Homenagem ao amigo Hugo Mescolin Gaudereto

carlos-hugoCarlos H. Peixoto

Os franceses são considerados resmungões, xingam e reclamam por qualquer motivo. Recentemente, cem mil franceses saíram às ruas para protestar contra o casamento gay, uma bobagem, que em nada afeta a vida dos que desejam se relacionar com o sexo oposto. Nunca estive em Paris, não sei falar porra nenhuma em francês, mas li em sítio especializado que os franceses são mestres em pronunciar a palavra “merde”, com a classe que a língua lhes confere.

Merda pra você e pra mim! — desejam-se os atores antes de entrar em cena. Como saudação de boa sorte, votos de sucesso, diz a lenda urbana, o uso da palavra merda no meio teatral surgiu da quantidade do estrume deixado pelos cavalos que transportavam os espectadores até o teatro ambulante, montado na rua ou na praça. Quanto mais merda, mais público; quanto maior o público mais os atores se empenhavam. E quanto melhor a apresentação, mais a merda se acumulava. Merda virou sinônimo de glória. “Nem uma doce oração, nem sermão, nem comício à direita ou à esquerda fala mais ao coração do que a voz de um colega que sussurra “merda”, cantou Caetano Veloso na música “MERDA”.

Liberté, egalité, fraternité e foda-se! Para Millôr Fernandes, o nível de estresse de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de palavrões que ela fala. A entonação também é importante, e muito. “O sagrado direito ao foda-se!”, dizia Millôr, “deveria estar assegurado na Constituição Federal.” Depois de profundo e exaustivo debate, aprovada a emenda milloriana, o artigo primeiro da Constituição da República Federativa do Brasil estaria assim redigido:
Art. 1º: A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania (blá blá blá);
II – a cidadania (blá blá blá);
III – a dignidade da pessoa humana (blá blá blá);
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (blá blá blá);
V – o pluralismo político (blá blá blá).
Parágrafo Único – E O POVO QUE SE FODA! (em negrito e maiúsculas).

No rastro da grande cagada americana, Michael Lewis, no livro Bumerangue, disseca os intestinos da “bolha do subprime”, que estourou em setembro de 2008, lançando no ralo da quebradeira mundial alguns trilhões de dólares. No capítulo IV, ao investigar o comportamento financeiro da Alemanha, Lewis menciona um livro intitulado A vida é como um pau de galinheiro. Nesse livro, Alan Dundes, um antropólogo americano, investigou “o caráter alemão por meio das histórias que os alemães gostam de contar uns aos outros”. Curiosamente, Pau de galinheiro trata do folclore alemão, dos sentimentos mais profundos do povo, onde “encontra-se um número incomum de textos referentes a Scheisse (merda), Dreck (sujeira), Mist (estrume) e Arsch (cu)”.

Mas, o que o folclore alemão tem a ver com a crise de 2008?

Os alemães se viram atolados até o pescoço na merda do subprime. O Banco Central Europeu (BCE) possuía regras rígidas, que vedavam empréstimos que tivessem por garantia títulos podres (a não ser que as agências de classificação de risco americanas afirmassem o contrário a respeito da podridão dos títulos). Para permitir a entrada de alguns países, por exemplo, a Grécia (assessorada pelo Goldman Sachs), na Zona do Euro, os Bancos Centrais dos países europeus fizeram vista grossa aos balanços maquiados e aos indicadores furados apresentados pelos gregos. Acontece que a Alemanha, através do Bundesbank, era o maior credor das nações europeias endividadas… “Os bancos alemães emprestaram dinheiro a mutuários subprime americanos, a barões irlandeses do mercado imobiliário, a magnatas banqueiros islandeses… Os alemães adoravam estar perto da merda, mas não dentro dela. Esta, aliás, é uma excelente descrição do seu papel na atual crise financeira”, conclui Michael Lewis em Bumerangue.

Na pesquisa antropológica sobre o universo podre dos inventores do chucrute, do gás mostarda e do peido alemão, Dundes se depara com um personagem chamado der Dukatenscheisser (O Cagador de Ducados), sujeito que expelia moedas pelo traseiro, encontrando na literatura popular um número espantoso de ditados ligados à palavra “merda”. A expressão preferida de Hitler era Sheisskerl — ”sujeito de merda”. O escatológico Martinho Lutero, que teve a ideia para a Reforma Protestante sentado no vaso sanitário, escreveu: “Sou como bosta madura, e o mundo é um gigantesco ânus” (Bumerangue, Michael Lewis, pg. 141).

E por falar em religião, no último dia 10 de julho de 2013 desencarnou de seu corpo sofrido o espírito livre de meu amigo Hugo Mescolin Gaudereto, economista, descendente de alemães por parte de mãe, um mineiro de alma carioca. Conversar com o Hugo era um convite ao hilário, ocasião pra deixar de lado o cinismo matreiro do mineiro (amante da pátria, do pão de queijo com café quente, do sexo atrás da moita, da família e da tradição).

O Hugo tinha uma forma esparramada de dizer “merda”, coroada com uma risada espalhafatosa ao final do raciocínio, principalmente se o assunto fosse a Secretaria de Fazenda. Integrante da Eskuerra, debatedor do CIAT, profundo conhecedor da nova administração tributária brasileira, marcada pelo patrimonialismo voluntarista dos chefes (manda quem pode, obedece quem tem juízo), Hugo Mescolin, servidor público de pouco juízo, publicou vários artigos sérios, dentre eles “APUM – Administração Pública Gerencial Moderna“. Sentirei falta da amizade do Hugo. Nunca consegui falar “merda” de maneira tão despudorada quanto ele, sempre tive a sensação de que “alguém poderia estar me ouvindo”. Mas o Hugo já havia se libertado dos pruridos mineiros.

Numa tarde quente, quando o Hugo trabalhava em Ipatinga, alguns colegas resolveram esticar o expediente no boteco. Conversou-se sobre variados assuntos, porém como havia um colega ocupante de alto cargo comissionado, hoje instalado em cargo mais alto ainda, os aspones evitavam assuntos polêmicos. E o Hugão, tomando cachaça, fumando seu cigarrinho de palha e cuspindo no chão — como na música do Alceu Valença “Anjo de Fogo”. De saco cheio do papo furado, quando alguém na mesa encheu a bola do Programa de Educação Fiscal, endemoniado, o Hugo Mescolin fuzilou:
Educação Fiscal? Não passa de marketing do governo! Isso é uma MEEEEEERRRRRDA! — e fechou a frase com uma gargalhada. Daí pra frente o Hugo se soltou…
Em outros debates filosóficos, quando conversávamos sobre a Secretaria, o Hugo me interrompia:
— Carlos, Carlos, acorda Carlos, a Secretaria está uma MEEEERRRRDA!
Anticartesiano, eu só acreditava na merda se cheirasse a coisa:
— Não, Hugo, o problema não é a merda, a merda está sempre em transformação, o problema são as moscas que não largam a merda de jeito nenhum — e ríamos juntos.
Devagarinho, depois de gargalhadas, eu conseguia falar MEEEERRRDA sem pudor. A palavra, mantra, como um “abre-te-Sésamo”, destruía qualquer barreira que ameaçasse nos impedir a livre expressão do pensamento dialético. A propósito, o filósofo para quem tudo é devir, pai da dialética, o homem que cunhou a frase “ninguém consegue entrar duas vezes no mesmo rio”, Heráclito, mergulhou o corpo no estrume para se curar de uma enfermidade e morreu de infecção generalizada.

Tenho uma teoria sobre a morte, resgatando a cosmogonia grega:

“Tomemos a terra como umbigo do Universo, estamos cercados pelo desconhecido, em volta de nosso planeta tudo é escuridão, somos apenas um pontinho. Viver, nascer sobre a forma de corpo humano, reunindo poeira das estrelas, é morrer pra dentro. Morrer, deixar o corpo físico, é nascer pra fora, retornando ao útero pulsante do Universo.” Já dizia Carl Sagan: “Somos filhos das estrelas e irmãos das pedras.”

Segundo o demógrafo Carl Haub, especialista do Population Reference Bureau, um instituto americano de estatística, já passaram pela Terra cerca de 107 bilhões de humanos (Revista Galileu). Atualmente, 7% dos bípedes sob a forma de gente emporcalham o planeta, lançando sobre as próprias cabeças em 300 anos, a partir da Revolução Industrial, mais carbono do que o expelido por todos os vulcões que entraram em erupção nos últimos 50 mil anos. Como dizia Rita Lee, “tudo vira bosta”.

De uma coisa eu e o Hugo não podemos reclamar: a Secretaria sempre nos proporcionou grandes gargalhadas. Pena que a distância e a correria do mundo dos vivos não nos deixou tempo (tampouco condições de pressão e temperatura) para escrevermos tudo o que conversamos a respeito da Fazenda…

Saravá, Hugão!

chpeixoto@oi.com.br

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

Conheça sua obra:

A volta da mulher barbuda Só os radicais são livres

Leia trecho do último livro

Saiba mais sobre o livro

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: