A deusa do capitalismo

João Francisco Neto

A partir da década de 1980, boa parte do mundo ocidental passou por uma grande virada conservadora, liderada pelos governos de Ronald Reagan (EUA) e Margareth Thatcher (Reino Unido). Daí para frente, tanto a política quanto a economia voltaram-se para o chamado neoliberalismo, que, em última instância, tem como meta alcançar o Estado Mínimo. Para uma expressiva parcela da população, a concepção do Estado Mínimo é um argumento sedutor, na medida em que prevê um Estado enxuto, restrito às atividades de segurança, justiça e regulação, sem atuação nas demais áreas – principalmente as assistenciais e as produtivas -, que ficariam por conta da iniciativa privada.  Em meio às fortes turbulências por que o mundo passou, como a queda do Muro de Berlin e o avanço da globalização, a doutrina do neoliberalismo perdeu grande parte do encanto que tinha. Perdeu, mas não morreu. Nesse ínterim, assistimos a um forte avanço do conservadorismo, modernamente chamado de “neoconservadorismo”.  Trata-se de um fenômeno que tem sido mais notado na Europa, com a ascensão de governos de direita, e nos Estados Unidos, com o fortalecimento do Partido Republicano, inclusive de sua ala ultraconservadora, o “Tea Party”. Um claro sinal disso é a dificuldade com que os países europeus vêm lidando com a questão dos refugiados, que diariamente chegam aos milhares, em busca de segurança e de melhores condições de vida. Os Estados Unidos, que por um longo período, apenas observaram a crise, agora se dizem aptos a receber uma parcela dos migrantes. Da mesma forma, o governo brasileiro, a princípio um tanto quanto reticente, anunciou a disposição de acolher principalmente os refugiados sírios.

Aliás, não é de hoje que nos Estados Unidos floresce uma cultura do individualismo e do liberalismo econômico, tão ao gosto dos empresários, que encontraram uma fonte de inspiração e justificação na obra da filósofa Ayn Rand (1905-1982). Praticamente desconhecida do público em geral, no seio do grande empresariado americano Ayn Rand é mais do que uma simples celebridade: é considerada uma deusa, merecedora de um fervoroso culto. E de onde vem tanta admiração? A elite empresarial, em geral tão criticada, é tida por Ayn Rand como o motor do mundo, responsável por criar as riquezas e promover o desenvolvimento dos demais; os grandes capitalistas seriam, a seu ver, “aqueles que carregam o mundo nas costas, como Atlas”.  Logicamente, isso soa como música para grandes banqueiros e industriais, que, tão logo tomaram conhecimento dessa “filosofia” tão conveniente, adotaram-na cegamente.  Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve Bank (o Banco Central americano), é um dos seus mais fieis seguidores. Ayn Rand, judia, nasceu na Rússia, mas logo após a Revolução Comunista, emigrou para os Estados Unidos, onde viveu até a morte, transformando-se numa escritora de grande sucesso. O seu livro de maior sucesso, “A Revolta de Atlas” – uma espécie de bíblia do capitalismo -, foi lançado em 1957, e rapidamente se tornou um best-seller, que, em conjunto com suas outras obras, alcançou a espantosa marca de 15 milhões de exemplares vendidos, com adaptações para o cinema e a TV.

O pensamento de Ayn Rand, impregnado pelo anticomunismo, é dedicado à defesa inequívoca do livre mercado, do capitalismo, do individualismo, do empreendedorismo, e radicalmente contrário a qualquer tipo de coletivismo, altruísmo, comunitarismo, etc. Para tanto, criou um escola filosófica, o “Objetivismo”, que ela própria definia como “uma filosofia para se viver na Terra”. Na essência, Rand considerava ruim qualquer tipo de altruísmo (preocupação com as outras pessoas), ao mesmo tempo em que exaltava o individualismo –  ou o “egoísmo virtuoso”, que coloca o indivíduo como um fim em si mesmo, o que seria então uma virtude, e não um pecado. O pensamento de Ayn Rand sofreu duras críticas de todos os lados, mas foi muito bem recepcionado pelos liberais, libertários e conservadores americanos, além, é claro, dos setores de ponta do grande capital. Seus detratores (que não são poucos!) dizem que o Objetivismo nada mais é do que a defesa de um pretenso direito de viver em sociedade, sem se preocupar com as demais pessoas, isto é, sem pagar muitos impostos. Como sempre, a questão tributária está subjacente a quase tudo. Por fim, para ser honesto e não ser leviano, convém ressaltar que a obra de Ayn Rand é bastante densa e consistente, de forma que estas poucas linhas não seriam nem de longe suficientes para desconstruí-la e tampouco para explicá-la a contento. Trata-se tão-somente de uma singela introdução à obra de uma pensadora, que, goste-se ou não dela, tem lá a sua importância no cenário político-filosófico da atualidade. Para quem porventura se interessar, as duas principais obras de Ayn Rand já foram publicadas em português: a citada “A Revolta de Atlas” e “A Nascente”. É ver e conferir.

jfrancis@usp.br

* Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

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