Marina Silva, a experiência e o tradicional jogo sujo da governabilidade

chico.barroso11Francisco das Chagas Barroso*

Neste momento ímpar que passa o Brasil, quero pedir a paciência dos caros leitores do Blog do AFR, para completar a trilogia de artigos sobre a guerreira Marina Silva, que nestas eleições não enfrenta somente a candidata Dilma Roussef. Luta também bravamente contra o desigual tempo de propaganda eleitoral; contra a demolidora máquina do governo; contra a compra de votos institucionalizada do Bolsa Família; contra a infâmia do PT; contra o maior partido do país – PMDB, que não quer largar o osso; contra as grandes construtoras e suas relações inconfessáveis com o governo do PT; contra o capo Lula; contra a mídia chapa branca e outras vozes reacionárias e preconceituosas.

Quando escrevi o artigo anterior – “MARINA SILVA É DIGNA DE GOVERNAR O BRASIL”, de fato, a dignidade a que me referi no artigo, é uma análise mais pessoal, baseada na trajetória política e da vida da candidata.

Agora, quanto à questão de experiência administrativa, é fato que Marina tem farta experiência no Legislativo e pouca no Executivo – foi ministra do meio ambiente no governo Lula.

A experiência é um atributo importante, mas estreito. O cargo de presidente de um país, certamente extrapola os meros conceitos de experiência e eficiência. Ao contrário de prefeitos e governadores, que são mais executivos da ponta, o cargo de presidente, central, com o grande poder que detém, além de eficiente, deve ser mobilizador e, sobretudo, reformador, afinado às necessidades mais caras do povo e da sociedade.

Sabemos que, ante aos recursos que dispõe e às atribuições e competência constitucionais da União, só esta pode, via executivo federal, mudar a realidade do país. Mas para isso – no Brasil são enormes as demandas – é necessário ser além de executor ou gerente, como Dilma. É preciso ter a coragem para impor as mudanças.

FHC teve a coragem, de, contra tudo e todos (inclusive o PT) impor e aprovar o plano real em 1.994 e a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2.000, tão necessários à estabilidade fiscal e econômica do país. Entretanto, certamente, o preço da reforma foi muito alto, nas negociatas do planalto, no chamado rolo compressor do governo, conduzido, à época, pelo ministro Sérgio Mota – o saudoso Serjão.

Hoje, todos sabemos que a importante reforma previdenciária – Emenda Constitucional nº 41/2003, foi aprovada ao custo do mensalão, no governo Lula.

Mas, e as outras demandas? Mudanças na saúde, educação, segurança e as reformas tributária e política, são os anseios mais caros e desejados pelos brasileiros e são objetos de promessas em todas as eleições. Então porque os presidentes e políticos eleitos nunca resolveram?

A resposta está no fato de que as composições políticas para possibilitar a governabilidade, como vem ocorrendo tradicionalmente, não põem os interesses mais relevantes da nação como prioridades.

Funciona assim: O presidente, ávido em ter maioria no congresso, nomeia ministros corruptos de partidos aliados, já previamente indicados pelos líderes das bancadas. O ministro nomeado, por sua vez, nomeia os cargos em comissão, assessores também corruptos, e assim, por diante. No final, toda a cadeia de cargos importantes da pasta resta contaminada. Essa mesma prática ocorre, embora, em graus variados, nos Estados e municípios.

Nesse ambiente de fisiologismos e corrupção, as instâncias do poder executivo se transformam num balcão de negócios e o presidente fica refém desse jogo político sujo. Portanto, o custo político (e financeiro) para aprovar estas importantes reformas, por esta via tradicional, se revela muito alto e até perigoso, intimidando o chefe do Executivo.

No final das contas, essa prática tradicional é a grande responsável pelas estradas esburacadas, pela falta de saneamento básico, pelo péssimo serviço de saúde pública, onde o cidadão demora 06 meses para realizar um simples exame de ultra-som, enfim, pelos altos tributos pagos, sem retorno satisfatório à população.

Por isso, é necessário quebrar esse ciclo vicioso e nefasto.

É preciso dizer claramente aos cidadãos, que, se os membros do legislativo não atendem aos anseios populares que deviam representar, se comportando apenas como meros “representantes de direito”, então, que se discuta diretamente com o povo essas questões fundamentais. É a mobilização popular que irá pressioná-los. Isso funcionou espontaneamente em junho de 2013.

Como diria Marina Silva, não se trata de substituir o sistema de representação indireta, mas sim, de mobilizar para discutir e pressionar, e dizer: “basta! nos representem de fato!” aos políticos eleitos.

Portanto, acho que a competência nata ou experiência administrativa anterior não são fundamentais para um presidente (ao contrário, podem até trazer vícios agregados) neste momento histórico que vive o país, mas sim, a honestidade, a coragem e a determinação para mobilizar o povo e tentar mudar as coisas e, na parte administrativa, uma composição de ministérios sérios e equipes meritocráticas.

Nesse contexto, observo que Marina Silva, além da dignidade, tem o sangue nos olhos e a alma inquieta, que junto com o momento ímpar, que decorre do apoio da população, poderá vir a mudar o tradicional modo de governar o Brasil.

franchaba@bol.com.br

PERFIL e ÍNDICE de ARTIGOS de FRANCISCO DAS CHAGAS BARROSO

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

One Comment to “Marina Silva, a experiência e o tradicional jogo sujo da governabilidade”

  1. Francisco. Quero humildemente estar com as mãos livres para te dar meus aplausos por este excelente artigo que faz levantar um pouco o alto-estima do eleitor brasileiro. A Marina Silva, pelo seu histórico de vida pública e apesar de lhe faltar experiência administrativa, pode sim fazer um ótimo governo. No entanto, todos sabemos que depois de eleita não será fácil juntar alguns poucos caquinhos ministeriais de boa índole e uns membros do legislativo menos corruptos, para fazer a máquina governamental girar bem de forma satisfatória em favor do povo brasileiro.
    Outro ponto interessante foi seu comentário sobre a reforma previdenciária implantada pela EC 41/2003, posteriormente alterada pela EC 47/2005 (efeitos retroativos à 2003); na minha opinião, essa dita reforma deveria ter sido declarada inconstitucional (por decisão do próprio STF) por ter sido orquestrada, implantada e implementada por um congresso nacional minúsculo, que em sua grande maioria, estava (e ainda está) envolvida nos mantos da corrupção dos mais diversos tipos e fundamentos, e, entre eles, o grande e volumoso processo de desvio de dinheiro público, no mais ardiloso esquema de corrupção e roubalheira conhecido como “O MENSALÃO”. E tem mais, por conta dessa malfada reforma os Agentes Fiscais de Rendas do Estado de São Paulo têm até hoje suas remunerações limitadas ao subsídio do Governador do Estado e os servidores públicos aposentados e pensionistas continuam pagando contribuição previdenciária ( de 11 % sobre seus proventos ).
    Sabe Francisco, nunca acreditei muito em políticos-partidários, porque sempre pensei que no Brasil a militância política se tornou um grande negócio e depois quem paga a conta é o povo. Penso que um dia haverá uma reforma política digna de ser aplaudida, reforma política que tivesse como ponto principal uma redução na quantidade de partidos políticos, porque o Brasil é fácil de governado, desde que tenhamos na política partidária uma meia dúzia de partidos políticos composto de homens e mulheres imbuídos de boa vontade para com o povo brasileiro. Mas, todos sabemos que na prática a máquina política funciona diferente da vontade do provo. Gde.abraço e cordiais saudações.

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