De aluno retardatário a Auditor Fiscal


Everaldo Cerqueira
*

Estávamos no final de ano letivo de 1982. Já havíamos concluído o Conselho de Classe. Os alunos dependentes do Conselho de Classe aguardavam ansiosamente o resultado final. Entre os dependentes estava o Adalberto.

Esse educando estudava no turno noturno, na 2a série, do curso Técnico em Contabilidade, no “Comercial”. Ele foi reprovado nas disciplinas Contabilidade Bancária e Técnicas Comerciais por haver faltado às provas de recuperação final das duas disciplinas realizadas no mesmo dia. Uma das táticas desse aluno era a de sempre arranjar um motivo para fazer a segunda chamada de provas. Quando lhe era dado à oportunidade de fazê-las, fazia, mas resmungando. Desta vez não houve oportunidade de se fazer uma segunda chamada de provas. Por falta de espaço, de tempo, pois eram as últimas provas e, no dia imediato se processaria a realização do Conselho de Classe.

Esse aluno era apelidado pelos colegas de “macaco”. Apelido que o mesmo não gostava de ser chamado e revidava com termos pejorativos e ofensivos. Este apelido lhe foi dado por seus colegas pelo fato do mesmo haver desenhado na lousa quatro macacos, cada um com o rosto de um colega. O desenho era uma charge que comprometia a opção sexual dos quatro alunos. O Adalberto fazia com facilidade trocadilhos, versos, paródias ridicularizando os colegas. Sabia desenhar muito bem, no entanto tinha horror em fazer provas, exercícios, dever de casa e trabalhos escolares. Demonstrava preguiça para estudar, no entanto, era inteligente. Gostava de se fazer vítima quando tirava notas baixas em alguma atividade escolar – lamentava-se da sua sorte. Sempre desatencioso as aulas. Às vezes, durante algumas aulas, demonstrava estar mal humorado; em outras, conversava bastante e mostrava um comportamento inadequado à classe, com gracejos e brincadeiras de péssimo gosto, desviando a atenção dos colegas no assunto das aulas. Muitos de seus colegas o detestavam e reclamavam do seu comportamento.

Adalberto tinha dezoito anos, moreno, cabelos crespos pretos – cortados baixinho. Seus olhos eram graúdos castanhos. Era filho único, paraplégico, vivia preso a uma cadeira de rodas, com rodas feitas de madeira, revestidas com borracha de pneu de automóvel. Essa cadeira lhe fora presenteada pelo padrinho. Não morava com o pai. O seu pai fora para São Paulo, em busca de trabalho, quando ele tinha dois anos de idade, e nunca mais dera notícias. A sua mãe ganhava a vida lavando roupas.

Pela condição humilde e o estado físico de Adalberto, os professores e a coordenação lhe davam uma superproteção que era percebida por alguns alunos da classe.

As regalias desfrutadas por Adalberto eram deixar de entregar os trabalhos escolares aos professores nos prazos regulares. Os trabalhos eram entregues por ele na coordenação pedagógica fora do prazo determinado pelos professores. A coordenação os recebia e pedia aos professores para acatar a atividade, alegando o estado físico dele. Na maioria das vezes não fazia os deveres de casa, apresentando aos professores motivos injustificáveis. Pela condição humilde dele, os professores aceitavam as desculpas infundadas.

Na verdade, o Adalberto se aproveitava da sua origem humilde e condição de paraplégico para adquirir vantagens e ser paparicado. Ele achava que todos tinham o dever de aceitar sua mania de preguiça, sua falta de responsabilidade das obrigações de aluno, suas atitudes desatenciosas em classe. Um aluno tão desatencioso que no terceiro bimestre eu havia passado um trabalho para casa, da disciplina “Técnicas Comerciais”, como de costume, ele não fizera o trabalho proposto. Outros três alunos também não o fizeram. Então procurei saber dos alunos o motivo porque não fizeram o trabalho.

