A maldição do conhecimento

jfrancisconewJoão Francisco Neto

Todas as pessoas que um dia já foram alunos ou professores conhecem a seguinte cena: o professor explica determinado assunto em sala de aula; o aluno ouve, acha que entendeu, elabora suas ideias e as registra no caderno; na prova, o aluno responde a uma questão utilizando-se de suas anotações; quando se depara com a correção da prova, o aluno se surpreende: sua resposta está errada. Esse é um problema recorrente na área de comunicação, que tem a ver com a chamada “maldição do conhecimento”.

Quando uma pessoa tem muito conhecimento sobre determinado assunto – o professor, por exemplo – perde a capacidade de imaginar o que é não saber nada sobre aquilo. A “maldição” se dá quando a pessoa que sabe muito fica incapacitada de se situar no mesmo nível de conhecimento (ou desconhecimento) das demais pessoas que a escutam. Dessa forma, a mensagem não chega clara ao ouvinte, porque a pessoa que sabe muito assume que os outros também sabem, e, assim, descuida-se de passar detalhes importantes para o perfeito entendimento da mensagem. Em resumo, a “maldição do conhecimento” ocorre sempre que sabemos, ou achamos que sabemos alguma coisa, e isso nos causa uma enorme dificuldade para entender que as outras pessoas podem não saber quase nada sobre o mesmo assunto.

Isso hoje nos parece algo óbvio, porém esse fenômeno só veio a ser objeto de estudos a partir 1990.

Nesse ano, uma aluna de psicologia da Universidade de Stanford (Estados Unidos), Elizabeth Newton, apresentou em sua tese de doutoramento um jogo aparentemente simples: dividiu os estudantes em dois grupos, um deles chamado de batucadores (“tappers”), e outro de escutadores (“listeners”). O grupo dos batucadores recebeu uma lista de 25 canções, todas muito fáceis e conhecidas, como “Jingle Bells” e “Feliz Aniversário”; sua função era reproduzir essas músicas, somente batucando o som em uma mesa, sem cantá-las. A função do grupo dos escutadores era identificar a música, apenas com base no ritmo dos batucadores. Foram reproduzidas 120 canções, e apenas 3 foram identificadas (2,5% do total). Antes de iniciar o experimento, a pesquisadora Liz Newton havia apurado entre os alunos que eles estimavam que o resultado daria 50% de acertos, um número bem diferente dos 2,5% a que chegaram.

A explicação de Newton foi a seguinte: quando os batucadores estavam reproduzindo as canções, eles, inconscientemente, “escutavam” a melodia em suas cabeças, ao passo que o grupo dos “escutadores” não podia escutar mentalmente a melodia; apenas ouviam os golpes na mesa. Assim, para os batucadores, a canção parecia óbvia. Daí, Elizabeth Newton concluiu que, uma vez que sabemos algo, achamos muito difícil imaginar como seria não sabê-lo, e, por isso, concluímos, também, de forma errada, que aquilo que sabemos é uma coisa óbvia para todo mundo.

É a tal da “maldição do conhecimento”, que ocorre num contexto em que há assimetria entre quem transmite a informação e quem a recebe, ou seja, entre professores e alunos, pais e filhos, publicitários e consumidores; políticos e eleitores, administradores e trabalhadores, etc.

Como superar isso? Para se transmitir a informação correta, de uma maneira efetiva, uma estratégia é ter consciência da limitação imposta pelo fenômeno da “maldição do conhecimento” e tentar passar a ideia de forma clara, concreta e simples, e, principalmente, nunca se esquecer de que a porcentagem de pessoas que vão receber corretamente a sua mensagem pode ser muito menor do que você imagina. O desafio a ser superado é justamente este: tentar ampliar ao máximo possível o número de pessoas que receberão sua mensagem, de forma fluida e compreensível.

jfrancis@usp.br

*Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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11 Comentários to “A maldição do conhecimento”

  1. Essa nossa carreira, cada vz mais me surpreende,mesmo já aposentado, O texto do João Francisco Neto,me deixa simplesmente com a consciência, de que pertencemos a um grupo previlegiado,Parabéns AFR João Francisco,

    • Olá Reinaldo ! Agradeço-lhe por suas palavras tão generosas em relação ao meu texto ! De fato, você tem razão: na nossa carreira tiver a grata felicidade de conhecer muitos colegas com os quais muito aprendi, nas várias dimensões do conhecimento humano. E continuamos a aprender, sempre ! Um grande abraço

