O Estoicismo

João Francisco Neto

Há séculos, o homem vem se ocupando de questões filosóficas, para tentar obter respostas para as mais diversas indagações da vida. Como viver uma vida feliz e virtuosa? Como se preparar espiritualmente para o futuro? Como alcançar a salvação? Até o advento do cristianismo, todas essas questões eram objeto de estudo e reflexões feitas pela filosofia, que, no mundo ocidental, teve seu início na Grécia antiga, e, de lá, foi difundida pelo mundo todo, por obra dos romanos e do imperador Alexandre, o Grande. Dentre os mais diversos ramos da filosofia que floresceu no mundo grego, um deles tem características que fizeram com que o seu interesse perdurasse até nossos dias: o estoicismo. Essa curiosa vertente da filosofia antiga tem como objeto a observação sobre a arte de bem viver, além das questões éticas e morais da condição humana. Parece complicado, mas não é. Epicteto, um dos mais famosos filósofos estoicos, dizia que, para se viver uma vida boa, é preciso aceitar o mundo tal como ele é, e expulsar do nosso espírito o medo, a inveja, a alegria pelos males dos outros, a avareza, a preguiça e a incontinência. Simples, não ? Interessante observar que o filósofo grego Epicteto (55 dC-135 dC) , embora tenha passado a maior parte de sua vida como escravo em Roma, sentia-se um homem plenamente livre, porque podia dar asas a seus pensamentos.  Já naquela época, Epicteto aconselhava as pessoas a adotar uma atitude de não-apego aos bens materiais – à maneira do budismo -, preparando-se para o fato de que nada é para sempre neste mundo, pois tudo muda e tudo passa, inclusive nós mesmos.

Originário da Grécia, foi justamente em Roma que o estoicismo atingiu seu auge, com a obra de dois grandes pensadores: Sêneca e o imperador Marco Aurélio. Sêneca (4 aC-65 dC), autor da máxima “enquanto se espera viver, a vida passa”, dizia que era preciso aprender a viver como se o instante mais importante da vida fosse aquele que nós estamos vivendo no exato momento, e que as pessoas que mais contassem fossem aquelas que estão diante de nós, pois o passado não está mais aqui e o futuro ainda não chegou. Sêneca achava que a única dimensão da vida real era a do presente que, para ser virtuoso, deveria ser vivido sem paixões extremadas. Na mesma linha, o imperador romano Marco Aurélio (121-180), também aconselhava: “Lembra-te de que cada um de nós só vive no momento presente, no instante. O resto é o passado, ou o obscuro futuro. Pequena é, pois, na verdade, a extensão da vida. Tudo o que desejas alcançar por um longo desvio, podes tê-lo desde já. Basta abandonar todo o passado, confiar o futuro à providência e dirigir a ação presente para a piedade e a justiça”. Sêneca, além de filósofo, foi tutor do imperador romano Nero, passando quase toda a vida a seu lado, como conselheiro, até que, implicado numa conspiração justamente contra Nero, foi obrigado a cometer o suicídio. Sêneca, que entrou para a história como um dos maiores nomes da literatura latina, ficou famoso pela clareza com que escrevia suas obras sobre a filosofia estoica.

A esta altura, vale observar que o “bem viver” dos estoicos não tinha nada a ver com a busca insaciável pelo prazer, muito comum na atual sociedade de consumo. Para os estoicos, enquanto o animal é dominado pelo instinto, o homem é guiado pela razão, e o mundo que a razão lhe apresenta é a natureza, governada pela razão divina – tudo tem um motivo para ser e nós não podemos mudar isso. Daí, um dos lemas dos estoicos ser: “é preciso viver segundo a natureza”. Para Cícero, a natureza constitui o mais belo dos governos. Durante cinco longos séculos (do séc. III aC ao séc. II dC) o estoicismo reinou absoluto no mundo antigo, mas, sucumbiu ao advento do cristianismo, que, com sua doutrina da salvação, proclamou a vitória sobre a filosofia grega. Contudo, o pensamento estoico continua sempre presente e, hoje, integra muitas “regras de bem viver” amplamente difundidas por obras de autoajuda, como: 1) Lembre-se: você vai morrer (todos vamos!); 2) Nada é permanente; 3) O passado já era; 4) O futuro é incerto (e ainda não existe!); 5) O presente é tudo que temos; 6) Você não pode fazer tudo; 7) Você não pode controlar tudo; e 8) Há muitas coisas que você não sabe e, provavelmente, nunca saberá – e, muitas vezes, nem vale a pena saber.

É isso aí: o estoicismo é, no fundo, a simplicidade!

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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