O segredo da felicidade

Francisco das Chagas Barroso

PARTE – II

Aquele pai amoroso, mas meio durão, não resistiu e se encharcou de lágrimas no casamento da caçulinha Carolina, a última emancipada. Na festa, ora demonstrava alegria, ora alívio e um olhar contemplativo. Um filme correu na sua cabeça: aquela menininha tão querida, desde a notícia da concepção e os exames de ultrassom, o nascimento, os primeiros dentinhos, a benguelinha aos 5 anos, o primeiro dia no colégio, o passeio na Disney, os quinze anos, os milhares de beijos e abraços mágicos. Mas aquele momento sublime não significava somente a felicidade da filha, mas também a sua independência, a missão cumprida e, agora, já poderia realizar o sonho de liberdade.

No dia seguinte ao casamento da filha, Josias se sentia bastante confiante. No escritório, emocionado, conversava com a secretária de longa data, Sra. Débora. A essa eficiente senhora, formada em Assistência Social, muito devia, pois era quase uma mãe. Era ela quem ouvia seus desabafos e problemas do dia a dia na empresa e nunca lhe negava uma palavra amiga e confortante.

Sra. Débora! Junte todos os meus objetos pessoais, quadros, fotografias, canetas, souvenires e alguns livros. Daqui a três dias, passarei o cargo para o meu genro. Vai estar em boas mãos. O rapaz tem boa formação, principalmente humanista.

A Sra. Débora, já esboçando emoção e marejando olhos, o olhava firmemente, balançava a cabeça e meio irresignada, falava:

Mas, seu Josias! Vai abandonar tudo que construiu nesses anos todos?

Sim, Sra. Débora! E muito obrigado por tudo! Devo-lhe muito mesmo, mas não vamos chorar mais. Afinal, vou realizar a aventura da minha vida.

Josias não perdeu tempo. Tomou todas as providências naquela mesma semana, mas queria algo grandioso, uma mudança de vida radical. Doou parte de seus bens, entre imóveis, carros e dinheiro à família, amigos e instituições de caridade, restando apenas o suficiente para viver com dignidade. Despediu-se dos parentes e amigos e preparou-se para a cruzada. Tratava-se de um sonho antigo, uma excursão cultural e espiritual pelas terras mágicas das cordilheiras.

Mas antes, queria se despedir pessoalmente da grande amiga e confidente Beatriz, em Belém, no Pará. Tomou um avião e à tarde já estava andando pelas ruas arborizadas da cidade quente e úmida, com boa gastronomia e um povo muito acolhedor. Marcaram o jantar na Estação das Docas. E lá estavam os dois amigos, contemplando um ao outro naquele momento especial regado a um gostoso suco de Cupuaçu e um saboroso pato no tucupi.

Aquele encontro foi mágico, pois relembraram e falaram do passado na universidade e da vida pessoal de cada um. Por uma questão de cautela, Josias deixou para contar sobre a aventura, como último assunto. Ficou contente em saber que Beatriz estava bem casada e com dois filhos. Então, não poderia deixar de visitá-los no outro dia seguinte. Dito e feito. No dia seguinte, visitou a casa de Beatriz, conheceu seus esposo e filhos maravilhosos e ainda filou a boia do almoço. Por fim, Josias relatou a aventura a que estava prestes a realizar e os seus olhos e os da amiga se encheram de lágrimas. Mais uma emoção experimentada. Josias se despediu de todos e retornou da viagem naquela noite.

Naquela manhã de maio, Josias parecia um menino em seu primeiro brinquedo quando montou na sua Road King Classic, com todos os cromados e alforjes de couro que tinha direito, rumo à Patagônia. Não abriu mão também em adquirir coletes e agasalhos de motoqueiro, adequados ao frio intenso que iria encontrar pela frente.

Após dois dias de viagem, lá pelas tantas, após haver cruzado a fronteira gaúcha, já em território argentino, se deparou na estrada com um índio vendedor de bugigangas. O velho o surpreendeu, afirmando que sentira a energia da sua alma inquieta, diante do que, precisava encontrar o segredo da felicidade. No princípio, Josias estranhou, mas logo entendeu, até porque, estava crente de que, certamente aquela viagem estaria repleta de espiritualidade. Sem cerimônia, comprou algumas lembranças e ouviu atentamente o relato do homem, que lhe indicou um velho Xamã, que morava na província de Chubut, na Patagônia.

Após alguns dias na estrada, o destino levou Josias ao Xamã. Passou uma noite naquela aldeia fria e isolada, mas a busca não terminara. O Xamã confirmou uma antiga crença de um sábio eremita que habitava os confins das cordilheiras, o qual dizia saber o segredo da felicidade.

Na sessão xamânica, ao redor de uma fogueira, depois de ingerir e distribuir aos presentes uma beberagem alucinógena, o velho índio bradava:

lá nos confins das cordilheiras, onde somente o condor plana majestoso. No silêncio gélido da neve branca, onde a névoa seca embaça o horizonte e os picos perfuram as nuvens. Lá nas encostas e vales andinos, onde jazem espíritos da civilização massacrada, mora um sábio ermitão, que pode te dar a resposta que procuras”.

Josias acordou bem cedo, em meio à ressaca, devido aos efeitos da bebida, mas já estava pronto para seguir em frente.

Ocorreu que a viagem, dali a diante, não poderia ser feita por motocicleta, mas a pé, com algumas lhamas cargueiras. Com os víveres que julgara suficientes e movido pelo fascínio da viagem, partiu para a grande e derradeira jornada.

Não se tem registros exatos do desfecho da aventura, exceto pelas informações colhidas de algumas páginas de um diário encontrado por um alpinista, bem distante de onde Josias partiu a pé, vários anos depois, que, em letras trêmulas, assim descrevia o encontro com o sábio:

Oh! Grande mestre ermitão! Atravessei lagos e pântanos. Vales e encostas impenetráveis. Muitas feras derrotei. Toda sorte de obstáculos. Por milagre aqui cheguei.

Há muito te procurava! Despojei-me da riqueza. Vim em busca da verdade. Diga-me, sábio eremita: qual o segredo da felicidade?

Perdeste teu tempo e riqueza! Tal segredo eu não sei. Mas podemos ouvir um belo tango de Gardel. Tenho um gramofone à manivela e um vinil. Trouxe de Montevidéu.”

FIM

franchaba@bol.com.br

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