– Por que você não fez o trabalho Fernando?
– É professor, não pude fazer porque durante três dias
tive dores de ouvido e sai para ir ao médico. Entreguei o Atestado Médico na Coordenação.
– E você Augusto! Por que não fez?
– Eu tive dores de estômago. A comida me fez mal. Eu vomitei muito. Professor, eu trouxe atestado.
-Arlindo! O que houve com você, de não haver feito o
trabalho?! Você não é de faltar! O que houve rapaz?
– Professor eu me mudei para outro bairro. A minha casa estava uma bagunça danada. Por isso, professor, eu lhe peço uma oportunidade. O senhor me dá?
– Sim Arlindo. Eu lhe dou… Você não é faltoso…
– E o senhor seu Adalberto?
– Ah, professor! Ah professor! Eu não fiz porque lá em
em casa faltou luz… O senhor acha que eu ia fazer no escuro? Quero saber como vai ficar… Eu não posso ficar prejudicado!
– Tenha calma Adalberto! Eu vou estudar o caso dos que faltaram as aulas de hoje e não puderam entregar seus trabalhos, e o de vocês quatro.
Próximo ao término da aula de Técnicas Comerciais, Adalberto, sentado em sua cadeira encostada no canto do fundo da sala de aula, fazia gracejos, desviando a atenção de dois dos seus colegas, no momento em que dei o seguinte aviso para a classe:
– Avisem aos colegas que faltaram hoje e aos retardatários que poderão entregar o trabalho de Técnicas Comerciais na próxima aula.
Adalberto, do fundo da sala, perguntou:
– E meu caso, professor! Como fica?
– Você sempre não presta atenção aos avisos. O seu caso
fica na condição dos retardatários…
– Passaram-se dois dias, estávamos no intervalo de aulas, quando a professora Neide, vice-diretora, mandou me chamar para comparecer na vice-diretoria. Chegando lá, encontrei o Adalberto um pouco contrariado e a professora Neide me disse:
– Tudo bem, professor!
– Tudo bem, professora!…

– Professor, eu mandei lhe chamar para dizer que o Adalberto está se queixando do senhor haver chamado os colegas dele de retardados mentais. Só porque não fizeram o trabalho. E quando ele lhe pediu uma orientação. O senhor disse que ele ficaria na condição de retardado mental. Só porque ele estava um pouquinho distraído no fundo da sala conversando com um colega. Eu disse a ele que eu conheço o senhor muito bem. E tinha a plena convicção que jamais o senhor maltrataria um aluno. O que poderia estar ocorrendo, talvez, fosse um mal entendido. Mesmo assim ele continuou insistindo que o senhor o maltratou.

– Adalberto, você tem mesmo certeza que eu lhe maltratei?!! Procure ter muito cuidado com as suas acusações, meu rapaz!
– Ah! Eu tenho provas na sala.
– Rapaz! Eu lhe afirmo que você não tem nenhuma prova… Graças a Deus eu ainda estou lúcido. Eu tenho consciência do que digo e faço. O que está existindo é um mal entendido da sua parte. Em nenhum momento, na sala de aula, eu chamei ninguém de retardado, quanto mais retardado mental. Eu apenas disse: os retardatários poderão entregar os seus trabalhos na próxima aula. Retardatários significam os atrasados. Eu me referi aos alunos que atrasam na entrega dos trabalhos.
Adalberto, o que me surpreende é você, um aluno de 2a série do curso de Técnico em Contabilidade, com esta mentalidade. Você precisa de juízo meu rapaz!
– É, professora Neide, me desculpe – disse Adalberto.
– Eu não tenho nada a lhe desculpar, meu filho.
Desculpas você deve pedir ao professor e não a mim…
– Desculpe-me professor?
– Não há de quê, Adalberto! Vamos passar uma borracha nisso…

Durante o Conselho de Classe observei na Ficha de Resultados Finais da 1a. série de Adalberto que ele era um aluno de média cinco. Havia sido aprovado com média cinco em todas as disciplinas. E na 2a. série, se repetia o mesmo fenômeno. Exceto nas disciplinas de Técnicas Comerciais com média dois e meio. E Contabilidade Bancária com média três.

Os professores do Conselho ficaram bastante preocupados e sentidos com a reprovação de Adalberto nas duas disciplinas de Contabilidade Bancária e Técnicas Comerciais. Procuraram por todos os meios mecanismos que salvasse Adalberto da reprovação. Uns diziam: esta reprovação não vai ser boa para ele. Ele é um aluno carente e paralítico, não pode ser reprovado. Coitado do rapaz! Quê será desse rapaz! Outros diziam: gente tenha dó desse moço! Ele não tem pai. A mãe é lavadeira. Ele estuda com muito sacrifício! Vejam a condição dele! O esforço que ele faz para vim à escola todos os dias!!! Uma professora se dirigindo a mim disse:

– Colega, tenha coração! Veja o quê você vai fazer com esse rapaz? Eu sei que você vai solucionar o caso dele. Você vai?
– Colega, eu estou aqui como um profissional compromissado com a educação para orientar jovens a serem bons cidadãos. Graças a Deus eu tenho senso de responsabilidade!

Naquela noite, ao termino do Conselho de Classe, o Adalberto aparece acompanhado com a sua mãe. Ele me apresentou com o imenso prazer. Ela se chamava D. Selma. Essa senhora me transmitiu ser uma pessoa sofrida e trabalhadeira – por ela haver apertado a minha mão. Eu senti as suas mãos ásperas de calos. Pela sua fisionomia eu notei que ela tinha uma vida difícil. Era uma senhora jovem e morena. Tinha um sorriso agradável e fala calma baixa. Com um olhar triste, essa senhora me fez a seguinte indagação:

– Professor em nome de Santo Expedito, santo das causas impossíveis, o senhor tem jeito de passar o meu filho de ano?
– D. Selma, depende dele. Eu não aprovo ou reprovo aluno nenhum. O próprio aluno é que se aprova. Amanhã, a senhora o mande à escola que eu faço as duas provas dele, apesar dos professores e os alunos se encontrarem de férias.
– Ah meu professor! Deus lhe pague!!! Eu não sei como lhe agradecer! Eu tenho certeza que o senhor vai resolver o problema de meu filho…

No outro dia, à noite, fui até a escola esperar o Adalberto para ele fazer as duas provas. Esperei até as 11:30h, no entanto, mais uma vez ele não compareceu. Então, deixei recado na Secretaria do colégio que retornaria na noite seguinte para fazer as provas do Adalberto.

No dia seguinte cheguei às 18:30h. E às 19:00h o Adalberto apareceu, justificando a sua falta. Ele fez as duas provas e, naquela ocasião, eu lhe prometi dar o resultado no dia seguinte. Infelizmente, os resultados das suas provas foram péssimos. Em uma, tirou três – Contabilidade Bancária; na outra, dois e meio – Técnicas Comerciais. Nessa, que combinamos para eu lhe dar o resultado final. Ele me aparece acompanhado com a mãe. Essa senhora me fez o seguinte pedido:

– Professor, pelo amor de Santo Expedito, eu peço ao Senhor para ver se pode passar o meu filho. Ele é uma criança doente e precisa passar, professor. Ele está muito nervoso porque não passou com o Senhor. Veja o que o senhor pode fazer por ele?
– Minha senhora, eu vou pedir para ele vir aqui amanhã à noite. Então, amanhã ele deverá trazer todos os testes, provas, exercícios e trabalhos feitos durante o ano letivo. Entendeu, Adalberto?
– Mas amanhã, professor! O meu filho vai ter que vir novamente! Será que as pessoas não observam que meu filho é doente?!!
– Minha senhora, eu não vejo nele doença nenhuma. É um rapaz inteligente. Faz poesias e desenha muito bem…

Eu tenho plena convicção que ele tem um futuro promissor pela frente. Assim também eu poderia ser classificado como doente, pois enxergo pouco e mesmo com o uso de óculos, vejo com dificuldade. Quanto à senhora alegar da dificuldade do Adalberto vir à escola amanhã à noite, eu lembro à senhora que durante o ano letivo ele vinha todos os dias. Amanhã à noite será como se fosse um dia normal de aula para ele. Todos os professores estão de férias, no entanto, eu estou aqui para atender o seu filho… Estamos combinados Adalberto?

– Sim professor. Mas o senhor vai fazer a revisão das minhas duas provas? O Senhor vai?
– Amanhã à noite farei o que está pedindo. É um direito seu… Mas não se esqueça de trazer todos as suas avaliações. .
– Professor, eu tenho a certeza e fé em Santo Expedito, que, amanhã, o senhor vai resolver o problema do meu filho. Quê Deus abençoe e proteja o senhor!
– D. Selma, quê Deus abençoe e proteja a todos nós.
Na noite seguinte, o Adalberto aparece com as suas avaliações, acompanhado da sua mãe. Eu pedi a D. Selma para ficar a sós com o seu filho. Ela atendeu o meu pedido aguardando sentada na coordenação da escola.
No momento em que comecei a fazer a revisão da correção das provas e testes com o Adalberto, e mostrando os erros cometidos por ele. Ele me disse:
– Professor me dê dois pontos neste teste.
– Adalberto, eu não sou enfermeiro para dar ou tirar
pontos. Eu sou professor!
– Veja este outro teste, Adalberto, quanto você errou?
– Ah! professor! Eu sei. Mas me dê um ponto neste!

