A grande sociedade

jfrancisconewJoão Francisco Neto

No mês de novembro de 1963, após o trágico assassinato de John Kennedy (1917-1963), assumiu a presidência dos Estados Unidos o seu vice, Lyndon B. Johnson (1908-1973), que até então se sentia como um patinho feio, à sombra do enorme carisma de Kennedy. Com a intenção de dar uma “cara nova” ao governo, Johnson não deixou por menos: resolveu deslanchar um monumental plano de governo, cujos principais objetivos eram promover a mais ampla liberdade para todos, combater e eliminar a pobreza, e terminar com a injustiça racial. Nessa linha, batizou o plano com o pretensioso nome de “A Grande Sociedade”. Até então, seguindo as diretrizes da Guerra Fria, a política americana era voltada para ajudar as nações no combate ao comunismo, considerado a antítese dos mais caros valores norte-americanos; Lyndon Johnson resolveu mudar esse eixo, voltando a ação do governo para o enfrentamento de questões internas difíceis, como a pobreza. Após o final da 2ª Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a experimentar um notável crescimento econômico, que trouxe muita prosperidade para a maioria da população. Todavia, segundo dados levantados pelo pesquisador Michael Harrington, havia à época cerca de 40 milhões de americanos pobres, vivendo em péssimas condições – eram pessoas para as quais o “sonho americano” não havia se realizado.

Presos no círculo vicioso da miséria, em que lhes faltavam educação, empregos e cuidados médicos, essas pessoas viviam como se fossem estrangeiras em seu próprio país. Com raras exceções, até então as questões de assistência aos pobres ficavam relegadas aos governos locais, igrejas e entidades filantrópicas.

Ao assumir o Governo, Johnson resolveu, então, deslanchar um projeto social federal – “A Grande Sociedade”- que incluía outro plano, a “Guerra à Pobreza”, para mudar de vez aquele estado de coisas. Além do combate à pobreza e à injustiça racial, o plano pretendia remover os obstáculos à igualdade de oportunidades e à melhoria da condição de vida de todos os cidadãos americanos. Era um plano ambicioso, que não contava com o total apoio da opinião pública. Mas, mesmo assim, vitorioso na eleição seguinte (1964), Johnson levou adiante o seu projeto que incluía medidas como assistência médica e previdenciária aos pobres e idosos, treinamento profissional aos jovens, planejamento urbano, moradias para população de baixa renda, controle da poluição nas áreas mais pobres, aprovação de leis que garantiam direitos civis à população negra, redução de impostos para incentivar a economia, incentivos, como bolsas de estudo e empréstimos de baixo custo para estudantes universitários pobres, criação de um programa para oferecer oportunidades de trabalho (“Job Corps”), etc. Para tornar realidade todo esse arsenal de boas intenções, foi necessário que Johnson desfechasse uma ofensiva legislativa, mandando para o Congresso 200 projetos de lei, dos quais 181 foram aprovados.

Por meio de uma “refundação” da nação americana, que levasse o país a um renascimento em que a pobreza e a falta de oportunidades ficassem para trás, Lyndon Johnson gostaria de entrar para a História no mesmo patamar que os presidentes Lincoln e Franklin D. Roosevelt. De certa forma, Johnson obteve sucesso, ainda não exatamente como pretendia, muito embora seu programa tenha tido um impacto positivo na vida de milhões de americanos pobres e negros. O programa não foi adiante como esperado porque, no meio do caminho, os Estados Unidos atolaram-se na Guerra do Vietnam, que passou a consumir um volume descomunal de recursos. Só no ano de 1966, o governo gastava cerca de 20 vezes mais com o Vietnam do que com os programas sociais contra a pobreza. Ironicamente, a imagem do presidente Lyndon B. Johnson ficou definitivamente marcada pelo desastre da Guerra do Vietnam.

Ao leitor que se deu ao trabalho de chegar até aqui será lícito indagar: e, nós, no Brasil, o que temos a ver com essa história americana? Com efeito, esses fatos, que se passaram nos Estados Unidos há 50 anos, servem apenas para demonstrar o quão distante nos encontramos de uma verdadeira revolução social, que resgate milhões de brasileiros da condição de pobreza. Por aqui, em pleno século 21, ainda estamos às voltas com programas sociais faz-de-conta, do tipo “bolsa-família” e similares, o que dá a medida do atraso em que o Brasil se encontra, nessas questões sociais.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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2 Comentários to “A grande sociedade”

  1. Parabéns João,belas e sábias palavras voce sabe melhor que muitos passar seus pensamentos para a escrita.Sempre falo que com o assassinato do Presidente John Kennedy foi sim uma vida interrompida do qual até os dias de hoje eles ainda não se recuperaram,passaram por várias guerras infindáveis,escandalos políticos tipo Watergate onde caiu o Presidente Nixon apenas por causa de espionagem durant sua campanha política e infelizmente em nosso Amado Brasil apenas a parcela menos favorecida de nossa sociedade é que são punidas com todos os rigores da lei onde os grande ladrões que roubam até merenda escolar estão por aí em todos os lugares à solta rindo e usufruindo do produto de furto que com certeza é de todos nós.
    Paulo Antonio Cabrera de Souza

    • Olá meu caro amigo Paulo Cabrera,

      Agradeço-lhe pela atenção que você sempre dedica aos meus textos.

      As suas observações enriquecem o texto, cujo propósito original é esse mesmo: provocar um debate de ideias sobre alguns temas importantes para o País..

      Um grande abraço,

      João Francisco

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