A Revolta de Junho de 2013 – O Início

Francisco das Chagas Barroso

Ônibus lotados, sujos, motoristas e cobradores exaustos e rudes, longa espera nos pontos – pura humilhação ao cidadão – a realidade infernal do transporte urbano brasileiro, alimentado por verdadeiras máfias ávidas ao lucro extremo, mantidas pela corrupção dos gestores públicos em detrimento da qualidade e do respeito ao povo.

O aumento no valor das passagens foi só o estopim, o pavio! Naquele fatídico junho de 2013 o povo foi às ruas!!!

Nunca se entendeu porque a oitava potência econômica do mundo ostentava tanta miséria, tanto número negativo. Péssima educação. Violência extrema – maior do que muitas guerras. Hospitais com corredores fétidos e lotados, onde doentes, no chão, davam o último suspiro sem dignidade.

Nunca se entendeu porque nossas estradas eram tão esburacadas e deterioradas, tal qual o caráter dos gestores públicos corruptos e suas caminhonetes reluzentes, suas fazendas e outras prosperidades roubadas do povo.

Nunca se entendeu porque os gestores públicos preferiam torrar dezenas de bilhões para promover a copa do mundo e olimpíada, numa política de pão e circo, enquanto o povo sofria por falta de assistência básica.

Nunca se compreendeu, porque nesse país, como já alertara o visionário Rui Barbosa, a desonestidade e a corrupção, eram valorizadas, o mal vencia e a impunidade prevalecia.

Então, o povo foi às ruas!! O gigante, deitado em berço esplêndido, finalmente acordou!

As manifestações, nem tanto “pacíficas” ocorreram na medida e na extensão da realidade social que se apresentava. Alguns denominados “vândalos”, radicalizavam, culminando com derramamento de sangue.

O levante não tinha dono, não tinha partido. Era do povo. Incontestável. Não havia lideranças. Alguns políticos oportunistas que se habilitavam ao tomá-la para si, eram logo desmascarados.

Passados alguns anos, a revolta veio das urnas e o povo desaprovou os dinossauros da política. Em todo o país houve renovação de mais 80% nas cadeiras dos parlamentos e do executivo, aspecto seguido nas eleições posteriores.

Descobriu-se, com a ajuda da imprensa, um esquema bilionário de corrupção na PETROBRÁS, e de maquiagem da economia, motivando o impeachment do presidente, à época.

Conseguiu-se aprovar lei federal tornando os crimes contra o patrimônio público em crimes hediondos.

Aprovou-se também Emenda Constitucional proibindo qualquer partido de disputar eleição por mais de 03 mandatos consecutivos no Executivo e estendeu-se a o mecanismo da reeleição ao Legislativo, proibindo-se dessa forma, a perpetuação no poder, partidária ou individual.

Criou-se a obrigatória Certificação de Qualidade de Obras Públicas.

As oligarquias e raposas da política foram definitivamente banidas do cenário político brasileiro e uma nova geração foi eleita para mudar os rumos do país.

Nesse processo “pacífico”, muito sangue foi derramado! Junto com algumas figuras da escória da política, muitas almas nobres e valorosas pereceram. O tempo se encarregou de arrefecer os sentimentos, mas não apagou a chama da indignação do povo, o motor da mudança.

Uma nova realidade se estabeleceu. Para consolidá-la, dezenas de anos se passaram.

Hoje, tudo mudou!! As crianças podem caminhar até a escola e brincar à frente de suas casas. Já se pode ir à padaria, sem o receio de não retornar são e salvo. Gestores de mãos limpas, da própria comunidade gerenciam os valores públicos de forma descentralizada e distrital. Os necessitados são assistidos. Os hospitais são satisfatórios, as crianças e idosos, amparados. Os mestres valorizados. O asfalto bem trabalhado e as sarjetas já não abrigam mais corpos humanos abandonados, como antigamente. Nas escolas são enfatizados ensinamentos de tolerância, fraternidade e humanidade. Os animais e a natureza são cuidados e preservados.

Já velho, caminhando para o fim da jornada, orgulhoso e um pouco atormentado pelo passado (uma vez que me encontrava na categoria dos “vândalos”), ainda me arrepio ao lembrar daquele fatídico mês de junho de 2013.

