Psicologia aplicada à bananeira

PSICOLOGIA APLICADA À BANANEIRA

(do livro Contos da Refazenda)


“Quem acreditou ter entendido algo de mim, havia ajustado algo de mim à sua imagem”. Nietzsche

 

 

 

Freud criou o método da associação livre. O analista de Bagé inventou o joelhaço. JT Palhares, meu alterego, jamais publicou sua teoria psicanalítica da bananeira. Agora, em primeira mão!

Chavões. Modelos retóricos de mundo. Recortes da realidade. Estou farto de discursos que pretendam alcançar a totalidade por meio de escaramuças teóricas. Exausto. As perguntas que há milênios se fazem os filósofos, “o que é a realidade?”, “existe a realidade?” e “se a realidade existe, podemos apreendê-la por meio da autoconsciência?” – continuam as mesmas e sem solução.

Contudo, eu me pergunto: será que conseguiríamos viver neste mundo, senão por meio de símbolos, sonhos ou fantasias?

Debaixo de minha morada corre um rio de lava vulcânica; de noite eu mergulho em sua torrente. Durante o dia, no escritório onde trabalho, meus olhos quarando em frente ao computador, aguardo a notícia redentora: “O fim do mundo acabou”.

Prezados habitantes de minha fauna e flora interior, meus queridos genes, memes, caspas e bactérias, venho sendo manipulado desde antes de meu nascimento. Estudos biológicos comprovam que o sexo do bebê se define por volta da sexta semana de gestação. Nesse intervalo, da fecundação até a sexta semana (alea ejaculata est), a sorte do bípede estará sendo lançada na Assembleia Genética da Espécie Humana, o fórum responsável pela formação de órgãos e tecidos. Nesse estágio da célula ovo, pelo SIM ou pelo NÃO, serão seis semanas de indefinição, de bilhões de uniões, reuniões e divisões por segundo, trilhões de arranjos, manipulações genéticas, cruciais pra decidir se vai dar sino ou badalo. E não há quem nos defenda nesse momento crítico de nossa pré-existência anatômica. Nenhum Sindicato ou Associação de Classe. Onde estava o movimento das donas de casa?

Muito antes de me esconder atrás da bananeira, quando ainda boiava no vácuo de minha inexistência, eu não sabia se nasceria homem ou macaco. O Ser é, o não-ser não é. Naquele estágio, eu poderia divergir até de mim mesmo. Eu sequer sabia se iria inaugurar minha própria existência como “ser”, sendo ou deixando de ser. Se estou falando tanto EU é por que tem motivo, logo abaixo eu explico.

A Assembléia Ordinária das Espécies, nesse ponto da linha evolutiva, perigosamente brincava o jogo de dados no tapete da evolução: por uma diferença genética de 1,4% o animal, no caso eu mesmo, poderia ter nascido macaco. Hoje talvez eu fosse um chimpanzé e trabalhasse num circo decadente, onde o palhaço também faz o papel de homem-bala

Está provado cientificamente: se pegarmos o mapa genético do homem e o sobrepormos à cadeia de DNA do chimpanzé, as diferenças encontradas na espiral genética serão apenas quatro risquinhos. Os cientistas ainda não desvendaram esse mistério.

O que faz um homem nascer homem e um macaco nascer macaco? Por que os macacos, em alguns aspectos, são mais humanos do que nós homens? Por exemplo, no olfato, os símios sentem o cheiro da fêmea a quilômetros – essa é uma das diferenças cruciais entre o genoma humano e o do macaco, a sequência de DNA que nos habilita a sentir cheiros. Suspeita-se que o gene do olfato exerça outras funções, daí a enorme diferenciação entre as duas espécies.

Ainda no ventre da mãe, o sujeito será manipulado por variáveis sociais e econômicas, previsão do tempo, local, posição da lua e da cópula durante o ato sexual (acreditem, a espécie humana já pode copular sem intercurso sexual). Nas noites de chuva nascem mais meninos do que meninas. Por acaso, se você quisesse nascer mulher na China, a chance seria de 3 em cada 10 nascidos vivos (em decorrência da política do filho único, em dez anos foram praticados 260 milhões de abortos na China, as principais vítimas eram fetos do sexo feminino); na China existem quarenta milhões de homens na mão, frutos da manipulação econômica e cultural da Ditadura do Partido Único, sem chances de agarrar uma fêmea, verdadeiro exército de reserva para a próxima guerra; a posição cachorrinho é a mais recomendada para gerar meninas; na lua cheia dá menino; ou será menina?

Depois de vencida a difícil etapa no ventre materno, com o elemento humano devidamente nascido, aleitado e caminhando em duas patas, seja o pirralho menino ou menina, prossegue a manipulação, agora de forma mais acintosa. Propaganda, padres, governantes, passeatas gay, cinema, televisão e o colega que não nos aceita do jeito que somos, e tome jornais, correio eletrônico, nutricionistas e outros especialistas – todos interessados em se apropriar de nossos corpos, dos pés à cabeça. Uma dimensão existencial é pouco para filtrar tantas influências.

