– Coroné? Coroné? – Passa amanhã!

Alexandro Afonso*

corone1Século XXI exige democracia direta

Quando eu era menino e vivia em Diadema, cidade da região metropolitana de São Paulo, costumava sentar a tarde no beiral de casa (foto) com um amigo “da rua” e conversar sobre nada ou apenas olhar a paisagem (sim, naquela época Diadema era uma cidade cheia de árvores e com poucas casas).

Em frente a nós passava todo dia no mesmo horário um senhor que estava sempre embriagado, costumávamos chamar pessoas assim de “bêbados”. O apelido deste senhor era “Coroné”. Não “coronel”, era “Coroné” mesmo. Este meu amigo da rua sempre gostou de mexer com o Coroné. O motivo era simples: ele sempre respondia da mesma forma e era engraçado.

Meu amigo gritava:

“- Coroné? Coroné?” (pronunciando a primeira vez de forma mais enfática e a segunda menos)

Ele respondia:

“- Passa amanhã!”

E todo dia repetia a mesma cena. Ao avistar o Coroné meu amigo gritava de onde estava: “Coroné? Coroné?”. E ele respondia: “Passa amanhã!”.

Esta pode parecer uma história de simples nostalgia, “só que não”. Ela revela um traço profundo da cultura brasileira: a ditadura dos coronéis, formais e informais. Aquela lei não escrita que diz que todo brasileiro é incapaz de decidir por si próprio e precisa de “pessoas iluminadas e escolhidas” para fazê-lo. Ou mesmo aquela outra lei, também não escrita, que permite o cerceamento da liberdade de expressão seja no campo político ou no campo meramente idealista. Você ainda pode pensar em um monte de leis, nunca escritas, que derivam da cultura do coronelismo.

Diadema é uma cidade rica com cidadãos pobres. Apesar do seu PIB/capita ser mais de R$ 30.000,00 em 2011, uns 50% maior do que a média brasileira, segundo o IBGE (http://pt.wikipedia.org/wiki/Diadema), o PIB está concentrado nos detentores das indústrias que obviamente não são a maioria da população. Para a maioria da população resta os empregos com salários de até 2 ~ 3 mínimos que, apesar da nova interpretação dos dados pelos órgão públicos, com certeza não corresponde à classe média.

O IDH desta cidade foi de 0,757 em 2010. Ela foi governada por um mesmo partido por anos a fio. Ocorreu uma explosão demográfica, não houve planejamento. Proteção da propriedade privada em Diadema era como lançar um anátema sobre alguém. Apesar disto a cidade cresceu e o único problema foi que a estrutura da cidade não evoluiu junto e os moradores ficaram com “aquela cidade” que eles têm hoje. Apenas relembrando, o sistema de planejamento e execução de políticas públicas foi o mesmo vigente hoje no Brasil todo: eleja alguém “preparado”, o considere um “iluminado capaz de resolver todos os problemas sozinho” e esqueça de tudo. Afinal, você “delegou” esta atividade ao “iluminado”. “Delegar” não é mais uma palavra na moda?

corone2Ok. Delegar atividade do trabalho porque não se pode fazer tudo é realmente uma coisa boa. Não há como negar. Aliás, o poder público peca por excesso de concentração nas decisões, o que nada mais é do que mais uma herança da “cultura coronelista”. Porém, não há como delegar decisões pessoais ou anseios pessoais porque, obviamente, eles são pessoais (dãhn).

O que dizer, então, do nosso atual modelo de representação classista? Vamos colocar “no bolo” ambas as nossas entidades: Sinafresp e Afresp (a ordem dos fatores não afeta o resultado).

Retiradas devidamente todas as referências a quaisquer diretores, presidentes, conselheiros e funcionários de nossas entidades, temos em ambas um modelo de representação “coronelista” (eu estou escrevendo unicamente sobre o modelo de representação, não há referência a nenhuma pessoa nem desejo que se faça esta ligação porque ela não existe). Bom, o modelo de representação é o seguinte: fale com o seu representante. As reuniões do conselho ocorrem à revelia dos interessados (pelo motivo óbvio de eles não estarem presentes). São decididas coisas que talvez possam ser contra o que a maioria gostaria ou pode ser decidida na mesma direção dos anseios. Resta ao final suspeitas sobre a posição dos conselheiros: se elas foram no mesmo sentido dos filiados ou não, se houve pressão da diretoria ou não, se não houve informações suficientes ou não, se a reunião anterior com os representantes teve participação ou não, etc.

O Sinafresp não fica atrás. Muito pelo contrário. O Sinafresp junta duas coisas bem distintas num “mesmo bolo”. Ao mesmo tempo em que utiliza um sistema de representação “coronelista”, uma vez que os sindicalizados não podem decidir diretamente, utiliza um sistema de “decisão colegiada” para ações da diretoria. (aqui vale também toda aquela história de eu não estar me referenciando a nenhuma pessoa e sim unicamente ao modelo de representação)

O quê? É isto mesmo? Eu não estou errado?