  2. Parabéns, Francisco, pelo interessante artigo. Esse problema é antigo. Quando entrei na SEFAZ-SP, lá pelos idos de 1982, a antiga ATP, então comandada pelo compententíssimo Heitor Specht, propunha uma “brincadeira” sobre esse fenomeno: o professor dizia a um dos colegas, no ouvido, baixinho, uma frase com umas cinco informações, era mais oumenos isso, e o esse primeiro colega transmitia a um segundo colega o que ouvira. E assim por diante, os 25 colegas da sala recebiam a informação passada ao pé do ouvido. Ao final, o 1º e o 25º colega escreviam a informação recebida. Resultado: eram muito diferentes.
    A brincadeira objetivava demonstrar exatamento isso que você aborda no artigo.
    Conclusão: ao transmitir uma informação, seja verbalmente ou por escrito, a clareza é fundamental, tanto na leitura do que fora solicitado, como na entrega da solicitação, na escrita minuciosa do que se apurou.
    Parabéns por trazer esse tema e já estávamos com saudade dos seus textos sempre tão bem escritos. Abraço.

    • Prezado Valente ! Mais uma vez lhe agradeço pela atenção que você sempre dedica aos meus pequenos textos! E aproveito para lhe confessar que frequentemente estou aprendendo com os seus ótimos artigos técnicos; parabéns! Quanto à “maldição do conhecimento”, você tem razão: o fenômeno é antigo e sempre esteve presente nas nossas vidas…. Como sempre, a novidade não é exatamente uma coisa nova; apenas alguém se deu ao trabalho de escrever sobre determinado assunto e……pronto: parece uma coisa nova ! Grande abraço !

  3. Considero-me um privilegiado em ser integrante de uma classe de servidores públicos formadores de opinião, excelentes profissionais tanto no exercício da nobre função pública quanto em suas atividades outras quando em gozo de aposentadoria. Parabéns João Francisco Neto por trazer ao nosso esclarecimento um tema pouco difundido, principalmente, entre aqueles que militam na nobre função vocativa da educação. Tenho uma filha e um genro doutorando em Paris-França que são professores (filosofia) concursados na UFAL-Maceió-AL e ambos curvaram-se em reverência ao seus conhecimentos reflexivos após a leitura deste seu artigo muito oportuno e esclarecedor. Meu filho caçula e minha futura nora, que também são professores do ensino médio e fundamental (escolas particular) na cidade de Marília e Região, sentiram-se agraciados com a essência da sabedoria que se encontra intrínseca nos meandros do texto de seu artigo tão oportuno. Parabéns ao colega.

    • Prezado Sebastião ! Fico feliz em saber que esse texto tão despretensioso teve tão boa recepção entre vocês! Agradeço-lhe por sua gentileza. De fato, sempre tivemos no seio da carreira de AFRs muitos colegas que, além de cuidar de números, autuações, etc., ainda encontram tempo para exercer outras ocupações, e com muita competência. No meu caso, faço colaborações com pequenos jornais, blogs, etc., publicando textos que, embora curtos, sempre levem alguma mensagem positiva ou fatos que tenham algum interesse para a maioria dos leitores. Um forte abraço !

  4. Esclarecendo: não sou professor mas admiro muito, desde minha infância, todos os que militam nessa nobre função de ensinar e que são eternos formadores de opinião.

  5. Olá João Francisco, gosto muito de ler seus artigos. Como educadora tenho refletido constantemente a minha prática docente. Obrigada!

    • Prezada Janiclei: Agradeço-lhe pela atenção dedicada ao meu artigo, e fico feliz em saber que esse pequeno texto tenha. de alguma forma, servido de material de reflexão. Embora nem sempre seja possível alcançá-lo, esse tem sido o meu objetivo, ao publicar esses artigos curtos, mas com conteúdo por vezes provocativo. Um grande abraço!

  6. Muito real seu artigo, reflexivo e importante. Eu que me aproximo do cumprimento do tempo de docência, sei, vivo isso ainda que na gestão escolar no momento. Sempre discuto que “fácil e difícil” são palavras que causam insegurança em seu significado; talvez “conhecido e desconhecido” sejam melhor aplicadas. Parabéns pelo seu artigo.

    • Prezada Maria Regina:
      Agradeço-lhe por sua gentil atenção e me desculpo pela excessiva demora na resposta.
      Como você pôde ver, o artigo é uma pequena contribuição ao enorme problema da comunicação, que, no caso dos professores, assume uma importância ainda maior.
      Um grande abraço,
      João Francisco

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