O bonde perdido

jfrancisconewJoão Francisco Neto

Há no seio da sociedade uma amarga sensação de que o Brasil perdeu o bonde da História, expressão utilizada para demonstrar que o País já teve claras oportunidades em que poderia ter tomado novos rumos, para consolidar a democracia e promover o desenvolvimento nacional, deixando para trás todas as práticas nocivas de corrupção e imoralidades que sempre pautaram a vida política brasileira.  A meu ver, o Brasil perdeu o bonde da História nos seguintes momentos: 1º) na proclamação República; 2º) no final da 2ª Guerra Mundial: e 3º) na redemocratização (“Diretas Já” e Constituição de 1988).

No 1º caso, após a abolição da escravatura e o advento da República, chegava ao fim o longo período imperial e o Brasil ingressava num novo tempo, pleno de esperanças e ávido por renovação. Afinal, a república e o sistema federativo foram adotados sob inspiração dos Estados Unidos, que, naquela época, passavam por um surto de desenvolvimento sem precedentes na história mundial (“A Era Dourada”). Infelizmente, por aqui os ideais republicanos não foram adiante e, sob alguns aspectos, a imoralidade pública até aumentou. Na República, os novos donos do poder, em vez de promover mudanças estruturais, limitaram-se apenas à troca dos símbolos da Pátria, como o Hino e a Bandeira Nacional, além de nomes de ruas e praças. A chamada “República Velha” (1889-1930) continuou a conviver com a fraude e a manipulação eleitoral, tais como eleições a bico de pena, falsificação de assinatura de eleitores, adulteração de cédulas eleitorais, voto de cabresto e currais eleitorais. A Revolução de 30 trouxe um sopro de mudanças, logo sufocado pela ditadura do Estado Novo, que iria até 1945.3bae9-diretasjahenfil

Com o final da 2ª Guerra Mundial (1945), e com a derrota do nazismo e do fascismo, o mundo experimentaria um novo tempo de desenvolvimento, orientado por novos paradigmas da democracia. Por um breve período, o Brasil parecia que também seguiria essa nova onda, com a Constituição democrática de 1946 e os promissores planos de desenvolvimento. Todavia, não tardou para que o País mergulhasse numa turbulência política, que iria desaguar no golpe militar de 1964. A partir de então, o Brasil experimentaria um tempo de desenvolvimento econômico, porém de grande repressão política. Foi o segundo bonde da História perdido pelo Brasil.

Finalmente chegamos à década de 1980, período em que se dá a redemocratização, ao mesmo tempo em que vai chegando ao final o período militar, em meio a intensas movimentações populares em prol das eleições diretas para Presidente da República e da Assembleia Nacional Constituinte que, em 1988, promulgaria uma nova Carta Republicana, a chamada “Constituição Cidadã”. Foi um tempo de despertar da Nação, que levou milhões de pessoas a embalar muitos sonhos de um Brasil novo, progressista e democrático; enfim, um País que viesse ao encontro de seu povo, para, juntos, promover as mudanças que há tanto vínhamos acalentando. O primeiro passo havia sido dado, com a nova Constituição, plena de direitos sociais.  De lá para cá, muita coisa mudou para melhor, a pobreza foi atenuada, direitos foram reconhecidos, e notável progresso foi feito. Porém, mais uma vez, o Brasil deixaria passar o bonde, e continuamos a conviver com a injustiça social, a imoralidade política, a corrupção desenfreada e um baixo desenvolvimento. Só nos resta, então, aguardar o próximo bonde, que não sabemos quando virá.

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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2 Comentários to “O bonde perdido”

  1. Durante algum tempo uma grande parte da população permaneceu em pé, dentro do terceiro bonde da história, mas, devido as muitas ventanias políticas que sopraram de todos os lados sem direção certa, essa população, geração de 1960 e 1980, foi empurrada para fora desse bonde que hoje mais parece um trem da alegria fora dos trilhos, correndo desgovernado em alta velocidade, em direção ao precipício e os mais sabidos seguem assistindo a tudo, de camarote, enquanto aguardam a chegada do próximo bonde.

    • Meu caro Sebastião Viana,

      Você fez a síntese do que vivemos hoje: um País sem rumo, com um povo perplexo e sem esperanças no futuro.

      Você deve se lembrar que passamos décadas da nossa vida sonhando com um futuro grandioso para o Brasil…Hoje nem isto mais não nos é dado fazer…

      Um grande abraço,

      João Francisco

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