Efeitos do Poder

jfrancisconewJoão Francisco Neto

O efeito do poder sobre as pessoas que o detêm é um fenômeno que há muito vem sendo estudado, e não foram poucos os grandes autores que se debruçaram sobre o assunto, entre os quais Michel Foucault (“Microfísica do Poder”) e Elias Canetti (“Massa e Poder”). O historiador inglês Lord Acton dizia que “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Obviamente que o poder é exercido sob as mais diversas formas: o poder político, o poder econômico, o poder hierárquico, o poder familiar, etc. O fato é que, invariavelmente, certos efeitos são sempre observados nas relações em que envolvem o poder de uma pessoa sobre as outras. Por exemplo, o poder faz com que a pessoa deixe de levar em conta a opinião e o sentimento dos outros; julgue os outros de forma superficial; aja de forma mais hostil e impulsiva; seja menos cortês, etc. Há casos em que o poder desencadeia situações que resvalam até para a violência pura e simples, ocasiões em que vem à tona uma tormentosa pergunta: seria o ser humano mau por natureza?

Em 1971, o Dr. Philip Zimbardo, professor de psicologia da Universidade Stanford (EUA), decidiu realizar uma pesquisa audaciosa até os padrões atuais. Por meio de anúncios em jornal, Zimbardo recrutou um grupo de estudantes, “brancos e saudáveis”, que concordaram em submeter-se a uma experiência de encarceramento, que ficaria conhecida como o “Experimento da Prisão de Stanford”, um dos estudos mais controvertidos da história da psicologia social sobre as relações humanas em cativeiro. Zimbardo selecionou 24 jovens que, por sorteio, foram divididos em dois grupos: um grupo formaria a guarda do presídio, e o outro seriam os presos, que, então, foram encarcerados no subsolo do departamento da Faculdade de Psicologia de Stanford, transformado numa prisão, apenas para a realização da pesquisa. O próprio professor Zimbardo participaria da experiência, na condição de supervisor do presídio. O início da experiência se deu com todas as formalidades inerentes aos atos de aprisionamento, ou seja, ao receber voz de prisão, o grupo de estudantes foi algemado e, em seguida, recebeu as vestimentas próprias dos detentos, ao passo que os “guardas” passaram a utilizar uniformes e armas.

Um dos objetivos do experimento era verificar o comportamento de “pessoas normais”, num ambiente submetido a uma rigorosa hierarquia de poder – uma prisão -, em que há forte tendência à desumanização das pessoas. A previsão era que a experiência se estendesse por duas semanas, porém as coisas rapidamente saíram de controle, de tal forma que, apenas seis dias depois, teve de ser interrompida. Logo nas primeiras 24 horas, os “guardas” passaram a humilhar e abusar psicologicamente dos “prisioneiros”, que assumiram uma postura passiva e submissa. Por sua vez, os “guardas” se mostraram cada vez mais sádicos, inflexíveis, mesquinhos e maldosos, a ponto de provocar uma greve de fome nos “prisioneiros”. Um dia depois do início da pesquisa, eclodiu uma rebelião de “presos”, combatida pelos “guardas”, com bastante violência. Ao final, Zimbardo chegou à conclusão que a força da situação podia ser muito mais poderosa do que a personalidade do indivíduo. Assim, concluiria que o mal nem sempre é fruto de ações de pessoas malvadas; pode ser o resultado da ação de pessoas boas, que, burocraticamente, imaginam estar cumprindo o seu dever. Nesse ponto, pode ser traçado um paralelo com a chamada “banalidade do mal”, apontada pela filósofa Hannah Arendt, quando do julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann. Arendt achava que o mal não era algo exclusivo de gente louca; na verdade, podia ser praticado por qualquer ser humano “normal”, colocado nas mesmas circunstâncias, principalmente quando a pessoa detém um grande poder sobre a outra.

O experimento do Dr. Zimbardo transformou-se num estudo clássico, que até hoje é levado em conta para explicar casos de violência, como os registrados no presídio de Abu Ghraib e nos frequentes atos de brutalidade da polícia americana (e brasileira, também!). A vida do pesquisador Zimbardo, hoje professor emérito de Stanford, ficou tão marcada por este misterioso e emblemático caso que, mesmo após 45 anos, uma das suas maiores ocupações ainda é conceder entrevistas sobre esse assunto. A amplitude do estudo tem sido estendida para explicar os casos de funcionários simples e cordiais que, alçados a uma posição de grande poder sobre os seus “antigos” colegas, passam a agir como tiranos impiedosos e arrogantes. Infelizmente, o serviço público está cheio desses tipos pequenos, que, em determinadas circunstâncias, detêm o poder, ao qual se apegam como um marisco na rocha. Por uns tempos, até imaginam que são a própria rocha.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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