O segredo da felicidade

Francisco das Chagas Barroso

PARTE – I

São Paulo, Brasil, idos de 2010

E lá estava Josias. Altivo. Próspero homem de negócios.

Leitor assíduo, amante da prosa e da poesia, devorava e admirava obras, desde Camões até Paulo Leminski. Mas o seu livro de cabeceira, do qual não se separava, e que dizia já haver lido dezenas de vezes, era Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Possuía os dois volumes, no original idioma Espanhol.

Mas na vida sentimental, o cinquentão Josias não ostentava o mesmo entusiasmo. Havia contraído matrimônio quatro vezes. Relacionamentos muito atribulados. Dessas uniões, frutificaram cinco filhos, já formados, exceto Carolina, a caçulinha de 15 anos. Dizia que era sua flor, sua inspiração.

Amante da liberdade, pelo menos no plano teórico, já que na vida real se sentia prisioneiro da rotina e dos negócios, Josias sabia que, exceto os solteiros, somente se pode ser livre nos dois extremos da vida: até antes de constituir a família e após o divórcio e os filhos estarem todos formados e independentes. Queria ganhar o mundo e buscar freneticamente a felicidade.

Anos atrás, havia adquirido uma paixão de juventude – uma motocicleta Harley Davidson novinha em folha. Montado em sua possante, sonhava em realizar todo o circuito andino – da Patagônia argentina à Machu Picchu, no Peru.

Josias era fascinado por objetos históricos das civilizações pré-colombianas. Já estivera no México e na Guatemala, visitando ruínas astecas e adquirindo vasos e souvenires locais.

Na sua casa, escassa de móveis e guarnições, a sofisticação era presente apenas em suas extensas estantes de madeira certificada, espalhadas por todo lugar. Havia uma coleção de mais de dez mil livros, inclusive em línguas estrangeiras.

Mas enquanto Josias planejava a viagem dos sonhos, a caçulinha crescia e já estava cursando arquitetura. Mas enquanto não chegava o grande dia, nas folgas do trabalho, Josias se encontrava com amigos nos bares da selva de pedras, onde afogava as mágoas naquelas mesinhas taciturnas. Vez por outra, fazia incursões na casa da luz branda avermelhada, e, bem longe dos olhos puritanos, encontrava conforto às suas agruras sentimentais na acolhedora dama de peitos desnudos, que, com suas ancas e curvas, contemplava a ventura de simplesmente viver.

Dizem por aí que homem não faz amizade com mulheres, mas o fato é que Josias tinha uma grande amizade por Beatriz, uma amiga de faculdade, que morava em Belém, no Pará. Nutriam grande respeito e admiração mútuos. Para a amiga, fazia questão de escrever e desabafar. Mesmo em tempos de redes sociais e e-mails, não se rendia à tecnologia e utilizava a velha e boa carta escrita à mão.

Certo dia, no passado, quando ainda levava uma vida modesta e passava por terrível crise do primeiro casamento, amargurado e já revelando uma vocação poética, Josias escreveu à sua confidente Beatriz:

– “ficarei mais alguns dias. Passarei mais algumas chuvas. Afinal, quem irá consertar as goteiras grotescas da casa e trocar a lâmpada há meses queimada, sem queimar a própria alma? Quem irá carregar o saco de lixo repleto de larvas, absolventes sanguinolentos e outros excrementos? Quem irá nos levar ao mundo dos vivos naquelas cavalgadas animalescas, nas raras noites abissais, assim sem beijos nem afagos, com a cara virada para a parede mofada? E assim a vida vai passando…”

Continua…

franchaba@bol.com.br

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