Brasil, 18 de junho de 2050.
Cidadão sonhador.

franchaba@bol.com.br

PERFIL e ÍNDICE de ARTIGOS de FRANCISCO DAS CHAGAS BARROSO

NOTA DO EDITOR: Os textos dos articulistas não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR, sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

5 Comentários to “A Revolta de Junho de 2013 – O Início”

  1. Parabéns, Barroso, pelo sonho…
    O perigo é o sonho virar pesadelo.
    Criticar, manifestar descontentamento, botar a boca no trombone é sempre bom, mas a baderna, as passeatas sem traçado prévio, sem liderança, sem objetivos concretos e plano de ação… isso é meio assustador… está me cheirando a anarquia.
    Tem gente que não está conseguindo chegar ao trabalho, perdendo reuniões importantes por atraso devido às passeatas, tem criança em táxi, tem doente grave morrendo a caminho congestionado do hospital, e agora estão fechando até as estradas…
    Isso é desordem, a produção interna vai cair, os impostos vão despencar, os capitais já estão dando o fora daqui (o dólar e o euro estão disparando), os investimentos vão diminuir (quem é louco de investir em país com desordem social?), o desemprego vai crescer e talvez venha acompanhado de inflação…!!!
    Portanto, para esse sonho virar pesadelo é um triz. O povo, se agir atabalhoadamente como está agindo, vai dar um tiro no pé.
    Tem muita gente por aí esfregando as mãos, é a turminha do quanto pior, melhor, pois há muitos interesses políticos em jogo… no ano que vem há eleições importantíssimas.
    Não sei se me explico bem, mas tem muita gente por aí querendo ver o circo pegar fogo para depois vender outro espetáculo MUITO PIOR DO QUE O ATUAL… Aliás, tem gente querendo vender um espetáculo que já foi visto antes que era repleto de “LATINHAS”… (lá tinha uma fábrica, lá tinha uma loja, etc).
    É preciso tomar cuidado, pois o Brasil vinha vindo RELATIVAMENTE BEM NO CENÁRIO MUNDIAL: o desemprego por aqui não é tao grande como lá fora, a inflação está mais ou menos contida (apenas 1 digito), o PIB está crescendo (na casa de 3% ao ano, não é muito, mas também não é pouco), MAS… tudo isso pode piorar e muito se essa manifestação virar anarquia, como me parece que está virando, e me parece que certos governantes e certos futuros candidatos estão achando ótimo.
    Criticar, brigar, reclamar, fazer passeata, exigir que os governos tenham mais competência, não joguem fora o dinheiro público como vêm fazendo, tudo bem, está certíssimo, temos que berrar mesmo. Mas vamos com calma que o santo do povo é de barro e pode quebrar se chacoalhar demais. E, neste caso, talvez o “Cidadão Sonhador” nem acorde em 2050.

  2. Desculpem a nossa falha: onde está escrito “tem criança em táxi” leia-se “tem criança nascendo em táxi”.

  3. Caro Valente, sempre atento à realidade. Mas não custa sonhar um pouco!!

    Grande abraço.

  4. Claro, Barroso, sonhar sempre é bom. De preferência, de olhos abertos, a mente no alto e os pés no chão.

    O problema maior me parece que é o das grandes metrópoles. Talvez nas regiões com populações menores não se perceba tanto os efeitos negativos dos últimos acontecimentos.
    Não há dúvida de que a vida por aqui é bem desumana: ônibus e metrôs estupidamente lotados, prontos socorros com doentes empilhados em corredores, consultas médicas com exames a perder de vista, trânsito caótico, violência exacerbada (inclusive por parte de menores infratores)…
    Há que se manifestar contra esse estado de coisas, sim, claro, MAS COM CONSCIÊNCIA SOLIDÁRIA. As manifestações devem ser feitas dentro de determinadas regras e limites.
    Não é porque os governantes não respeitam os direitos dos cidadãos, que uns cidadãos também se arvorem no direito de desrespeitar os direitos de outros cidadãos. Isto torna as coisas ainda piores para a sociedade. É lugar-comum que o direito de um termina onde começa o direito de outro, mas vale a pena repetir.
    Manifestar-se, exercer o direito de reclamar, de espernear, de exigir providências por parte dos governos, é uma coisa, mas invadir e rasgar os direitos dos outros é bem diferente, aliás, é muito pior.

    E é perfeitamente possível conciliar os direitos. Por exemplo, aqui em SP, Capital, as manifestações poderiam ser feitas no Vale do Anhangabaú (que é uma praça enorme), na Praça defronte ao Pacaembu, na própria Praça da Sé, no Anhembi, no Campo de Marte, no Sambódromo, sempre COM HONORÁRIO ESTIPULADO, com ORGANIZAÇÃO do trânsito pela CET, tudo agendado com certa antecedência e sem improvisações de última hora que avançam pela cidade inteira, desordenadamente, com fechamento de grandes vias, de estradas!!! e até da Marginal Pinheiros…!!! Isto para não falar dos saques de lojas, das destruições de orelhões e vitrines e caixas eletrônicos, tudo isto é criminoso, é coisa de bandidos, não de cidadãos.
    Essas atitudes — da manifestação desordenada aos saques e destruições — AGRAVAM AINDA MAIS a situação do povo. É o povo contra o próprio povo. Não bastassem os governos inoperantes e incompetentes que temos, a população não pode agir contra os seus semelhantes. Isto é burrice, estupidez, cretinice. Isto é que pode transformar sonhos em pesadelos.

