O mal-estar da civilização

jfrancisconewJoão Francisco Neto

A humanidade vive uma onda de ansiedade e angústia, que se reflete no vertiginoso número de pessoas acometidas pela depressão. Infelizmente, isso não é nenhuma novidade. Em 1929, Freud (1856-1939), com base em estudos e observações, já havia chegado à conclusão de que o indivíduo não poderia ser feliz na civilização moderna. Em seu livro “O mal-estar na civilização”, uma das obras centrais do pensamento ocidental, Freud demonstrava que, apesar de todo progresso material e científico, o homem não havia se tornado mais feliz; achava que, para a satisfação do prazer e o alcance da felicidade, o homem teria que realizar trabalhos penosos. Ocorre que, como regra, o ser humano não é naturalmente afeito ao trabalho. Daí que, por meio da repressão social, os indivíduos acabariam por sublimar suas pulsões sexuais, canalizando-as para o trabalho. Ademais, agindo assim, as pessoas poderiam gerar os bens materiais e intelectuais que mantêm a sociedade. Nesse sentido, Freud escreveu que:

A civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica, visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem de ser retirada da sexualidade”

Nessa mesma época, nas primeiras décadas do século 20, nos círculos marxistas, acentuaram-se os estudos sobre diversas categorias conceituais, como a chamada reificação. A reificação, um conceito estudado com mais atenção a partir da obra do filósofo húngaro Georg Lukács (1885-1971), configura-se como um processo pelo qual, nas sociedades industriais, o valor do que quer que seja – pessoas, relações humanas, instituições – apresenta-se à consciência do homem como um valor econômico, um valor de troca, reduzido, portanto, à mera condição de uma mercadoria ou uma coisa. Assim, as relações sociais – e as de trabalho – transformam-se numa relação entre coisas, que prevalece sobre o valor da relação entre pessoas. E que ninguém se engane, pois isso não mudou nada. Com o avanço das tecnologias, em muitos casos, as pessoas valem até bem menos do que certas coisas e processos.

Na verdade, a insatisfação já vinha se acentuando desde o advento da modernidade, no século 18. Modernidade é o termo utilizado para indicar o período histórico em que se deu a superação definitiva dos dogmas medievais, ou seja, a partir do Iluminismo (século 18) e da Revolução Francesa (1789). A modernidade configura-se, então, pela ruptura com a visão teocêntrica do mundo, que passa a ser explicado por uma perspectiva científica e racional. A modernidade provoca uma inversão da relação entre o homem e a natureza; agora, o homem não mais a teme, pois percebe que ela pode ser algo controlável e até usufruível. Os novos deuses da modernidade são a ciência, o progresso, a técnica e a razão. A partir de então, todas as ações humanas, além de justificadas por, passaram a ser orientadas para o bem do progresso e da ciência. Em nome disso, muita barbárie foi cometida – e continua sendo. Auschwitz e todo o horror do Holocausto; os massacres promovidos por Stálin; as grandes guerras mundiais; as invasões; o Vietnam; tudo isso, e muito mais, foi – e vem sendo – justificado pelos ideais do progresso e da ciência. Como se sabe, o inferno sempre esteve cheio de boas intenções; seguramente, esse ditado nunca foi tão bem aplicado. A partir do final da 2ª Guerra Mundial (1945), começaram a surgir os sinais de esgotamento dos valores da modernidade, que havia prometido muito, mas realizado pouco.

Por um período que durou até o final do século 20, o mundo assistiu à eclosão dos mais diversos movimentos, todos com a finalidade de desconstruir os chamados “valores da modernidade”. Vieram então as lutas contra a repressão social e sexual: a contracultura, que atacava os modelos da cultura tradicional; uma nova estética (o rock’n’roll, o movimento hippie), que nada tinha a ver com os modelos clássicos; o choque de gerações, que não mais aceitavam os padrões tradicionais de comportamento, etc. Apesar de tudo isso, hoje, o mal-estar de que falava Freud ainda se apresenta por meio da insegurança, da miséria, do desemprego, da violência crescente, da falta de perspectiva, pela instabilidade econômica, pela infindável onda de corrupção política, pela decadência dos valores da cultura atual, etc. No fundo, permanece a mesma visão pessimista do futuro da humanidade. Pelo que se vê no presente, não se permite vislumbrar sinais de que tão cedo isso vá mudar. Exemplos práticos? No microcosmo de importantes setores do serviço público (educação, saúde, segurança pública, por exemplo) vemos um aspecto desse mal-estar: funcionários desmotivados, mal pagos, mal aproveitados e sem perspectivas, entre outras mazelas. Insatisfeitos, trabalham por trabalhar.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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2 Comentários to “O mal-estar da civilização”

  1. Interessante análise; imaginemos se os autores clássicos, Freud e os demais, incluídos os caras da Escola de Frankfurt, que se debruçaram a estudar o mal estar da civilização, pudessem constatar que, no mundo líquido do Século XXI, a sublimação da pulsão sexual encontrou uma nova e ágil forma de reificação – onde não existem coisas para serem “tocadas” e/ou trocadas, senão simulacros de imagens, que nos remetem a outras imagens, que nascem e morrem no piscar do olho de um click…

    • Prezado Carlos,

      Agradeço-lhe por sua atenção e pelo comentário.

      Você tem razão: acho que as questões abordadas neste texto foram objeto de uma criteriosa análise pelo filósofo Zygmunt Bauman, quando fala da “modernidade líquida”.

      Abraço,

      João Francisco

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