A estupidez humana

João Francisco Neto*

O ser humano, criado pela graça de Deus, é dotado de inúmeras virtudes e qualidades; porém, os defeitos também não são poucos. Desde os primórdios da era cristã, o imaginário popular conseguiu, de forma magistral, identificar as principais falhas da natureza humana, elencando-as nos chamados “sete pecados capitais”: a avareza, a gula, a ira, a luxúria, a inveja, a soberba e a preguiça. Contudo, ficou de fora uma grave falha que, por sinal, que atinge milhões de pessoas: a estupidez.

Há tanta gente nessa condição, que muitas delas nem se dão conta do fato. Nesse sentido, o cientista Albert Einstein (1879-1955) costumava dizer uma frase engraçada: “Só existem duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana; e, a rigor, ainda não estou bem certo da primeira”. Em 1976, o economista italiano Carlo Maria Cipolla (1922-2000) lançou um panfleto, cujo conteúdo era um breve estudo das “leis fundamentais da estupidez humana”. Cipolla, que era professor de Economia em Berkeley (Estados Unidos), abordou o tema da estupidez sob o viés econômico de custos e benefícios. Para ele, a pessoa inteligente seria aquela que, com suas ações, conseguiria obter benefícios para si própria e também para as demais. A malvada, aquela que consegue o benefício para si, mas causa prejuízo aos outros. Já a pessoa ingênua consegue o benefício para as demais, mas à custa do seu próprio prejuízo. Por fim, Cipolla aponta a pessoa estúpida, que, com suas ações, causa prejuízo a si mesma e às demais pessoas.

Cipolla, um crítico implacável da estupidez humana, depois de anos de observação, formou a firme convicção de que os homens não são iguais, pois alguns são estúpidos e outros não, e que essa diferença não era determinada por fatores culturais, mas sim decorria dos insondáveis desígnios da mãe natureza. Assim, uma pessoa nascia estúpida da mesma forma como poderia nascer com o cabelo ruivo. Além disso, ele alertava para o fato de que os estúpidos não são pessoas incultas, podendo ser encontrados em ambientes universitários e até entre ganhadores de prêmios Nobel. Isso tudo sem falar nos inúmeros casos de pessoas estúpidas que passam a ocupar cargos de mando nas mais diversas esferas de poder – e há muitos! Cipolla considerava o estúpido uma pessoa muito perigosa porque seria muito difícil para as pessoas racionais entender o seu comportamento, que não segue nenhum roteiro lógico, de modo que não há como prever quando, como e por que um estúpido desfechará seu ataque. Um aspecto interessante, digamos, reside no fato de que, para seguir seu curso e provocar efeitos desastrosos, a estupidez não precisa de raciocinar, nem de se organizar ou sequer planejar qualquer coisa que seja. Já a transferência e a combinação de inteligência requerem um processo muito mais complexo e elaborado.

Por fim, Carlo Cipolla listou as cinco leis fundamentais da estupidez humana, que são, na verdade, uma síntese do seu inflexível pensamento: 1ª lei) Sempre e inevitavelmente todos subestimam o número de indivíduos estúpidos em circulação; 2ª lei) A probabilidade de que uma pessoa seja estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa (segundo Cipolla, essa lei não admite exceções!); 3ª lei) Uma pessoa estúpida é aquela que provoca prejuízo para outra pessoa sem obter nenhuma vantagem para si própria, podendo até incorrer em prejuízo; 4ª lei) As pessoas não estúpidas sempre subestimam o potencial nocivo dos estúpidos; e 5ª lei) O estúpido é o tipo de pessoa mais perigosa que existe; os estúpidos, agindo sem chefe e sem coordenação, conseguem resultados impressionantes.

É isso aí: olho vivo, porque esses espécimes, que estão à solta por toda parte, não descansam e estão sempre prontos para entrar em ação.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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10 Comentários to “A estupidez humana”

  1. Dileto João Francisco, oportuna, muito oportuna essa sua exposição.
    Vivemos uma época no planeta, e em especial no Brasil , que a predominância desses seres se dá em todas as atividades da vida, seja nas relações sociais, no esporte, na politica, no mundo das artes, na mídia, e, mais grave que tudo, predomina de forma absoluta, nas instituições e nos poderes da republica.
    Este 3º milênio, este século XXI, está se caracterizando como o século estupidez alçada a níveis nunca imaginados por todos os pensadores e filósofos através dos tempos.
    Nossa crença que a humanidade evoluía permanentemente foi por terra, a barbárie predomina, e a grande massa leva ao poder nas instituições terrenas exatamente essas pessoas estúpidas tão bem definidas pelo Cipolla.
    E, tragicamente para nós, no Brasil, essa teoria se comprova de forma absoluta, irretorquível.
    Que o Supremo Arquiteto do Universo se apiede deste planeta, e de nós, brasileiros.
    Socorro, meu Deus!!!

    • Prezado Edison Farah: Agradeço-lhe por sua atenção dedicada ao meu texto. Infelizmente, nós, os cidadãos comuns, assistimos a uma espécie de ocupação dos espaços por estúpidos de toda ordem. E, quando ocupam os cargos nas esferas de poder – o que não é raro -, o dano assume proporções geométricas…. Um grande abraço !

