Tudo que a administração toca vira meta

Carlos H. Peixoto

No trabalho, se a licença por saúde não viesse antes, o momento mais esperado, em ordem crescente de oportunidade, eram os finais de semana, os feriados prolongados, as férias e a aposentadoria. E, se tudo desse certo, a morte, inoportuna, Senhora Absoluta do Tempo, estaria nos esperando, a luz apagada no fim do corredor, a foice na mão esquerda, e na direita uma passagem para o Tártaro (o livro de Buzatti me marcaria a alma).

Eu estava no escritório mexendo em arquivos e encontrei meu velho e surrado colete… Será que ele ainda me serve?

O telefone toca, insistente, não atendo. Ouço batidas na porta. O Smith & Wesson que herdei de papai em cima da escrivaninha, única bala no tambor, a mão enrugada e trêmula, abro a gaveta e escondo a arma. Atrás da porta, minha mulher me chama. “Telefone para você”. Não estou para ninguém. Duas voltas na maçaneta. A porta trancada, ela desiste e se afasta. No silêncio do escritório, ponho pra tocar Hungarian Rhapsody nº 2, de Franz Liszt, e me afundo em recordações.

Dentro de uma pasta, uma foto antiga. Não me recordo o ano em que foi tirada. Na foto, eu e sete outras pessoas estamos em um bar, brindando com cerveja. Reconheço um colega já falecido. Trabalhávamos na mesma sala. Um dia, por causa de uma discussão boba, ele me falou: “Por favor, não me dirija mais a palavra”. Daquele dia em diante, o sujeito decidiu emudecer por completo, como a atriz Liv Ullmann no filme “Persona” de Ingmar Bergman. Ainda assim, nunca deixei de cumprimentá-lo, “bom dia, boa tarde e boa noite”. Em resposta, ele balançava a cabeça, igual lagartixa.

Faltavam dois anos pra me aposentar, eu não tinha mais saco para as reuniões chatas e longas, o chefe palestrando para as paredes, exibindo gráficos e tabelas no powerpoint. A maioria dos agentes se sentavam nas últimas cadeiras. A coisa era tão empolgante quanto duas amebas transando. Eu sempre ocupava a primeira fila, pra não cair no sono. Ninguém fazia perguntas. Quem apresentava sugestão diferente do que estava “acordado” no Planejamento Estratégico acabava pagando o pato. Os que chegavam ao topo da hierarquia, como se vivessem no Olimpo, logo se esqueciam do abismo que os separava da base da montanha. O Sistema Central de Inteligência não se interessava pelo que você tinha a oferecer, tudo que lhes interessava era controlar os servidores. O novato ignorava a experiência do veterano, o velho não dava bola para a novidade.

Olhos pregados no computador, meus dias corriam em câmera lenta, longos e entediantes, como um rio de lodo estagnado no eterno presente, anti-heraclatiano (ao mergulhar nesse rio absurdo, sem sentido, eu retornava sempre o mesmo). Tempo perdido, o passado nunca passava (ia se apagando), e o futuro jamais se concretizaria (virou promessa vazia).

Enquanto isso, todas as metas eram atingidas.

A tecnologia da informação fascinava a alta gerência. No chão de fábrica, em tempos de amizade virtual, ninguém se interessava pelo outro. Exceto pelos bolões da mega-sena, vivíamos isolados, entrincheirados em nossas células de trabalho.

Algo deveria ser feito. Contrataram um psicólogo japonês para ministrar um curso sobre a importância do contato físico. Treinamos abraços e beijinhos. “Quanto tocamos um no outro, nosso cérebro produz oxitocina, a mesma substância produzida pelas mulheres na hora da amamentação. A oxitocina nos deixa calmos, relaxados e confiantes. É o oposto da adrenalina, que nos prepara para correr e brigar, por exemplo”, ensinava o professor, abraçado a uma aluna.

A coisa funcionava apenas nas oficinas. De volta à rotina do trabalho, as pessoas continuavam as mesmas, distantes, frias.

Os homens que faziam chover resolveram intervir. Depois de inúmeras reuniões, apresentaram o Sistema de Gestão do Clima Organizacional, um programa de computador capaz de sentir o clima interno e programar a espontaneidade do ser humano. Para tanto, implantaram a Superintendência de Controle do Clima Organizacional (SCCO), criaram doze cargos de diretoria, selecionaram quarenta assessores e oitenta estagiários em psicologia. Estabeleceram metas. “Metas pressupõem objetivos, valores a serem atingidos e prazo para realização”, dizia o diretor de RH. E os diretores passaram a competir entre si, pra ver quem aparecia mais no informativo interno.

Metas, para serem atingidas, dependem de incentivos. Grana. O que antes fazíamos de graça, e por prazer (cumprimentar o colega, abraçar um amigo, dar parabéns no dia de aniversário, dois beijinhos nas mulheres), passou a valer pontos. Pontos que interferiam na avaliação anual; pontos que, quando não alcançados, representavam perda salarial.

Véspera de feriado prolongado, dezoito horas de uma quarta feira. Todos já haviam saído, mas um funcionário permaneceu em sua estação de trabalho. Encontraram-no, seis dias depois, terça-feira, às 10h45. Ataque cardíaco. Os colegas ficaram com receio de tocar na armadura do outro. Foi a faxineira quem o percebeu, imóvel, a cabeça caída no teclado. Ela precisava limpar a sala.

chpeixoto@oi.com.br

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

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