Bem que eu gostaria de estar, mas não. É isto mesmo. A única razão de existir um presidente é para dar a decisão final e, poft, tiramos a decisão final de suas mãos. Grande! Bello! Linda escolha! “Óh céus! Óh Vida!”.

Isto resulta em decisões lentas e, às vezes, passíveis de questionamentos sérios (não como estes que não são tão sérios). Mas “no fundo no fundo” é apenas uma questão de escolha. O que desejamos para nossas entidades? Democracia direta com os indivíduos podendo fazer suas escolhas (autonomia) e se responsabilizando por elas, por exemplo, quando tomam a decisão de fazer algo que traz um malefício como o fim do diálogo com a administração, ou continuar com o modelo do “sempre foi feito assim”?

É óbvio que toda transição exige paciência e persistência. No começo nada são flores, mas no decorrer dos anos a dificuldade e as decisões erradas ensinam os participantes que devem pensar mais antes de decidir por “X” ou “Y” e, então, começam a desenvolver uma maturidade maior para estes casos e começam a, enfim, tomar decisões melhores. Neste modelo de democracia direta a única preocupação seria com a validade do processo de decisão, a “não manipulação” dos resultados e a efetiva execução das decisões pela presidência/diretoria das entidades. Nada que bons profissionais de TI (que a gente tem) não possam fazer. “Olá, estamos no século XXI”. Nada que bons presidentes e diretores não possam fazer também.

Eu poderia adentrar em aspectos da ciência comportamental que dizem que pessoas que tomam suas próprias decisões, são livres e responsáveis por seus atos vivem mais e melhor, mas como não sou acadêmico e meu conhecimento é reduzido nesta área, vou deixar para os especialistas. De qualquer forma, vale ressaltar que toda organização das instituições ligadas ao trabalho está passando por mudanças da forma de se organizar e de trabalhar. Há um processo de mudança do antigo modelo taylorista para modelos baseados na “teoria da autodeterminação e motivação intrínseca” como o “ROWE” (ambiente de trabalho voltado unicamente a resultados). Não é demais informar que aquelas instituições, órgãos, unidades ou famílias que adotam os modelos baseados na autodeterminação obtém mais sucesso do que seus pares tayloristas.

corone3A democracia direta é baseada também nesta teoria que cita que a motivação para fazer qualquer coisa por um impulso interno é prestigiada quando se tem “autonomia com responsabilização”, “excelência” (nem muito difícil nem muito fácil) e busca por “propósito”.

Já o seu colega taylorista inibe a autonomia, excelência vira piada de mau gosto e propósito se torna algo completamente deslocado da realidade. Criam-se “zumbis procedimentais s/a”, “mortos-vivos associados©” e “moitas amoitados®”. Ok, o modelo taylorista teve o seu papel na história. Mas sim, ele virou história. Não é demais lembrar: “Olá! Estamos no século XXI!”.

Portanto, meus queridos colegas, chegou a hora de pensarmos tudo no contexto de nosso querido século XXI. Chegou a hora de tomarmos as nossas próprias decisões. Chegou a hora de nos responsabilizarmos pelas decisões que tomamos como maioria. Chegou a hora da Democracia Direta nas instituições de classe, principalmente no Sinafresp! E se me perguntarem sobre o atual sistema de representação eu respondo:

-Coroné? Coroné?

-PASSA AMANHÃ!

.

Observação pertinente: todas as ligações aos termos “coronéis”, “coronelismo” e outros termos que possam ser considerados pejorativos não são atribuídos a nenhuma pessoa específica e trata-se unicamente de uma analogia ao sistema de representação das entidades de classe Afresp e Sinafresp que nada mais é do que uma cópia do modelo maior utilizado no Brasil. Não há como ninguém ficar melindrado com isto (ou pelo menos não há razão para tal) porque ninguém é um sistema de representação (óbvio). Além do mais, eu gosto bastante das pessoas que foram escolhidas conselheiras por minha delegacia em ambas as entidades e não tenho nada contra nenhum dos atuais diretores/presidentes ou passados. Mas, mesmo assim, eu peço desculpas antecipadamente caso qualquer um se sinta ofendido com qualquer termo utilizado neste texto. Repetindo, não estou aludindo a nenhuma pessoa e a intenção é unicamente contribuir para este debate que ainda não iniciou de forma séria. 2: sempre que escrevo um texto que “vai a público” fico com medo de retaliações. Nada mais é do que a cultura do coronelismo herdada pressionando por silêncio.

afr.afonso@gmail.com

* Alexandro Afonso é Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

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