USP, 80 anos

João Francisco Neto*

As coisas seguiam placidamente para a maior universidade do País, quando, de repente, quase que do nada, a USP emerge com tudo no noticiário, e por duas razões nada edificantes: uma pesquisa recente indica que ela perdeu o posto de principal universidade da América Latina, e, como se isso não bastasse, estaria às portas da falência, com uma folha de pagamento que consome 105% das suas receitas.

Na verdade, essa instituição de ensino, que há décadas vem se mantendo na vanguarda da produção de conhecimento e da pesquisa científica no Brasil, tinha outros planos para esse ano, já que no dia 25 de janeiro de 2014 comemorou os 80 anos de sua fundação. Na ocasião, o ex-governador Cristovam Buarque escreveu que “A USP é uma das raras histórias de sucesso no Brasil. Só isso seria suficiente para comemorarmos seus 80 anos”.

Mas, voltemos um pouco no tempo, para tentar entender as raízes dessa gigantesca instituição. Em 1930, vastos setores descontentes com a chamada política do “café com leite” (São Paulo e Minas se revezando no poder) aplicaram um golpe de Estado, a chamada “Revolução de 30”, assumindo o poder sob a liderança de Getúlio Vargas. A insatisfação dos paulistas logo deu origem à Revolução Constitucionalista de 1932. Em 1934, Armando de Salles Oliveira, na condição de interventor do Estado, juntamente com o jornalista Júlio de Mesquita Filho, realizam um sonho que há muito vinham acalentando: a fundação da Universidade de São Paulo. A derrota na Revolução Constitucionalista não havia sido muito bem digerida pelas elites paulistas que, assim, queriam dar ao governo federal uma demonstração clara e inequívoca da autonomia cultural e científica do Estado de São Paulo, que já detinha a liderança econômica. Até a data da fundação foi cuidadosamente escolhida para coincidir com o aniversário da cidade de São Paulo: 25 de janeiro.

Para colocar em cena uma universidade de vanguarda, comprometida com a pesquisa, a excelência do ensino e a busca de conhecimentos aplicáveis à realidade do País, diferentemente de tudo o que existia no Brasil, o governo do Estado não economizou: contratou renomados professores estrangeiros, como os franceses Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss e Ferdinand Braudel, entre tantos outros. Inicialmente, a nova universidade foi constituída pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e pelas já existentes Faculdades de Direito, Escola Politécnica, Medicina e Agricultura. Posteriormente, o Estado desapropriou uma imensa gleba de terra de cerca de 200 alqueires, na antiga Fazenda Butantan, onde foi construído o principal campus da USP.

E assim a USP firmou-se, ao longo dessas oito décadas, como o mais importante polo de pesquisa acadêmica do País e principal formador das elites políticas e administrativas. Hoje, afundada numa crise financeira, a USP enfrenta uma série de problemas. O primeiro deles é o seu gigantismo: cerca de 92 mil alunos, 5,8 mil professores e 17 mil funcionários administrativos, tudo sustentado por uma considerável fatia do ICMS arrecadado (9,57% divididos entre a USP, Unesp e Unicamp).

O crescimento desordenado da universidade acabou transformando-a numa espécie de baleia: forte, mas lenta

Não é de hoje que vem pipocando queixas sobre a dificuldade de gerir uma instituição desse porte. Ao longo dos tempos, a USP tem se negado a discutir publicamente as questões dessa natureza, e tampouco tem feito cooperações com a área federal – somente agora, declara que vai discutir uma eventual utilização do Enem em seu exame vestibular. O resultado aí está: um impasse institucional, em que, com uma legião de funcionários e professores em greve, a universidade não vê uma saída para a sua crise gerencial e o abalo na avaliação acadêmica que aranhou o seu até então sólido prestígio. Paca complicar mais ainda as coisas, voltou à baila a antiga discussão sobre cobrança de mensalidades, assunto considerado tabu dentro da USP, e sobre o qual nunca houve uma discussão civilizada, pois os argumentos são passionais e descabem até para agressões. Assim, fica difícil fazer festa de aniversário.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA DO EDITOR: Os textos dos articulistas não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR, sendo de única e exclusiva responsabilidade do autor.

One Comment to “USP, 80 anos”

  1. Há muito tempo se conhece esta bomba relógio. É necessário que os aposentados saiam do orçamento da USP, caso contrário a situação ainda vai piorar muito para começar a melhorar… http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2105200001.htm

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