Escola pública

João Francisco Neto*

Nos idos dos anos 1960, as escolas públicas ainda gozavam de grande prestígio, pois ofereciam ensino sólido e de boa qualidade. E não eram só os colégios das grandes cidades, não; o nível era bom mesmo nas pequenas localidades. Até aquela época, o poder público tinha uma real preocupação com a estrutura das escolas e a capacitação dos professores, que, ademais, eram bem remunerados e também gozavam de respeito e reconhecimento público. Ainda hoje, pode-se notar que os antigos prédios das escolas são construções grandiosas e bem instaladas, como que a demonstrar a todos a importância que deveria ter um estabelecimento de ensino. É bem verdade que grande parte da população não tinha acesso às escolas; todavia, era notória a satisfação dos alunos que porventura tinham o privilégio de se encontrar matriculados naquelas escolas públicas. No Interior havia poucas escolas particulares, que, por sinal, não eram muito bem vistas, pois as escolas públicas eram muito rigorosas e, como se dizia, não “passavam a mão na cabeça” do aluno; para serem aprovados, todos tinham de estudar, mesmo. Nem os pais e nem os alunos reclamavam dos métodos e critérios rigorosos aplicados, pois todos sabiam: a escola era um lugar de estudo e aprendizagem. Hoje, as coisas mudaram muito e, infelizmente, para pior, como todos podem ver.

Aqui, farei uma observação sobre um assunto quase nunca comentado: muito se fala da excelência das escolas públicas das décadas passadas. O que ninguém fala é que, naquela época, pouca gente podia estudar: uma boa parcela de jovens e crianças tinha de trabalhar, e, além disso, não havia vagas para todos nas escolas. Quando, a partir das décadas de 1970 e 80, passou a ocorrer a “universalização” do ensino, o nível começou a cair, porque o poder público não tinha capacidade para oferecer ensino de qualidade para todo mundo. Mas não foi somente isso a causa da derrocada do nível das escolas públicas no Brasil. Também, a partir da década de 1970, acentuou-se rápido processo de desvalorização do professor que, de uma hora para outra, passou a ser um profissional mal remunerado e que tinha, e tem, de lidar com condições adversas de trabalho. Esse processo continua, e hoje os bons profissionais procuram as escolas particulares em busca de melhor remuneração e condições adequadas de trabalho. Nesse ritmo, acabou-se criando uma espécie de “apartheid” social nas escolas: para as classes mais desfavorecidas economicamente ficou reservada a escola pública; ao passo que as classes médias, cada vez mais, procuram “refugiar-se” nos colégios particulares. Quanto aos aspectos pedagógicos propriamente ditos, os especialistas em educação apontam alguns fatos interessantes, como foi a introdução na rede pública do chamado “construtivismo”, sofisticada teoria de ensino formulada pelo suíço Jean Piaget, que nunca foi bem aceita nos Estados Unidos, onde predominava a teoria behaviorista. Na época, muitos professores, sem saber como fazer para aplicar esse novo método, ficaram desorientados, pois se viam na contingência de ter de aplicar uma teoria que ele próprios não dominavam bem, para dizer o mínimo.

Em seguida, foi implantado o sistema de “progressão continuada”. Com o tempo, as escolas públicas, além de oferecer o ensino, passaram a ser centro de assistencialismo, onde se fornecem merendas, recreação e lazer para a família, bolsa-escola, etc., num sistema em que, muitas vezes, o que menos conta é o aspecto pedagógico. Por outro lado, o Estado financia totalmente a formação universitária dos melhores profissionais do mercado (USP, Unesp e Unicamp), que, depois de formados, raramente retornam para ministrar aulas nas escolas públicas fundamentais e médias. As escolas particulares, por sua vez, sentem-se à vontade: se não há a boa referência da escola pública a ser seguida, por que razão fazer muito mais? Veja-se que, com pouca coisa, instituições privadas passam, então, a oferecer ensino supostamente “diferenciado”. E, nesse passo, a educação vai caminhando para trás.

jfrancis@usp.br

*Agente fiscal de rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro – Faculdade de Direito da USP

PERFIL e ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA DO EDITOR: Os textos dos articulistas não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR, sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

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