Sete narizes

jokerCarlos H. Peixoto

“…zerar o déficit que não parava de crescer, basta torturar os números …”

Algo cheirava mal no Reino de Araque. Após disputa entre o Príncipe e os cidadãos por questões de planejamento urbano, diante da falta de transparência visando acobertar o tráfico de informações privilegiadas na compra e venda de lotes na Colina da Gola Verde, extensa área de terra desapropriada para construção do novo Palácio da Administração, o escultor, poeta e filósofo R.B. Furtado espalhou moldes de seu próprio nariz pelos muros e paredes da cidade. Aquele que encontrasse os sete narizes, reza a lenda, seria agraciado com riqueza financeira. Eu os encontrei, mas isso seria a minha ruína.

Naquele tempo de abutres atropelados por aeronave fantasma, ovelhas azuis lambiam as últimas gotas barrentas da Cantareira, enquanto Pinto, o pequeno, atolado em dívidas, ciscava no terreiro da fazenda em busca de grana.

Ainda era de madrugada, quando Al Arak, furioso por ter sido acordado uma hora antes do meio-dia, emitiu correio telegráfico: “Demita os faxineiros, crie mais cinco mil cargos e dobre o salário dos comissionados”.

E assim foi feito. Talvez por desejo de imitar Calígula, dizem, nessa mesma época o Príncipe dos Nababos nomeou um jegue para a Superintendência de Pesos e Tarefas. Ninguém entendia nada do que ele falava, mas o quadrúpede recebia 35 mil pratas por mês para abrir e fechar palestras.

A título de esclarecimento, cinco anos antes do tempo em que escrevo, o Príncipe de Araque, preocupado com a situação falimentar do Reino, mandara erguer um novo Palácio de dois bilhões de dracmas sem consultar o povo ignorante, que decerto preferiria desperdiçar o dinheiro dos tributos em saúde e educação — problemas habilmente contornados pelo governante quintuplicando-se os gastos com publicidade, obtendo assim o mágico resultado de fazer com que os súditos habitassem o mundo feliz da propaganda.

Pagar em dia os juros da dívida, zerar o déficit que não parava de crescer — isso é obrigação de todo governante, basta torturar os números que o superávit logo aparece.

Preciso fazer com que os jornais publiquem somente o que me favoreça — decidiu-se Arak.

Ninguém melhor para executar engenhosa tarefa, senão Kassandra, a Mandachuva da Imprensa. A feiosa não perdeu tempo: paparicou com generosas verbas os jornais amigos, e mandou prender, empastelar, amordaçar e arrebentar a mídia oposicionista, bloqueando acesso aos sítios pagãos onde os desafetos se reuniam para entoar cânticos contra o governo do irmão.

Aproximava-se o dia da eleição do homem mais bonito do Reino. Oportunidade única para desmascarar o tirano, sempre ocupado com a aparência. Durante uma festa pantagruélica, auxiliado por um garçom amigo, infiltrei-me no Castelo de Taras. Durante a madrugada, escondi-me no quarto do soberano.

Por volta de treze horas o príncipe deixou o banho e entrou no quarto. Havia ali um grande espelho. Agradava-lhe a imagem refletida: olhos negros, cabelos castanhos e revoltos, a pele rejuvenescida por aplicações de botox, no rosto nenhuma ruga de preocupação.

— Espelho cristalino, diga-me, o que devo fazer para derrotar aquelas duas feiosas? — perguntou para si mesmo, referindo-se às adversárias, Bulgra Karloff e Lagartixa Verde, cada uma com seus poderes e feitiçarias: a primeira, dona de varinha mágica, capaz de mover montanhas de grana; a outra, lagartixa da floresta, quando confrontada exalava uma cortina de fumaça verde, inebriando ateus e crentes.

Espremido entre roupas e caixas de sapato, eu não possuía visão completa do aposento. Estando de cócoras, levantei-me com cautela, afastando um pouco a cortina, e só então pude reparar melhor: o príncipe estava sem o nariz!

Abaixo dos olhos, no ponto da face onde se dividia o septo nasal, dois buracos esbranquiçados, e nada de nariz! Incrédulo, continuei atento. Nem se eu quisesse conseguiria fechar meus olhos para o fato: o príncipe Al Arak era um ser biônico.

Se vocês estão lendo este relato é porque estou morto ou apodrecendo nas masmorras do Castelo. Como jornalista, de que me valeria descobrir que o Rei está nu se eu não pudesse contar para ninguém? O que vou lhes revelar é segredo de Estado: todas as noites, ao retornar da balada, o Príncipe tirava o nariz antes de ir para a cama.

Ao contrário de Kovaliov, cidadão russo que perdera o nariz nas ruas de São Petersburgo, Arak não entrou em desespero. O extraordinário, no entanto, ainda estava por acontecer.

Foi então que eu vi, com os olhos quase saltando das órbitas, o momento em que o Príncipe acionou um mecanismo por detrás do espelho. Ouviu-se um estalido. A superfície do espelho deslizou para a direita, revelando uma coleção de narizes, um para cada dia da semana!

— Que dia é hoje? Oh, mas que cabeça, ontem eu fui ao baile de Máscaras na Casa da Turca…pinochio

Sanada a dúvida mundana, o Príncipe extraiu o objeto adiposo do cabide onde se lia “quarta-feira”. Examinou o nariz, removendo uma película protetora. Olhos fixos no espelho, com dois movimentos precisos, direita, esquerda, Al Arak encaixou a cartilagem artificial no centro da face. Depois, com a boca fechada, aspirou profundamente o ar pelas narinas, soltando do mesmo modo, e com toda força, o ar nos pulmões acumulado. O nariz funcionava perfeitamente.

— Espelho cristalino, responda-me uma pergunta somente: se sou o mais belo e inteligente, por que lhe parece impossível que eu seja eleito presidente?

Ato contínuo, como se estivesse a ensaiar discurso para a campanha do homem mais bonito do reino, Al Arak treinou sua retórica, enchendo o recinto com dúzias de clichês políticos…[1]

[1] Nota: esta é uma obra de ficção, a semelhança com o nariz de qualquer pessoa de carne e osso é mera coincidência.

chpeixoto@oi.com.br

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2 Comentários to “Sete narizes”

  1. Está aí um autor que sabe onde coloca o(s) nariz(es)…
    Alegoria rica de significados.
    O Arak, quando ler, se já não leu, primeiro vai virar uma pedra de gelo, e logo em seguida, como Arak que é, vai embraquecer feito um copo de leite de araque. Não podia ser diferente, tudo no Arak é de araque, ninguém acredita nele.
    Bravo, Heitor. Parabéns pelo conto/crônica e pelo humor sacro-eleitoral.

  2. saudações, Valente!

    Carlos

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