O fantasma de Malthus

jfrancisconewJoão Francisco Neto

Em 1798, o economista e pastor anglicano Thomas Malthus publicava um livro (“Ensaio sobre o Princípio da População”) que trazia uma sombria previsão para a humanidade: com base em seus estudos e observações, Malthus achava que a população cresceria muito mais do que a capacidade de produção de alimentos. Em suas palavras, enquanto o aumento da população se daria numa progressão geométrica, a produção de alimentos seguiria uma progressão aritmética, de forma que, com o passar do tempo, não haveria comida e nem terras suficientes para todos. Segundo a visão apocalíptica de Malthus, essa crise de subsistência só se resolveria pelo drástico efeito das guerras frequentes e das epidemias, que, como sempre, afetam os grupos mais desfavorecidos da população, ou seja, os pobres, que sempre foram a maioria.

Ocorre que, enquanto Malthus escrevia, a Revolução Industrial avançava e seria a responsável pela tecnologia que possibilitaria o aumento da produção de bens e alimentos que afastaria de vez o fantasma de um mundo superpovoado e sem alimentos para todos. De lá para cá, muita gente já escreveu para comprovar que, felizmente, Malthus estava errado. Porém, os seus estudos demográficos serviram para chamar a atenção para aspectos até então pouco observados, como a questão do esgotamento dos recursos naturais. Nesse sentido, Malthus, teria introduzido a preocupação com os impactos ecológicos da atividade humana; a seu modo, seria um ambientalista avant la lettre. De qualquer forma, o pensamento de Malthus nunca mais sairia da moda. Volta e meia, não falta quem o ressuscite, ainda que com uma roupagem mais moderna, digamos assim – são os chamados “neomalthusianos”. Em síntese, os neomalthusianos consideram que uma superpopulação é um sério obstáculo ao desenvolvimento dos países; por isso, fazem uma forte defesa do controle da natalidade e do planejamento familiar.

Bem mais tarde, o demógrafo americano Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford (EUA), publicou uma obra que, sem trocadilho, cairia como uma bomba: “A Bomba Populacional”. Segundo Ehrlich, “a batalha para alimentar a humanidade estava perdida; nos anos de 1970, centenas de milhões de pessoas morreriam de fome; e nada poderia evitar um aumento substancial da taxa de mortalidade infantil”. De novo, essa profecia catastrófica seria rapidamente afastada, agora pelos efeitos positivos da “revolução verde”, que, devido à ação de novos fertilizantes e seleção de sementes, possibilitou um espetacular aumento da produção de alimentos. Contudo, o fantasma da “bomba demográfica” anunciada por Ehrlich foi, de certa forma, assimilado por alguns países como a China, que, pouco tempo depois, passou a adotar a política de um único filho.

Apesar dos avanços tecnológicos que aumentariam significativamente a produção de alimentos, ao mesmo tempo em que ocorreria uma sensível diminuição da taxa de fertilidade, ainda persistem imensos bolsões de fome e miséria pelo mundo afora, notadamente na África. Para a maioria dos 7 bilhões de habitantes do mundo, a questão não é mais o medo de morrer de fome.

Se, por um lado, a demanda hoje, é por serviços essenciais a uma vida digna, como habitação, educação, saúde, energia, saneamento básico, transporte, emprego, seguridade social, entre outros; por outro lado, crescem as demandas derivadas do fascínio pelos ideais consumistas, que povoam a mente das novas gerações, totalmente capturadas por todo tipo de equipamentos tecnológicos de “última geração”, como smartphones, tablets, notebooks, etc., que, de certa forma, trazem uma ilusória sensação de ascensão social.

No Brasil, o desafio atual está mais ligado à superação do nosso atraso nas questões de infraestrutura (quando, enfim, teremos boas ferrovias?), sem contar o caótico atendimento à saúde pública, a educação sucateada (já tivemos, sim, uma boa educação pública!), transporte urbano aviltante, etc. Além de comida, o povo quer serviços públicos eficientes e decentes, e para todos.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: