Jovens múmias

Jovens múmias

(do livro A Volta da Mulher Barbuda)

 

Capa da Revista Cochicho, setembro de 2048:

“Ana Maria Pregas, com tudo em cima aos 103.”

A foto foi tirada em frente à praia de Ipanema. Montada em dois seios que nunca foram seus, sorriso de bisturi, Pregas traz a tiracolo um garotão sarado de vinte e oito.

Brasil: um país de idosos. Em fins da década de 60 do século passado, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes, cerca de 35 milhões dos quais eram jovens, na faixa de 15 a 24 anos. Em 2050, o Brasil baterá a marca dos 220 milhões de bípedes, sendo que 50 milhões deles terão mais de 65 anos, com metade da população adulta na casa dos quarenta anos de idade.

Em meados dos anos 1970, Nelson Rodrigues escrevia sua coluna diária no jornal O Globo, falando de tudo e de todos, gozando a cara da direita e da esquerda. Para não ser confundido com “o jovem”, o Anjo Pornográfico batia no peito e gritava:

— Eu sou uma múmia do tempo da escarradeira na sala.

Mas, afinal, quem era o jovem da década de 1960? E por que a nossa flor de obsessão detestava tanto o culto ao “jovem”?

Para Nelson, o jovem não existia; o jovem era um rosto na multidão, um pulha capaz de atirar a filha de oito anos pela janela do apartamento. O jovem foi inventado pelos padres de passeata; comunista de fachada, o jovem sonhava com a Revolução entornando baldes de chope no Antonio’s.

Discordâncias ideológicas à parte, ao menos nos idos de 1960/70 a música que fazia a cabeça dos jovens era bem melhor do que as que tocam nas rádios de hoje.

Em algumas de suas crônicas, Nelson Rodrigues retratou com espantosa atualidade o que seria a Ditadura Jovem. As campanhas publicitárias estão aí, para confirmar a tese do Anjo Pornográfico.

Os jovens não sabem de nada, tá ligado? Mas quem domina o Mercado de Consumo? Para quem são lançadas as novas tecnologias de comunicação? As drogas mais pesadas? As baladas mais quentes? As calças de bunda baixa? Quem passa mais tempo na internet? Quem manda e desmanda nos país, nos professores e até nos meteorologistas? Para quem são compostas e cantadas, até arrebentar o nosso saco, graças ao jabá que abastece as emissoras de rádio e televisão, as piores músicas da atualidade?

Em certo trecho do livro O óbvio ululante, na crônica “O jovem monstro”, Nelson Rodrigues profetizou:

Sim, todo mundo quer ser ‘jovem’. Não importam os méritos, os feitos, as virtudes, os pecados de ninguém. Só importa ser ou não ser jovem. E os que, por indesculpável azar, envelheceram, procuram uma espécie de rejuvenescimento no convívio das Novas Gerações.”

As múmias se divertem. De volta ao século XXI, um domingo qualquer do ano de 2048. Abro o jornal e quem eu vejo? A cara branca, olheiras profundas, a testa invadindo a nuca. Quem? Seria o Vampiro de Dusseldorf? Não. Diz a manchete do Jornal Falha de São Paulo: “Tucano José volta a governar o Estado pela oitava vez”.

Paciência. Algumas coisas evoluem, outras não mudam nunca. Até meados do século vinte, as múmias eram reconhecidas pela aparência externa: pele seca e quebradiça, unhas grossas, nariz grande, orelhas cabeludas, olhos embaciados, cabelo ralo e seco, cicatrizes, rugas, bandagens, bengalas. Ah, e o cheiro inconfundível de formol e naftalina.

Agora, a coisa se complicou. Não se sabe mais quem é jovem ou quem é velho. Os garotões da Terceira Onda curtem as mesmas músicas, usam as mesmas roupas dos adolescentes. Os velhinhos não se dão ao respeito, azaram as meninas, de preferência as mais novas e gostosinhas, adoram Shopping Centers, frequentam baladas e falam a mesma língua da garotada. Mas isso não é pra qualquer um. Custa uma fortuna manter-se jovem: é muita plástica, reposição hormonal, Botox, silicone. E para dormir, em lugar de formol, as múmias do Século XXI usam duas gotinhas de Chanel Número 5.

Velho babão, velhaco, velha fútil, velha gostosa! E sobre os velhos de hoje, o que teria a nos dizer o impagável Nelson Rodrigues? O mesmo que ele disse para os jovens nos idos da década de 1960:

— Ou o sujeito prova que tem mais de sessenta e cinco anos ou não entra em minha casa. Por que deveríamos acreditar em uma certidão de nascimento? Só por que o documento foi emitido no século passado?

