Esforço Útil

Alexandro Afonso*

esforco-util-01

A figura acima é um esquema simples que peguei emprestado da física. Temos duas situações. Na primeira um esforço X gera um resultado Y (roda quadrada). Na segunda o mesmo esforço X gera um resultado Z (roda redonda). O resultado Z é melhor que o resultado Y.

Um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço como forma de melhorar o sistema ou o resultado. Muito pelo contrário, a redução do esforço é a busca primordial da humanidade. Engenheiros, por incrível que pareça, também são humanos.

Porém, no campo da gestão e administração as coisas não são tão claras quanto nos eventos físicos já controlados pela humanidade. Para nossa alegria, a analogia nesse caso é direta. Vamos chamar de “indicadores de esforço” os “indicadores de procedimento”, já para o resultado temos, inclusive, o mesmo termo.

Se um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço para melhorar algo, por que motivo, razão ou circunstância um administrador utilizaria? A questão é mais simples do que parece. O administrador (este, não todos) toma como certo que quanto mais esforço for empregado, mais resultado será alcançado.

Continuemos com a nossa analogia física x administração. Aumentar o esforço para aumentar o resultado em física não faz sentido em todos os casos. Se você estiver falando de empurrar uma pedra (evento simples) faz todo o sentido, mas isto não se repete em um motor a combustão (evento complexo). Se você joga muito combustível na câmara de combustão o motor “afoga” e você não tem resultado nenhum. No motor há uma série de fatores que influenciam no resultado como, por exemplo, a taxa de compressão, a relação combustível/comburente, etc.

Em administração faz sentido? Não em todos os casos também. Os humanos têm limites físicos e psicológicos. Não necessariamente um aumento de esforço resultará em aumento de resultado. Vamos utilizar um conceito importante na engenharia: função limite. Se imaginarmos uma pessoa trabalhando em seu limite de 24 horas por dia, todos os dias do ano fica bem fácil entender que o resultado não é diretamente proporcional ao esforço. Há diversas variáveis físicas e psicológicas que interferem na relação. Se o humano não dormir (24 horas trabalhando) esforço adicional não vai trazer melhor resultado.

E, convenhamos, há alguma coisa mais complexa no mundo do que o corpo e, principalmente, o cérebro humano? Logo, na administração é muito mais importante medir o resultado já que nem a ciência atual conhece todas as faces do cérebro e da psicologia.

Se você “puxa” demais um trabalhador do conhecimento possivelmente reduzirá sua motivação e criatividade. Se você reduz a criatividade reduz a sua chance de conseguir algo inovador no futuro. Se você reduz a sua chance de conseguir algo inovador no futuro, compromete a melhora dos resultados, que é exatamente o inverso do que você, administrador, quer.esforco-util-02

É extremamente claro que estabelecer metas de esforço (procedimento) pode ser um tiro pela culatra. É também muito claro que quando fazemos isto estamos deixando completamente de lado a inovação e o aumento da eficiência do sistema (utilizando o conceito da engenharia de “esforço/resultado”).

Portanto, as administrações mundo afora que utilizam gestão por indicadores e metas deveriam colocar como prioridade zero a mudança para indicadores de resultado, mesmo que imperfeitos ou imprecisos. Estabelecendo metas de resultado como “consumo/km rodado” poderemos cada vez mais agregar valor ao nosso trabalho. E quando agregamos mais valor ao nosso trabalho temos plenas condições de exigir maior valorização da carreira e dos salários.

Vamos, de uma vez por todas, parar de empurrar pedras quadradas e buscar formas de arredonda-las.

afr.afonso@gmail.com

* Alexandro Afonso é Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

sindicais 

5 Comentários to “Esforço Útil”

  1. Parabéns, Alexandro, pelo artigo tão bem estruturado… É uma verdadeira engenharia alegórica…
    Na SEFAZ-SP, como de resto no Brasil atual, incluindo o nosso sindicato, há muitas, centenas, milhares de rodas quadradas…
    No momento, a classe está empurrando uma delas…
    Com algum planejamento, poderia ser arredondada, rodaria com mais desenvoltura e chegaria bem mais longe…
    Um abraço redondo.

  2. Valente, obrigado!

    Abraços redondos. rs

  3. Alexandro,

    Excelente texto! Na minha visão, o único caminho para valorização de nossa carreira é exatamente este: usar nossa inteligência e nossa capacidade de inovação a nosso favor. Continuar empurrando “pedras quadradas”, seja no trabalho, seja em nossas lutas sindicais, não nos levará a lugar nenhum. Se não trocarmos as “pedras”, o resultado de nosso trabalho jamais será proporcional ao esforço.

  4. Perfeito Alexandro. Olhando para trás, nos últimos 20 anos, só empurramos rodas quadradas.
    Parece que, infelizmente, no serviço público do nosso pais, essa é a norma “pétrea”…….
    E nossas associações classistas são contagiadas pelo mesmo vírus.

  5. Prezado Alexandro,
    Sou engenheiro e fui chefe numa empresa. Aprendi que a coisa mais difícil é ser justo com seus funcionários. Que cada um deles é um ser com cérebro e coração. e o mais difícil é “ver” , sentir o que está no cérebro e coração.
    Mas voltando ao nosso problema. Vejo que temos na realidade 2 problemas quanto a nossa remuneração. O primeiro é o teto salarial que não depende diretamente de nós, mas de um esforço conjunto com o Sinafresp e a Afresp juntamente com os colegas ativos e aposentados. E aí vejo um grande reforço dos colegas aposentados mas não inativos que poderiam auxiliar com suas idéias e relacionamentos para buscar caminhos que serão difíceis(talvez com rodas quadradas no início) mas não impossíveis. Outro ponto é a melhoria do valor da produtividade que está nas mãos dos colegas da ativa que confio na boa condução deles.
    Abraços.

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