Contrastes entre serviço público e iniciativa privada

por Vera Batista e Bárbara Nascimento*

Os concurseiros são adestrados a fazer exames e conseguir aprovação

O dinamismo e a globalização há tempos afetam o mercado de trabalho. Na iniciativa privada, mais que tecnicamente bom, o profissional, seja qual for a área de atuação, tem que ser primordialmente multitarefas e capaz de tomar decisões rápidas e imediatas. A premissa, hoje, segundo Leandro Garcia, professor de gestão de pessoas, da Escola de Negócios da Fundação Getúlio Vargas (IBE-FGV), é priorizar mão de obra que saiba desenvolver várias atividades simultâneas e “fazer mais com menos”. Essa vitalidade, tão requisitada pelas companhias privadas, contrasta, no entanto, com a pesada burocracia do setor público, o que torna a prestação do serviço ao cidadão cada vez mais distante daquilo que a sociedade merece e exige.

Enquanto servidores cruzam os braços e exigem aumento de pessoal para fazer funcionar a morosa máquina pública, as empresas optam pela manutenção do quadro, redução de preços e aumento da competitividade. Concursos públicos abrem oportunidades de estabilidade todos os dias, ao mesmo tempo em que os departamentos de corporações que precisam obrigatoriamente dar lucro estão cada vez mais enxutos, porque podem lançar mão de profissionais multitarefas. No serviço público, comparou Garcia, em obediência à lei, o trabalhador só e permitido usar seus conhecimentos exclusivamente naquela carreira, para a qual fez concurso.

“Ainda há uma visão muito especialista. Empresas e órgãos públicos estão chegando a uma saturação. É preciso rever a regulamentação e aparar arestas. O congelamento do servidor não é produtivo. Está na contramão dos avanços tecnológicos. Se há corrupção, nepotismo e outras falcatruas, sem dúvida devem ser investigadas. Mas temos que repensar tudo o que foi feito até hoje. O que não se pode é usar a lei contra o próprio Estado impedindo o arejamento de mentes”, afirmou o professor.

Além disso, no entender de Garcia, outro assunto que impede avanços na administração pública é a briga pela isonomia fácil das remunerações que se estabeleceu na Esplanada dos Ministérios – denunciada inclusive pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior. Querer que todo mundo ganhe o mesmo salário é um comportamento que demonstra que está longe do serviço público a perspectiva de que ganha mais quem trabalha mais e tem merecimento, reforçou.

Nem mesmo a chegada das novas gerações, chamadas de Y e Z – de 20 a 33 anos -, deu novo gás ao funcionalismo. Porque se preservou velhos hábitos, disse Garcia. Não houve uma política pública específica para esse grupo que entra no mercado de trabalho com excelente preparo acadêmico, domínio de várias línguas estrangeiras e capacidade para desempenhar diversas funções, desde tática e operacional até os níveis mais estratégicos. Enfim, se achando ágil e pronto para ocupar cargos de liderança.

“Já cresceu sabendo manipular várias janelas do computador e, ao mesmo tempo, falar no celular e ouvir música. Mas não lhes foi ensinado, na vida pública, que o casamento perfeito é a união da teoria com a prática. Que é fundamental respeitar a experiência dos mais velhos. Que é preciso aproveitar o que cada um tem de melhor e que a transferência de conhecimento tem que ocorrer. Que a palavra de ordem é compartilhar. E que ninguém tem futuro, se não tiver história”, disse o professor da IBE-FGV. Assim, o compartilhamento, que se traduz em respeito, está em fase de adaptação na iniciativa privada. O mesmo não acontece no setor público, onde “há uma mão invisível que dá e tira e desnorteia”, analisou.

Adestramento – O que não falta no serviço público são pessoas com alto padrão de conhecimento técnico. “Mas que não tiveram formação cidadã, não ampliaram a visão de mundo e não se interessam em ter o conhecimento do que é o Estado”, destacou Gil Castelo Branco, fundador e secretário-geral da Associação Contas Abertas. Dono de um severo senso crítico e, ao mesmo tempo, de um fresco bom humor, Castelo Branco conta que, certa vez, ouviu uma frase e passou a usá-la quando é convocado a analisar o setor público. “Com o passar do tempo, o cidadão sabe mais sobre um universo cada vez menor. A tendência, no futuro, é saber tudo sobre nada”, ironizou.

Ele destacou também que várias empresas estrangeiras, para treinar bem seus executivos, fazem com que passem por diversas áreas até ter uma visão global da companhia. Em sentido inverso caminha o setor público. “Os ministérios não conversam entre si. Um descobre tempos depois que outro está rodando projetos semelhantes. Mas as áreas estão separadas e continuam sem se unir. Dá a impressão de que é de propósito para evitar a transparência e elevar custos”, destacou. Um outro detalhe sensível aumenta as distâncias físicas e psicológicas, afirmou Gil: a febre de concurso público, sobretudo em Brasília.