Nesse meio tempo, a Assembleia Ordinária dos Analistas terá que decidir se adota a Teoria da Evolução ou o Livro do Gênesis. Vocês conhecem a estória, Adão e Eva, a cobra e a maçã, Adão comeu a maçã e cuspiu o caroço no ventre de Eva. Na outra ponta, mancando por fora, um velhinho de barba branca e usando bengala, chamado Darwin. Mais uma série de reuniões profundas, defesas incansáveis, teses, debates, queima de livros sagrados e acordos secretos até que a questão termina empatada. Quem tem razão, George Bush, Bin Laden ou a Igreja? Ou será que o macaco está certo?

Naquele dia acordei outro. Olhei-me no espelho.  Lá estava Eu. Será que aquela cara no espelho era minha mesmo? Quem sou Eu? Eu sou Eu e minhas circunstâncias. E se Eu discordasse de mim mesmo? Sou anticartesiano: existo e sinto, logo penso, portanto nada chega ao intelecto sem antes passar pelos sentidos. E se aquele a quem observo agora no espelho fosse outro e não “eu” quem olha pra mim de dentro do espelho? E se Eu passasse a combater minhas ideias utilizando meus próprios argumentos ao contrário? Será que Eu ficaria maluco?

Virei de costas, pulei de frente e gritei “há-há!”, a imagem fez o mesmo, só não falou “há-há”. Pisquei duas vezes. Que alívio! – o outro piscou pra mim também. Cheguei à conclusão, naquela horripilante manhã, que aparentemente o outro era eu mesmo quem piscava e saltitava feito um macaco em frente ao espelho.

Voltando ao Sindicato dos Analistas. Era o dia seguinte à Assembleia Ordinária do Sindicato dos Analistas. Atenção, arqueiros! Foram três dias de reuniões e debates, ininterruptos, no limite do esgotamento físico e mental dos participantes. Eu disse três dias, ininterruptos. Depois eu explico como se operava a coisa – 72 horas de Assembleia, é de deixar qualquer um de miolo mole -, entretanto o que eu quero lhes contar é como se davam os debates, como a forma aprimorava o conteúdo da massa de tomate. A única coisa que posso lhes adiantar é que num raio de dez quilômetros (onde ficava o zoológico mais próximo) não se via nenhum macaco.

Foi a Assembleia mais Ordinária e democrática da qual participei. Nada de manipulação. Os debates eram acirrados, e antes de iniciados os apartes, questões de ordem, réplicas e tréplicas, ainda nos preparativos, tudo, tudo que se referisse ao futuro da espécie era esmiuçado, com transmissão simultânea em cinco dimensões.

Esqueça Freud e os mistérios da mente humana. O homem é um ser minúsculo, dono de um ego enorme, ego que cresce continuamente entre o fogo e o fermento. Anota aí: todos nós, humanos, possuímos cinco EUS. O que temos a fazer é colocar os cinco pra debater:

1 – O EU, propriamente dito: é a nossa casca, com a qual nos apresentamos no teatro da existência. Nesse tipo de Eu o objetivo do sujeito é que os outros o vejam como ele se mostra.

2 – O OUTRO-EU: é o sujeito oculto, português cascudo, aquele que se esconde atrás da bananeira, pronto para dar o bote, assustando os amigos e matando o Eu de vergonha, em algumas ocasiões; em outras, as peças pregadas pelo Outro-Eu podem terminar em piada, sucesso, acasalamento ou assassinato. Mas tudo passa.

3 – O EU-DO-OUTRO-EU: Por trás do OUTRO-EU tem um Outro-Eu. Esse terceiro elemento é o amigo conivente, o partícipe, o mano que fica à espreita, estimulando o Outro Eu a pregar uma peça no primeiro Eu. “Vai lá, vai lá!”; – é comum esse Eu do Outro Eu desestimular o Outro Eu com aquela velha advertência: “Tome cuidado com o que você vai fazer!”, ou, “Se for pecar, aproveite!”.

4 – O OUTRO-EU-DO-EU-DO-OUTRO: É a quarta dimensão do Eu, a que fica mais próxima ao macaco, trepando na bananeira, com uma particularidade: os outros três EUS, mais o tronco da bananeira, nem desconfiam que esse quarto elemento esteja por perto. O Outro-Eu-Do-Eu-Do-Outro conhece os planos, sabe quem vai ser a vítima dos outros dois Eus, mas fica à espreita, na moita. Se o plano der certo, os outros três Eus sairão bem na fita, parabenizando o quarto elemento do Eu: “Você foi demais!”. Em caso de sucesso da operação, o quarto Eu fica na dele e não se revela, esperando tirar proveito do evento; mas se algo der errado, será o fim da picada!, e quem pagará o pato será o quarto elemento – é por isso que esse cara sempre fica próximo à cena do crime, escamoteado, para ver qual atitude deverá tomar para manter a integridade psicológica do indivíduo.

5 – Por último, para impedir que ocorra empate entre as quatro categorias tomísticas, entra em ação o ponto de amálgama de todas as contradições que se chocam no liquidificador do “ser”, categoria cuja finalidade precípua é garantir a preservação da espécie sem que os outros quatro fiquem sabendo, a responsável por bater o martelo para que a vida siga em frente, também conhecida como ESPÍRITO-DO-EU-ENGARRAFADO.

Até aqui tudo bem? Ou carece de repassarmos alguns pontos?

Carlos H. Peixoto

chpeixoto@oi.com.br

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