frustrante da Copa e das eleições, o subteto ridículo do estado mais rico da Federação para fechar o ano, só nos resta mais algumas caipiroska! Muita paz pra todos!

  4. Estradas entupidas, sol de fritar ovo no asfalto, corpos dourando à milanesa, dez pessoas por m2, moscas e pernilongos perniciosos… tô fora, Teo.
    .
    É por essas e por outras que prefiro o céu azul de Campos de Jordão, uma boa caminhada dessas de oxigenar neurônios e células, umas berinjelas ao pesto no Gato Gorto, um sorvete da Araucária, um chope da Baden Baden, um friozinho ao cair da tarde, uma truta com molho de música à noite, e os braços da mulher amada de madrugada… É nóis na fita, mano.

  5. Certamente Téo, foi a última vez que você desceu ao litoral em tempos de fim de ano….rsrsrs
    Eu, com minha ranzinzice crônica, já não saio de São Paulo, nesta época, há mais de 15 anos.
    Quanto ao sub-teto, toda esta implosão das carreiras do serviço público, só podia ter saído da latrina que é a cabeça dos políticos tupiniquins, ou seja, gente sub-desenvolvida mentalmente. Além de canalhas, claro!
    Não. Antes do mais, CANALHAS!!!
    Feliz ano Novo!!! Preparando-se para viver com mais 4 anos sem aumento, como é o costume do gerente de botequim que desgoverna São Paulo.

  6. Caros, Tião, Teresinha, Valente e Edison,

    Fico envaidecido que as minhas “mau traçadas linhas” tenham divertido os colegas e demais leitores. Achei que combinava, para descontrair um pouco este final de ano melancólico com relação à nossa carreira.

    Eu gosto muito de praia, cresci em Santos, mas prefiro quando esta mais calma. Também, gosto muito de montanha, em especial Campos do Jordão. Felizmente, no domingo retornei para casa, de onde só penso em sair, depois do retorno do feriadão de Ano Novo.

    Falando nisso, aproveito este cantinho para agradecer, sinceramente, a todos que de uma forma ou de outra colaborar e tem prestigiado este nosso Blog.

    Forte abraço, desejando os melhores votos e bençãos do Alto extensivo aos familiares entes queridos.

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