Naquele instante, Adalberto começou a chorar. Então eu lhe disse:
– Adalberto deixe de choro! Você é um homem ou não é!!! Não vejo nenhum motivo para você estar chorando! Você não é mais menino! Durante sua vida de estudante se resumiu em pedir pontos aos professores. Deixe dessa mania de mendigar de pontos. Você não é mendigo! Você não tem necessidade de ficar pedindo ponto a ninguém, rapaz! Você é muito inteligente! Faz poesias, paródias, desenha muito bem e é criativo. Na verdade, você é preguiçoso e aproveitador. Não vejo em você deficiência nenhuma que lhe impeça de você estudar. Você tem o mesmo direito que seus colegas. Para mim você é um homem normal, como qualquer uma outra pessoa. Não vejo defeito nenhum em você. Eu estou certo ou errado em lhe dizer estas verdades?!!!

De repente, o Adalberto me disse:
– Professor, eu não quero que o senhor corrija mais as outras provas e testes. O senhor tem razão. Não aceito que o senhor me aprove. Quero repetir o ano. O senhor me deu uma lição de vida. Até hoje ninguém me falou assim… Muito obrigado professor! Peço-lhe desculpas pelo trabalho que lhe dei…
– Não há de quê, Adalberto! É nossa missão! Educar é um ato de amor… É construirmos bons cidadãos…
Adalberto saiu contente em sua cadeira de rodas, no encontro de sua mãe.

Quando estava saindo da escola, a mãe do Adalberto me disse:
Muito obrigado professor, por ter resolvido o problema do Adalberto. Eu sabia que o senhor iria resolver. O menino agora está feliz da vida.

No ano seguinte, o Adalberto passou a ser o líder de classe. Transformou-se no melhor aluno da turma. Passou a ser chamado pela turma carinhosamente de “Betinho”.

Os colegas fizeram um “Livro de Ouro” para angariar fundos para comprar uma cadeira de rodas moderna para o Adalberto. Compraram uma cadeira de rodas moderna e elegante. O Adalberto ao recebê-la chorou de emoção. No término do curso, o Adalberto foi o orador da turma. O seu discurso foi muito bonito e emocionante, recheado de felicitações e agradecimentos.

Passados alguns anos, tive necessidade de ir até a Receita Federal. E lá encontrei o Adalberto na porta na Receita e ele me disse:
– Há anos que eu não lhe vejo professor! Quê prazer em vê-lo com saúde! Nunca me esqueci da lição de vida que você me deu. Foi uma lição que me fez criar um projeto de vida. Graças a ele, quando terminei o curso de Técnico em Contabilidade, fiz vestibular para Ciências Contábeis na Federal e fui aprovado. Depois, fiz concurso para Auditor Fiscal e fui um dos primeiros colocados. Hoje sou casado e tenho dois filhinhos. Vou te dar o meu telefone e endereço para você aparecer lá em casa. Estou sempre à sua disposição aqui na receita. O senhor foi e é para mim um mestre e amigo.

cerqueira-everaldo@bol.com.br 

*Membro efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras – AVBL – cadeira virtual 503, patrono Castro Alves. Membro nacional vitalício da Academia de Letras do Brasil, Cadeira nº13/ALB/BA, tendo como patrono o poeta sergipano Hermes Fontes. Em 12 de agosto de 2009, foi homenageado pela Academia de Letras do Brasil (Insituição de Cultura, Formação Superior e Pós-Graduação de caráter internacional) com a outorga do Título de Doutor em Filosofia Universal – PHI

One Comment to “De aluno retardatário a Auditor Fiscal”

  1. Essa estória vale para todos os brasileiros: é só pensar que no BRASIL consegue-se duas colheitas agrícolas ao ano; os minérios afloram à superfície com 50% de concentração; que o clima é totalmente favorável para se morar bem durante o ano inteiro nos 8.500.000 km2 de superfície do país, que temos rios em todo o país e são piscosos e navegáveis em sua maior parte por quê não evoluímos e deixamos de ser o país do futuro e sim sejamos o melhor país do mundo desde já viu ADALBERTO ….

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