  5. Caçapa cantada.Demorou um pouquinho, mas achei os comentários que fizera em 2013, na gênese do golpe que ora vive os seus estertores.
    O sonho virou pesadelo, como prevíramos.
    O Brasil retrocedeu, de junho de 2013 a esta data, uma década.
    Lamentável.
    Movimentos extremistas patrocinados por setores retrógrados da sociedade, setores que praticam explicitamente a xenofobia e a discriminação ideológica, insuflaram a população contra o petismo, contra as virtudes do petismo, pois sabiam que com os números das séries históricas que o PT produzira de 2003 a meados de 2013 , sobretudo no que se refere a salário mínimo, salário médio, emprego, investimentos, distribuição de renda, reservas monetárias, inclusão social, taxa de mortalidade infantil, etc. etc., tudo aquilo pesava fortemente nas urnas, seria difícil tirar o PT do poder através do voto.
    Então aproveitaram a famigerada revolta de junho de 2013, essa que o nosso Barroso comenta no artigo, que objetivava inicialmente, através do MPL (Movimento do Passe Livre), brigar contra a elevação de R$ 0,20 nas passagens de onibus em São Paulo, Capital. Os aproveitadores entraram no vácuo do protesto e insuflaram a opinião pública. Instrumentalizaram a Lava-Jato e diariamente atribuíram o que há de pior na vida pública brasileira — em todos os partidos — exclusivamente ao petismo, como se o PT fora o inventor da corrupção no Brasil… Vomitaram nos microfones, nas telas dos televisores, nas letras da imprensa escrita, acerca de um certo “projeto criminoso de poder”.
    Interessante esse slogan, pois o tal projeto começou antes do Mensalão Petista com o Mensalão Tucano, do mesmo operador Marcos Valério, dos mesmos comparsas. Logo, esse projeto deveria ser mais tucano do que petista, mas não, a mídia carregou as tintas contra o petismo, exclusivamente.
    O objetivo era tirar o petismo do poder nas eleições de 2014. Na garupa do MPL veio o MBL, o Movimento Brasil Livre, patrocinado pela Direita mais retrógrada do mundo, aquela que briga para não pagar a conta, digo, para não pagar impostos como se paga nos países mais desenvolvidos do mundo.
    Não conseguiram alcançar o objetivo de defenestrar o petismo do poder em outubro de 2014. Então iniciaram o terceiro turno, esse que esta aí. Com o apoio de uma FIESP inconsequente, vieram a público com o slogan “Não Vamos Pagar o Pato”, que agitou as ruas e as insuflou a agirem contra si próprias, sem perceber as consequências, eis que toda e qualquer instabilidade institucional gera retração imediata nos investimentos, seguida de retração no nível de emprego, de renda, de arrecadação…
    Foi esta queda última, precisamente a queda na arrecadação, que gerou o déficit público e a necessidade de contingenciar despesas, de procrastinar pagamentos, enfim, de praticar o que o golpismo chamou de “pedalar”. Ora, durante as crises econômicas, o mundo inteiro pedala, nesse sentido. Da Europa à América. Quando as receitas tributárias caem, é preciso cortar despesas e adiar pagamentos. Foi o governo petista fez. Mas a culpa pela queda na arrecadação NÃO FOI do governo petista, e sim do movimento orquestrado, manipulado por aqueles setores retrógrados ao qual acima nos referimos.
    Movimento orquestrado por uma Direita retrógrada, burra, estupidamente burra. Uma Direita inconsequente incapaz de perceber que essa linha de atuação é suicida, ela sangra o petismo, mas antes de sangrar o petismo sangra o país, sangra a economia, sangra todos aqueles que perdem empregos e rendas.
    Ao cabo da burrice, ela própria, a Direita mais retrógrada do mundo, acaba sendo atingida: se nas primeiras etapas do círculo vicioso, sofrem os mais pobres, na sequência sofre a classe média, e, por último, sofre a própria nata magnata.
    Já estão sofrendo a indústria e o comércio, fortemente. Preços de imóveis desabaram. Aluguéis despencaram. Inadimplência na estratosfera. Recuperações judiciais aos montes. Falências. Com exceção do agronegócio e do rentismo inerte (que sobevive à custa da mais elevada taxa de juros real do mundo, e desestímula por si só os investimentos), todos os demais setores estão em queda livre.
    E se alcançada a recente meta de déficit primário na casa de R$ 170 bilhões — jamais existiu isso durante o petismo livre (até meados de 2013, as metas do orçamento foram todas superavitárias — fala-se, à boca pequena, até mesmo no risco de um default econômico. Sim, porque todo déficit exige emissões de títulos públicos da dívida, mas déficit em expansão costuma elevar o nível de risco, exige taxas de juros cada vez mais altas, agrava o déficit total, como que grecifica (permitam-me o neologismo) a economia, as dívidas se avolumam a tal ponto que, em dado momento, o governo não consegue mais rolá-las colocando novos títulos no mercado.

    (Pensando bem, creio que este texto está longo demais para um comentário que pretendia apenas evocar uma caçapa cantada em 2013, talvez possa ser colocado como um humilde artigo desde humilde escriba.)

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