A Fábula das Abelhas

João Francisco Neto*

Em 1714, em Londres, foi publicada a primeira versão de um livro que se tornaria muito importante para os estudos da política e da economia: “A Fabula das Abelhas, ou Vícios Privados, Benefícios Públicos”. Seu autor é Bernard de Mandeville, nascido na Holanda, mas radicado na Inglaterra. Assim que foi publicado, o livro causou grande furor na sociedade local e recebeu duras críticas por parte de influentes personalidades da época. Mas, o que trazia de tão importante o livro de Mandeville? Tendo como texto básico uma pequena história fantasiosa (uma fábula), as idéias de Mandeville influenciariam para sempre a economia, a ética e a política.

A fábula pode ser assim resumida: era uma vez uma grande colmeia, onde todas as abelhas viviam em paz e se produzia de tudo. A colmeia era próspera e havia trabalho para todos, porém era uma sociedade dominada pelos vícios e pelas fraudes. E assim foi até que um grupo de abelhas moralistas resolveu pedir aos deuses que acabassem de vez com os vícios e os comportamentos fraudulentos, para que, assim, fosse criada uma sociedade virtuosa. O pedido foi atendido e, imediatamente, todos passaram a adotar um comportamento honrado e virtuoso.

A primeira consequência foi baixar o preço da carne, que andava pela hora da morte; e assim, todos passaram a comemorar esse novo tempo de virtudes. Entretanto, dentro de pouco tempo, as coisas começaram a desandar: os tribunais e os advogados ficaram sem serviço, pois ninguém mais cometia crimes e todos pagavam suas dívidas, inclusive aquelas esquecidas; não havia mais insegurança, e todos os policiais foram dispensados; bares e fábricas de bebidas logo fecharam, pois ninguém mais bebia; a colmeia foi obrigada a dispensar muitos funcionários públicos, já que todo mundo passou a trabalhar e não havia lugar para todos; bancos quebraram, pois ninguém mais tinha interesse em poupar ou tomar empréstimos.

E, como todos passaram a consumir somente o necessário, ou seja, quase nada, as fábricas paralisaram suas atividades e dispensaram muitos trabalhadores. O dinheiro não circulava mais na colmeia. Para quê, se não havia mais vícios ou diversões, e nem o consumismo para se gastar o dinheiro?

Moral da história: segundo Mandeville, o bem comum não seria produto da virtude das pessoas, e sim dos seus vícios individuais, como a luxúria, a ganância, a vaidade e a inveja. Para ele, aquilo que de pior existe em cada um de nós contribui com alguma coisa para alavancar o bem comum: o interesse próprio é que nos impulsiona para frente, para produzir e ganhar cada vez mais.

Daí concluiu Mandeville que, se para produzir uma sociedade próspera nós dependermos da bondade de cada um, nada funcionará. Em pleno início do século 18, e na transição do mercantilismo para o liberalismo, essas ideias receberam fortes ataques dos moralistas de plantão, mas acabaram por influenciar um dos maiores economistas que o mundo já conheceu, Adam Smith.

De certa forma, diz-se que Mandeville revelou as entranhas do capitalismo, ao afirmar que a política e a economia não dependiam do bem moral para um bom funcionamento. Mandeville, que não desejava irritar demais os moralistas da época, pregava também que, embora os vícios fossem importantes, aqueles que exagerassem, a ponto de cometer crimes, deveriam ser severamente punidos. Para ele, os vícios impulsionavam a economia, mas os excessos tinham de ser combatidos. Na época, imaginava-se que todos os homens eram naturalmente dotados de virtudes, contra o que Mandeville se insurgia.

Dizia que a principal razão pela qual poucas pessoas se entendiam era porque os escritores e os religiosos sempre ensinavam como os homens deveriam ser, e poucos se davam ao trabalho de mostrar como eles de fato eram. Para finalizar, costuma-se dizer que, no Brasil de hoje (e de sempre), o ditado de Mandeville foi invertido: “vícios públicos, benefícios privados”.

jfrancis@usp.br

*Agente fiscal de rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro – Faculdade de Direito da USP

PERFIL e ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA DO EDITOR: Os textos dos articulistas não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR, sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

5 Comentários to “A Fábula das Abelhas”

  1. Caro João Francisco,

    Muito bem posta a “equação” humana no contexto econômico.
    Esta Fábula já era prenúncio das ideias expostas naquela que se tornaria uma das principais obras do capitalismo, A Riqueza das Nações, de Adam Smith. O mercado auto-ajustável, a divisão do trabalho e os interesses individuais como sendo os verdadeiros gestores da harmonia social.
    As falhas apontadas por Smith, no sistema econômico haviam feito Mandeville sofrer perseguições décadas antes.
    Smith demonstrou que as motivações – louvadas por Mandeville meio século antes – eram realmente as fontes de crescimento econômico, ordem social e bem-estar coletivo. O caminho da fraternidade – ao menos nos assuntos econômicos – passava pelo egoísmo competitivo.
    Infelizmente, no Brasil, os vícios dos políticos transformam em “virtudes” privativas dos mesmos.

    • Prezado Teo,

      Agradeço-lhe por sua atenção. E, como sempre, as suas observações, na verdade, não só complementam, mas enriquecem o texto. Um grande abraço !

