O fetiche dos cargos

jfrancisconewJoão Francisco Neto*

Não é de hoje que o Brasil é conhecido com a terra dos “doutores” e bacharéis. Por aqui, o simples fato de alguém ocupar um alto cargo, uma direção, seja lá o que for, ou, ainda, ser o proprietário de um grande negócio, já basta para que o dito cujo passe a receber a deferência de ser chamado de “doutor”. Nas grandes empresas e instituições públicas, então, isso é quase uma lei: o “pessoal de cima” será sempre “doutor”. A ironia nisso tudo é que os verdadeiros doutores – com defesa de tese de doutorado – raramente são chamados de doutores; aliás, a maioria nem faz questão disso, reservando o grau acadêmico para mera citação no currículo.

O fato é que vivemos num país estranho, onde as aparências contam muito. Nessa (falsa) linha, supõe-se que aqueles que ocupam os mais altos cargos sejam sempre detentores de mais conhecimentos do que os demais, que estão “por baixo”. Caso vivêssemos no mundo da meritocracia até deveria ser assim, mesmo. Mas, não é. As altas posições são ocupadas pelas mais diversas razões: a primeira e a mais importante é a política. Conduzida pelos braços da política qualquer pessoa pode ocupar qualquer cargo neste país, e isso já está fartamente provado e comprovado.

Não menos importantes são as relações de compadrio e puxa-saquismo, que, tendo aportado por aqui nas caravelas lusitanas, encontraram um solo fértil para se enraizar e florescer. Diante desse quadro lamentável, o indivíduo que militar nos partidos do poder, ou concordar em servi-los, já terá meio caminho andado para ascender aos mais altos cargos da República. Muita gente, então, se pergunta: por que o Brasil, sendo tão grande e rico como é, encontra-se na situação em que está? Uma das respostas está aqui.

Essa forma de ocupação e loteamento dos altos cargos públicos está tão disseminada e assentada que, tão logo se proclamam os vencedores das eleições, dá-se a largada para uma verdadeira corrida em busca das melhores posições. É óbvio que, salvo raras exceções, ninguém está pensando em coisas como adequação ao cargo, preparo, contribuição ao serviço público, etc. Os vitoriosos dessa guerra insana emergirão como os novos “doutores”, aos quais uma legião de servidores deverá obediência. Já no cargo, ninguém mais ousará questionar o seu título de “doutor”, que lhe confere um discreto charme.

Há casos em que a “autoridade” é até mesmo detentora desses títulos, o que, na verdade, quer dizer pouca coisa, pois o que não falta é gente absolutamente vazia e desinteressante, laureada com todos os títulos acadêmicos.  Já vi situações constrangedoras em que, do alto do seu poderoso currículo, a “autoridade”, não tendo nada de substancial e interessante para falar, passa a discorrer sobre obscuras teses acadêmicas para se dar um ar de sabedoria, que ela, de fato, não tem. Mas, o fetiche do cargo e dos títulos é avassalador. Percebam que, muitas vezes, o ponto alto de uma apresentação é a leitura do currículo do palestrante. O mestre de cerimônias se enche todo para desfiar um rosário de títulos e cargos: é mestre nisso, doutor naquilo, pós-doutor em outra coisa, diretor disso, presidente daquilo, etc.

Nesse momento, a “autoridade” palestrante, a um passo do êxtase, com o olhar impassível, quase que levita, imaginando ter atingido o ápice da glória terrena. Mais do que isso, só se ele ascendesse aos céus e lá fosse recebido por Deus, São Pedro e pelos Arcanjos, entoando cânticos de saudação, enquanto ele próprio recitaria o Fausto de Goethe (2ª parte !). O que virá depois, ou seja, o conteúdo de sua fala já não interessa mais. O resumo de tudo isso é que os altos cargos conferem à pessoa a ilusão de que ela é mais capaz do que todas as outras, pois o que ela diz ou escreve não só tem a força normativa e hierárquica, mas, também, a aparência de que seja fruto de uma mente intelectualmente mais bem preparada. Essa é a imagem que fica para o público em geral, pois, afinal, se fulano ocupa o mais alto cargo daquela instituição deve ser ele o que mais sabe. Deveria.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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2 Comentários to “O fetiche dos cargos”

  1. Mesmo entre os “Doutores”, com doutorado e tudo, há uma “guerra” para ver quem agrega mais ao currículo… Conquistando respeito acadêmico sem esforço – http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2014/12/conquistando-respeito-academico-sem.html

    • Na verdade, Regis, os títulos acadêmicos, por si só, não querem dizer grande coisa não. Na academia todos sabem disso. Porém, no meio acadêmico, trava-se de fato uma verdadeira “guerra” de títulos para, digamos, empoderamento do currículo. Muita tese já foi escrita e muitas pesquisas realizadas somente para a “glória maior” do próprio sujeito. São casos em que, a contribuição para o progresso da ciência, em grande parte, é nula.

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