Jaulas de ferro

João Francisco Neto

A partir do final do século XX, diante do desmonte de várias instituições, que até então funcionavam como sólidas fortalezas, o mundo passou a conviver com novos paradigmas, que resultaram em fatos como a desintegração das certezas do capitalismo e da modernidade, numa sociedade outrora estruturada em classes sociais, papéis dos gêneros, padrões de empregos para “a vida toda”, etc. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a chamada sociedade pós-moderna passou de uma fase “sólida”, em que havia projetos simples e seguros, para uma fase “líquida”, num ambiente de múltiplas possibilidades, mas dominado pela angústia da incerteza. Agora, com a desestabilização dos modelos clássicos de emprego, novas capacitações são exigidas a cada momento, ao passo que os trabalhadores veem-se na obrigação de se reciclar permanentemente, sob o temor de se tornar supérfluos ou ultrapassados, numa sociedade que vive na esteira das múltiplas e incessantes inovações tecnológicas. Criou-se então uma espécie de “presente eterno”, que descarta o valor das experiências passadas e valoriza os resultados imediatos. Não é de hoje que esses fenômenos têm sido observados. O sociólogo Max Weber (1864-1920), estudioso da sociedade capitalista, achava que o modo de organização do capitalismo clássico tornava possível uma previsibilidade em relação ao tempo, na medida em que as pessoas podiam elaborar narrativas estáveis para suas vidas, com planejamento de longo prazo de suas carreiras profissionais, por exemplo. Ao longo de quase todo o século XX, esse sistema funcionava como se fosse uma “pirâmide racionalizada”, em que cada posto e cada peça tinham ali uma função bem definida.

O modelo da pirâmide era tão sólido que praticamente dominou todas as instituições e o Estado, por excelência, até o final do século XX, quando vários acontecimentos acabaram por abalar os pilares desse modelo.

Max Weber, nas últimas páginas de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, foi o responsável pela criação da expressão “jaula de ferro”[1], para designar aquelas organizações rigidamente burocratizadas, dominantes no seio da sociedade industrial, da administração pública, escolas, empresas, igrejas, etc. É a burocracia como forma de racionalização, que se presta para controlar e dirigir o comportamento e as ações sociais das pessoas, direcionando-as para modelos desenhados para atingir os objetivos do sistema, seja ele qual for. Aí está a metáfora da “jaula de ferro”, em que as pessoas são “aprisionadas” numa organização burocrática hierarquizada, que suprime todo tipo de espontaneidade, iniciativas pessoais, criatividade, etc. Weber era muito pessimista quanto ao futuro da moderna sociedade capitalista, pois achava que, num mundo de pessoas encapsuladas pelas “rotinas especializadas” de suas gaiolas de ferro, a eficiência haveria de se tornar um “valor” mais importante do que a tradição, a emoção e os princípios. Veja-se, por oportuno, que Weber, embora tenha provocado esse debate há mais de cem anos, o modelo da “jaula de ferro” acabou resistindo quase que intacto a todos os fenômenos ocorridos no final do século XX, como a globalização, a pós-modernidade, e a internet, entre outros.

Todavia, mais recentemente têm ocorrido importantes mudanças que, de alguma forma, vêm abalando as engrenagens da outrora sólida arquitetura montada sob o modelo da jaula de ferro. Por exemplo, atualmente muitas instituições veem-se na contingência de promover mudanças permanentes, ou mesmo de se reinventar continuamente, por meio de flexibilizações internas que impliquem um afastamento dos modelos rigidamente burocratizados. Por outro lado, as novas tecnologias permitem que a comunicação seja fluida e instantânea, para toda a corporação, independentemente das interpretações que anteriormente eram “produzidas” pelos diversos escalões hierárquicos, até chegar à base da pirâmide. O desafio, hoje, é como lidar com as instituições – públicas e privadas – que, sob uma aparente fachada de modernidade, mantêm intacto todo o aparato das jaulas de ferro.

[1] A bem da verdade, Weber não “criou” a expressão jaula de ferro. No original, em alemão, a expressão utilizada foi stahlhartes Gehäuse, que, numa tradução livre, poderia ser algo como “rija crosta ou concha de aço”. Na tradução para o inglês de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, feita pelo sociólogo americano Talcott Parsons em 1930, foi utilizada a expressão iron cage, que já se tornou clássica. Daí, consagrou-se entre nós a locução jaula de ferro.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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