  2. Como sempre, soberbo o João Francisco Neto na escolha dos assuntos e na linguagem.

    Mas vejo com ressalvas as ideias do tal Mandeville. Na verdade, vejo falácias no raciocínio dele. É que as premissas estão corretas, as conclusões não. Vejamos.
    Ele via nos pecados veniais um impulso econômico. Claro, até hoje a luxúria, por exemplo, cria mercados, não apenas o da prostituição direta, mas também mercados indiretos: motel (hotelaria de curta permanência), látex (para os preservativos), produtos farmacêuticos (antibióticos para as gonorreias), empregos e consumo em bordéis e casas de tolerância, inclusive os “cafés” atuais (empregos, músicos, comes e bebes, etc).
    O jogo praticado nos cassinos também gera receitas para um monte de gente: estimula o turismo, o show business, as empresas de aviação, a hotelaria, os restaurantes, bares, cria empregos e mais empregos, de seguranças a garçons, passando por crupiês, etc.
    Enfim, certos vícios realmente criam e estimulam certos mercados. E com isso geram receitas privadas (salários, dividendos, lucros) e públicas (impostos sobre o consumo e renda e patrimônio, etc).
    E os efeitos desses mercados específicos se propagam por outros setores da economia. O garçom compra roupas, automóvel, etc.
    Isto é a mais pura verdade. É a premissa do raciocínio do Mandeville.

    Porém, em primeiro lugar, o que o Mandeville não inclui em seu raciocínio — e aqui vem a falácia (e estou pensando só em termos econômicos, esqueçamos no travesseiro o moralismo — é que essa mesma e exata moeda tem dois lados. Se é verdade que os vícios criam e estimulam certos mercados, não é menos verdade que esses mesmos vícios retiram estímulos de outros mercados. Por exemplo, as rendas pessoais investidas na luxúria, com prostitutas, ou apenas em motel e drive-in (creio que este último não deve ser do tempo do João Francisco Neto), e preservativos e pílulas anticoncepcionais e até abortos, embora estimulem esses mercados específicos, por outro lado, desestimulam outros mercados, na medida em que aquela mesma renda poderia ter sido alocada em outra atividade e geraria estímulo para essa outra atividade.
    Por exemplo, se o dinheiro investido num aborto de filho concebido pela amante fosse investido na aquisição de um automóvel, como entrada ou parte de pagamento, haveria crescimento das vendas do setor automobilístico; e se fosse investido na compra de livros para os filhos de casa, digamos assim, haveria crescimento do mercado editorial (além do efeito da melhor educação dos meninos); e se o dinheiro do motel fosse investido na compra de leite, os filhos do luxurioso contido estariam melhor alimentados e os pecuaristas agradeceriam. E assim por diante.
    Ou seja, toda renda alocada no vício poderia ser alocada na virtude, e geraria estímulos em outros setores da atividade econômica.
    Em segundo lugar, em sua falácia, o Mandeville omite que se o vício gera mercados, a virtude não fica atrás, pelo contrário, ela gera mercados com mais futuro. O vício em geral se esvai em ondas curtas, efêmeras. O vício se esgota no objetivo imediato: prazer. Já a virtude se esgota a longo prazo, ou seja, a virtude é mais inteligente. Se em vez de torrar minha grana num cassino em fosse a mais teatros e cinemas e a jantares em bons restaurantes, e fizesse umas viagens, estaria gerando estímulo consistentes em várias outras atividades, e também para o meu próprio enriquecimento pessoal, para o meu banco de cultura.
    Por exemplo, se o nosso querido João Francisco tivesse investido toda a sua renda da juventude e o seu tempo no Café Photo, provavelmente não teria estudado na USP, nem teria o brilhantismo que tem. Talvez, se tivesse contraído uma gonorreia, a indústria farmacêutica apresentasse melhores resultados naquele exercício, e se fosse uma AIDS, talvez apresentasse melhores resultados até hoje, mas felizmente obtivemos resultados muito mais eficazes e transcendentais com o nosso João Francisco estudioso e casto que escreve o artigo ora comentado…

    Abraço fraternal, virtual e virtuoso, João.

    • Prezado Valente: Agradeço-lhe, mais uma vez, por suas palavras generosas. E não há como deixar de reconhecer que você, a pretexto de comentar o artigo, acaba nos trazendo muito mais luz sobre o assunto. E, quanto, às falácias apontadas na argumentação de Mandeville, presumo que o autor, embora já as tenha antevisto, preferiu mantê-las e, assim, preservar os efeitos que os seus escritos acabariam tendo na História – seriam uma espécie de mote, para criar e, digamos, chamar a atenção do público. Obviamente que isso não diminui em nada a sua excelente argumentação, meu caro Valente. Obrigado mais uma vez por sua gentil atenção e um grande abraço !

    • Muito boa sua argumentação caro Antônio Sérgio Valente, mas vale lembrar que uma virtude não exclui um vício e vice-versa. Também penso que você vê a fábula de Mandeville apenas com olhos voltados às virtudes e sem espaço para algum eventual vício (o que é impossível para o ser humano). O fato de se frequentar bons teatros, cinemas, bons restaurantes não exclui minha vontade, de repente, de ir a um cassino buscar uma diversão diversa. Como mencionei acima uma virtude não exclui um vício e vice-versa.

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