A era dos excessos

jfrancisconewJoão Francisco Neto

Ao longo dos séculos, a humanidade sempre viveu sob o signo da escassez de alimentos e dos demais produtos. Por muito tempo, os governantes reservavam boa parte da produção para alimentar os seus exércitos, deixando a população submetida a um regime de fome e escassez. Consta que um dos motores que impulsionaram a eclosão da Revolução Francesa (1789) foi justamente a fome e as dificuldades a que se encontrava submetida a maior parte da população. Esse estado de coisas só começou a mudar depois do sistema de produção introduzido pela Revolução Industrial (final do séc. 18 ao início do séc. 19).

A partir de então, com novas máquinas e tecnologias, a oferta de bens no mercado experimentou um notável aumento.

De lá para cá, iniciou-se, também, o fenômeno que, mais tarde, viria a ser identificado como o consumismo, hoje tão generalizado. Se não há muito tempo, milhões de pessoas trabalhavam arduamente para comprar a comida, vestimenta e alguns remédios, hoje, ao contrário, a luta é para conter a compulsão pelo consumo excessivo. Definitivamente, vivemos numa era de excessos. Estima-se que, pelos padrões atuais, o consumo é tamanho que teria de haver seis planetas Terra, caso a população do mundo inteiro passasse a consumir como os americanos. Atualmente, vivemos numa sociedade dominada pela lógica do excesso, em que os indivíduos, mais do que cidadãos, são consumidores vorazes. Note-se que, aos domingos e feriados, praças e espaços públicos estão todos vazios, porque todo mundo se “reúne” nos shopping centers, os novos templos da sociedade de consumo.

O fetichismo do consumo de marcas e grifes capturou grande parte dos jovens, que, por isso, conhecem muito mais os nomes dessas marcas de luxo do que de personagens da história ou da literatura. O consumo virou o grande sonho da vida moderna.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky (Universidade de Grenoble), estudioso dessas questões contemporâneas, considera que, no mundo atual, todos os países e culturas são movidos por cinco forças fundamentais:

o mercado, a tecnologia, as indústrias culturais, o consumismo e o individualismo.

Para Lipovesty, a busca pela felicidade está atrelada aos ideais de consumo, ainda que sejam pequenos momentos de felicidade que nos proporcionam satisfação, como comprar e viajar. Ao mesmo tempo, Lipovetsky aponta uma situação paradoxal de uma sociedade dividida entre a cultura do excesso e o elogio da moderação. Se, de um lado, é preciso ser mais moderno do que o moderno, mais jovem do que o jovem; de outro lado, valorizam-se a saúde, a prevenção, o equilíbrio e a moderação. Como esse equilíbrio raramente é alcançado, surgem ondas de angústia, ansiedade e depressão que, a cada dia, acometem mais e mais pessoas.

Na era do hiperconsumo, moldada pela constante oferta de produtos que diariamente se “renovam”, o apelo ao consumismo entranhou-se definitivamente no cotidiano dos indivíduos, sejam lá de que classe social forem, de tal forma que é possível encontrar milhões de pessoas pobres que, obcecadas pelo consumo, preferem comprar um telefone celular de última geração a alimentos de boa qualidade. Há, ainda, outros mais desfavorecidos que, sem dinheiro, não conseguem tudo o que desejam, mas, mesmo assim, continuam consumidores em potencial – são consumidores “só na imaginação”!

É óbvio que os reflexos e consequências sociais disso não são nada positivos. O filósofo Lipovestky acha que o hiperconsumo acabou por desregular totalmente o sistema de educação. Sem limites, cada vez mais surgem legiões de jovens e crianças incontroláveis. Os pais não conseguem definir-lhes o sentido de limites, pois a existência desses jovens já foi praticamente “colonizada” pelos ideais de consumo excessivo por marcas da moda, equipamentos eletrônicos, e toda a parafernália que a vida moderna oferece. Lamentavelmente, a mensagem que fica é: se você não consome, você está excluído da sociedade, cuja dinâmica de consumo se legitima em nome de uma felicidade fugaz e aparente. Nesse passo, os excessos só tendem a aumentar.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: