A sociedade do espetáculo

João Francisco Neto

Em 1967, o filósofo francês Guy Debord publicou uma obra, cujos reflexos se irradiam até os nossos dias: “A Sociedade do Espetáculo”. Debord, nascido em Paris em 1931, foi praticamente um autodidata e nunca chegou a concluir nenhuma faculdade; mas, ainda assim, foi escritor, filósofo, diretor de cinema e agitador político. As suas ideias tiveram uma enorme repercussão e influência nos acontecimentos de maio de 1968, que envolveram milhões de jovens, pelo mundo todo. Debord, estudioso do marxismo, era um crítico feroz da estrutura da sociedade capitalista de seu tempo. Utilizando-se das categorias da teoria marxista, Debord observou as relações sociais e constatou que tinha havido uma degradação do “ser”, que passara a dar lugar ao “ter”. Para os indivíduos seria muito mais importante, então, “ter” alguma coisa do que “ser” alguma coisa.

Indo mais além, Debord considerava também que, na emergente sociedade do espetáculo, nem era (e ainda não é) tão importante assim o ter; o que contava mesmo era parecer, num crescente processo de sobrevalorização da forma sobre o conteúdo. Numa das proposições contidas em seu livro, Debord formula uma espécie de “resumo” do perfil da sociedade moderna:

A sociedade capitalista se apresenta como sociedade do espetáculo. Importa mais do que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação do consumo vale mais que o próprio consumo. O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante do que ser.

Veja-se que o livro (A Sociedade do Espetáculo), embora escrito nos anos 1960, é de uma atualidade gritante; daí a importância de sua leitura, nessa verdadeira era da representação, em que seres humanos, alienados pela cultura do consumo sem limites, dão mais valor à aparência do que à autenticidade das pessoas. Nesse contexto, as relações mercantis predominam sobre as relações humanas. Levado ao extremo, esse processo acaba transformando o próprio indivíduo numa mercadoria (a reificação). Marx já chamava a atenção para o fenômeno que ele denominava de o “fetichismo da mercadoria”, quando as pessoas se entregam compulsivamente ao consumo descontrolado de todo tipo de produtos, a ponto de perderem a sua consciência de classe.

Mas, não é só isso. Hoje, a chamada sociedade do espetáculo se apresenta como um mundo de imagens, que conta mais do que a própria realidade. A reprodução da cultura agora se dá pela proliferação de imagens, uma vez que vivemos todos numa espécie de “escravidão midiática”, consumidos por mensagens insistentemente veiculadas pela TV, propaganda, marketing, redes sociais da internet, etc. Estamos tão impregnados e dominados pelo espetáculo da mídia que só damos crédito àquilo que foi noticiado (é a realidade transformada em imagens).

Se, porventura, a mídia não noticia alguma coisa, tendemos a achar que o fato não aconteceu, ou seja, a “validade” da realidade somente se dá quando o acontecimento vira um “espetáculo” da mídia.

Tudo isso se presta às mais variadas manipulações: para vender produtos, para eleger políticos, para aumentar o consumo de coisas desnecessárias, para melhorar a imagem dos governos, etc. Aliás, os governos adoram transformar tudo em espetáculo para, obviamente, beneficiarem-se disso. Aí estão os grandes eventos esportivos (Jogos Olímpicos, Copa do Mundo), amplamente patrocinados pelo governo, não porque considerem que o esporte seja tão importante assim.

O que realmente querem os governantes é aproveitar-se da imagem “positiva” que o espetáculo do esporte poderá oferecer-lhes. Essa foi a grande sacada de Guy Debord: há muito tempo percebeu que o mundo passaria a ser, definitivamente, comandado pelo poder da imagem, que, em quase todas as situações, pode muito bem substituir a própria realidade das coisas, e até de pessoas; tudo isso, com vantagens para quem produziu o “espetáculo”.

jfrancis@usp.br

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