  2. Um dos melhores artigos que já li.

    • Olá Gustavo ! Agradeço-lhe pela atenção e pelo caloroso elogio a este pequeno texto que, embora não guarde relação direta com as nossas questões funcionais – presta-se como material de reflexão. Um grande abraço !

  3. Prazer imenso em ler este artigo. Parabéns João Francisco.

    • Olá Adílson ! Fico feliz em saber que esse modesto artigo conseguiu atrair o interesse dos nossos colegas, que, como sabemos, fazem parte de um público mais culto e de elevado senso crítico. Agradeço-lhe por sua gentil atenção ! Um grande abraço !

  4. Ótimo artigo. Aliás, vou fazer um carimbo para elogiar os artigos do meu confrade arcadiano, Dr. João Francisco Neto, que estão ficando cada dia melhores. Profundos. Raramente aborda temas estritamente tributários, mas escolhe a dedo assuntos que têm tudo a ver com sistema tributário, com gestão tributária, com política e administração pública.

    Sobre o tema da estupidez, embora com outro enfoque, há um texto muito interessante do Umberto Eco, em O Pêndulo de Foucault, parte 1, capitulo 10, um diálogo entre os personagens Belbo e Casaubon, de umas 5 páginas riquíssimas, tanto que as grifei no meu exemplar. O artigo me lembrou a leitura, acabo de apanhar o livro na estante, dei dois espirros (que aqui em casa só temos uma diarista semanal…) e reli o trecho. Em dado momento Belbo afirma:
    “No mundo existem os cretinos, os imbecis, os estúpidos e os loucos.”
    “Sobra alguém?”
    “Sim, nós dois, por exemplo. Ou pelo menos, sem querer ofender, eu.(…)”
    É um texto sério, mas muito bem humorado. Eles vão definindo os adjetivos. Por exemplo:
    “O cretino não fala sequer, baba, é espástico. Atocha o sorvete na testa, por falta de coordenação. Entra na porta giratória pelo lado contrário”.
    “Ser imbecil é mais complexo. É um comportamento social.(…) O imbecil quer falar daquilo que está no copo, mas vai e volta, acaba falando do que está fora. Se preferir, em termos vulgares, é o mesmo que a gafe do sujeito que pergunta como está sua senhora ao indivíduo que acaba de ser abandonado pela mulher. Dei-lhe a ideia? (…) O imbecil é muito solicitado, em especial nos eventos mundanos (…) O imbecil não diz que o galo ladra, fala do gato quando os demais falam do cão.”
    “O estúpido não se engana de comportamento. Engana-se no raciocínio. É aquele que diz que todos os cães são animais domésticos e que todos os caes latem, mas que também os gatos são animais domésticos e que portanto latem. (…) Um estúpido pode até ganhar o prêmio Nobel.”
    “O louco é reconhecível de cara. Um estúpido que não conhece os truques. O estúpido procura demonstrar sua tese, tem uma lógica cambeta, mas tem. O louco ao contrário não se preocupa em ter uma lógica, procede por curtos-circuitos. Tudo para ele demonstra tudo. O louco tem uma ideia fixa, e tudo o que encontra lhe serve para confirmá-la.”

    E por aí vai. É um livro complexo, difícil de ler em alguns trechos, mas muito provocativo em outros, é desses que fazem a gente pensar. Como o artigo ora comentado, que induz a um bom exame de consciência neste final de ano. Todos corremos o risco de vez ou outra incidir em alguma estupidez, involuntária, obviamente, mas a ser verdadeira a quinta lei do Cipolla, então podemos tornar-nos muito perniciosos…! Sim, nós, embora a gente sempre ache que estúpidos são apenas os nossos oponentes.

    Um virtual abraço natalino ao Dr. João e aos demais companheiros. Se conclui fora do copo, a culpa foi do espirro…

    • Prezado Valente: já tinha me esquecido desse livro magistral do Umberto ECO, “O Pêndulo de Foucault”, e, agora, você gentilmente nos remete a uma releitura dessa obra essencial ! Como se vê, o “Blog do AFR” não trata só de assuntos classistas, mas dissemina cultura, também !
      Agradeço-lhe, novamente, por sua gentileza,e pelo longo comentário (com o qual sempre aprendo alguma coisa)!
      Um grande abraço, com votos de um Feliz Natal, ao lado de sua família, e um ANO NOVO promissor, com mais realizações!

      • E, como bem lembrado por você, nós todos que tratamos do assunto, por óbvio, nos excluímos da classificação de estúpidos !!! Na linha de Sartre, o diabo são os outros…..

  5. Pois é, Francisco, “o diabo são os outros” é uma constatação genial do Sartre, revela a essência da estupidez humana, a mente ensimesmada, dogmática, vendo o prisma sempre pelo mesmo lado, desprezando as outras visões, como se pelo lado visto se visse tudo. A estupidez é, de certa forma, uma deficiência visual, quase uma cegueira.

    Obrigado pelos votos. Tudo de bom para você e família.

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