Se estivesse vivo, o Anjo Pornográfico escreveria uma crônica sobre a mania tola que tem levado as pessoas a esconder por debaixo da pele a verdadeira identidade, querendo ser jovens para sempre. Nelson não entenderia patavina ao ver meninos e meninas, de oito aos vinte anos, tratando-se mutuamente por veio. É veio pra cá, veio pra lá.

Perigo. O cenário do jogo demográfico está mudando. Breve, na cidade onde você mora, os mais velhos é que vão dar as cartas, e as mulheres serão maioria entre a população da Terceira Idade. Em 2050, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, para cada grupo de 100 brasileiras com mais de 80 anos haverá 61 velhinhos do sexo masculino na mesma faixa etária: muitos machos idosos vão ficar na mão, literalmente.

Na segunda década do Século XXI, enquanto os garotões morrem feito moscas, a galera da terceira Idade vive mais, e cada vez melhor.

Em descarada concorrência desleal com os mais jovens, a patota da Terceira Idade enfrenta qualquer parada. Depois dos sessenta, os velhinhos aprendem nova profissão, ajudando a reduzir o Custo Brasil. Os patrões dão preferência a eles, já que vovôs e vovós não são obrigados a recolher o INSS, não exigem vale-transporte, aceitam trabalhar sem carteira assinada e não esquentam a cabeça ao receber no final do mês um salário mínimo.

Os idosos fazem qualquer coisa pra não envelhecer. Eu disse qualquer coisa. Sem medo de passar vexame, os ativos idosos voltam aos bancos de escola, frequentam seminários, leem pra caramba, navegam na internet, qualificam-se, roubando assim o primeiro emprego dos garotões bobos de vinte anos. Com grana no bolso, tendo em vista a renda salarial em dobro (um salário da Previdência, outro ganho na iniciativa privada), e experiência afetiva na bagagem, adquirida em anos de estrada, os velhinhos roubam também as namoradas dos pirralhos.

Somos tão velhos, não temos tempo a perder. Não lhes peçam paciência. Depois de aposentados, os idosos da Terceira Hora não conseguem ficar sentados nos bancos da praça, com a boca escancarada exibindo o mais novo aparelho ortodôntico, esperando a morte chegar.

A galera da Terceira Idade é prestativa, está sempre disposta a melhorar o mundo. Também pudera, os velhinhos gozam de uma série de benefícios: transporte gratuito nos ônibus municipais, passagens de graça em viagens interestaduais, atendimento preferencial, Caixa Exclusivo para pagamento de contas, vagas privativas nos estacionamentos públicos, vacinação periódica, academias e professores de ginástica bancados pela Prefeitura.

Preocupados com a aparência, os jovens da Terceira Idade experimentam de tudo: nadam, voam de balão, pulam de paraquedas, andam de skate, saltam de asa-delta, pedalam, engraxam sapatos, carregam compras, brincam de pique esconde com os netinhos, ufa! E de noite os velhinhos ainda transam!

A onda da moda é não envelhecer, de preferência não morrer, ficar por aí esquentando o planeta, respirando oxigênio poluído. Quem desperdiçaria a chance de ser entrevistado pelo Globo Repórter como o velhinho mais sarado do planeta?

Mas, para manter-se jovem depois dos sessenta é preciso pagar a conta. O homem maduro, quando tropeça, cai e quebra logo a bacia, ou fica paralítico, sendo obrigado a gastar os tubos com medicamentos. Perder a mobilidade é uma tragédia. Morrer não faz parte do Plano de Saúde do pessoal da Terceira Idade. As jovens múmias só desejam a felicidade. Haja Viagra! Querem gozar a vida e tem que ser agora! JÁ!

Onde os velhos perderam a memória. Não importa a sua experiência, se você foi astronauta, engolidor de espadas, se surfou ondas gigantes na Austrália, ou se lutou contra a Ditadura Militar nas selvas do Araguaia. Ninguém quer perder tempo escutando histórias do Século XX: está tudo na internet.

No encalço da senilidade, o perigo é o Mal de Alzheimer. Quanto “mais pra frente” a galera da Terceira Idade, mais os idosos se esquecem do passado. Diz o Doutor Dráuzio Varela:

“Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pinto duro, mas que não se lembrarão para que servem.”

Mas se você, jovem múmia cheia da grana, por força do destino vier a falecer antes de atingir a marca de 140 anos, ainda existe a possibilidade de congelar o próprio cadáver. Tem uma ema empesa americana que presta este serviço. E, quando descobrirem a cura de sua morte, quem sabe daqui a cem anos, seu corpo jovem e conservado estará preparado para ser ressuscitado, e você poderá ser contratada para integrar o elenco de “Thriller”, com Michael Jackson cantando e dançando Ao Vivo!

Carlos H. Peixoto

A volta da mulher barbuda Só os radicais são livres

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