Os concurseiros são adestrados a fazer exames e conseguir aprovação. Como quaisquer adestrados, são capazes de reproduzir algo para o qual foram treinados, mas não saberão fazer coisas diferentes”, disparou. Gil contou que conversava com um amigo, servidor de um grande instituto de pesquisa, que lhe disse que o clima dentro do órgão estava cada vez pior. Não por perseguição ou ingerência política. Segundo Castelo Branco:

O problema é que os jovens que chegam, com mestrado e doutorado, não trocam ideia com seus pares. Fazem um paper (publicação especializada), o colocam na rede secamente, com a empáfia de quem diz: ‘já passei no concurso, não devo nada a ninguém, minha opinião é essa’. Falta diálogo e visão do coletivo. A arrogância têm sido a tônica”.

Por outro lado, disse ele, pesquisas identificaram que as pessoas estão mais infelizes. Buscam dinheiro e estabilidade a qualquer preço. Não se importam com talento e vocação.

“Há vezes que o cidadão tem conhecimento e experiência em uma área, mas é aprovado em uma carreira que exige comportamento totalmente diferente do seu verdadeiro interesse pessoal. Fica com aquilo represado, porque o Estado também não facilita a vida dele. A lei não permite uma simples troca de carreira”, lembrou. Gil concorda com Garcia na avaliação de que, se, por um lado, a restrição de acesso por concurso público é uma medida eficaz para barrar nepotismo e apadrinhamento, por outro, se transforma em um ônus para o Estado manter um servidor desmotivado, que não cumpre seu papel e ainda trata mal a população. “Um dilema que acaba envolvendo o país”, lamentou.

O Ministério do Planejamento, a quem cabe informar sobre planos de cargos de carreiras do Executivo, preferiu não entrar no debate. Em nota, do órgão explicou que, conforme previsão legal (Constituição Federal/88 e Lei 8.112/90), é exigido do servidor exercer o cargo para o qual foi aprovado em concurso público. “A mudança de um cargo efetivo para outro cargo efetivo diferente somente é possível mediante aprovação em novo concurso público”, assinalou a nota. Ele só pode circular em alguns casos, como ao ocupar cargo ou função comissionada.

*Vera Batista é jornalista há 30 anos, professora, pós-graduada em Políticas Públicas e de Governo
Bárbara Nascimento é graduada pela Universidade de Brasília (UnB), trabalha na editoria de Economia do Correio Braziliense

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4 Comentários to “Contrastes entre serviço público e iniciativa privada”

  1. O concurso pode não ser o mundo ideal, mas imagine se não existisse, como seriam preenchidos nossos queridos cargos? Quem iria entrar? Os mais competentes ou os amigos do rei?

    A matéria tem pontos positivos, mas ao tratar a inciativa privada como ‘modelo’ para o setor público, perde muito em crédito. O Estado não é uma empresa, e mesmo as empresas são cheias de defeitos. Ou alguém acha que a maioria dos diretores e cargos que ganham bem (geralmente o 1% da empresa) são escolhidos com base exclusivamente em competência.

    Dentro de cada carreira existe diversas tarefas (ao menos em algumas, creio), por isso dentro da carreira a mobilidade é necessário e extremamente benéfica. Agora sugerir, como parece, que o servidor possa exercer uma função pela qual não prestou concurso por uma suposta aptidão ou currículo… Imagine se um AFR fosse ser procurador, ou um procurador fosse ser AFR… ou APOF fosse ser executivo público de educação… bem, não sei…

    O que é necessário é uma reforma do setor público, reforma que não necessariamente tem que transformar o Estado num extensão da iniciativa privada.

  2. Subscrevo a sua análise Hugo. O objetivo de divulgar este artigo era de ampliar o debate, para, inclusive desmistificar a aura da iniciativa privada, tão em moda, principalmente para os propagadores do chamado “choque de gestão”, que acabam, de certa forma, desfigurando o papel do setor público. Infelizmente, o cidadão comum acaba sendo iludido com esse tipo de marketing político.

  3. Ainda bem que não sou mais jovem, então não tenho como vestir a carapuça 😉
    Infelizmente tem havido prepotência em todos os lados e mesmo que não seja a maioria, isso acaba estigmatizando todo o grupo e muita vezes afastando da participação aqueles que têm bom senso. Assim como entre os mais experientes não existem apenas os que apoiaram a reestruturação, entre os novos não existem apenas egocêntricos e prepotentes como se têm pintado ultimamente.
    Saudações

  4. podem falar o que quiser, serviço público > privado, o choro é livre e de quem nunca passou em um, essa é a verdade 🙂

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