A máquina de criar (in)diferença

Carlos H. Peixoto

O tédio é um direito sagrado das massas, a benção de uma vida previsível e conformista. Por abominar a criatividade, o inimigo número um do tédio é a vida “inteiramente livre e triunfante”, já dizia a canção do Belchior.

Para Jean Baudrillard, a massa só é massa porque sua energia social já se esfriou. As massas “idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa sequência espetacular. (…) a maioria silenciosa é despossuída até de sua indiferença, ela não tem nem mesmo o direito de que esta lhe seja reconhecida e imputada, é necessário que também esta apatia lhe seja insuflada pelo poder”.

Antes de se transformar em massa, os homens serviram de carne para canhão. O Estado ditava a religião e a religião sustentava o Estado. Escreveu Fustel de Coulanges em seu clássico “As Cidades”:

Nada havia no homem de independente. O seu corpo pertencia ao Estado e estava votado à sua defesa: em Roma o serviço militar era obrigatório até os quarenta e seis anos, e em Atenas e Esparta por toda a vida. (…) A vida privada não escapava a essa onipotência do Estado. Muitas cidades gregas proibiam o celibato do homem. (…) A tirania do Estado exercia-se até sobre as menores coisas; em Locres, a lei proibia aos homens beber vinho puro

Depois de 11 de setembro de 2001, dizem os especialistas, o mundo nunca mais será o mesmo. A partir daquele dia, aurora espetacular do novo Século, os direitos individuais cedem passo diante da marcha insana do medo e do terror. No Governo Bush, o Congresso Americano aprovou a criação de uma Super Agência de Segurança Interna, dando poderes aos Comandos Especiais e aos Serviços Secretos de extrapolar os limites do território americano, matando milhões de inocentes no Iraque, monitorando mensagens eletrônicas e comunicações telefônicas mundo afora, interrogando e prendendo suspeitos em locais clandestinos. Tecnologia para isso nunca lhes faltou. O FBI e a CIA operam dois sistemas de bisbilhotagem via satélite, denominados echellon e carnivore.

A Internet, outrora espaço de compartilhamento, rapidamente converte-se em instrumento de rastreamento e controle, segregando os usuários em guetos. Tendemos a frequentar sempre as mesmas páginas, de preferência as que confirmem nossos “preconceitos”.

Eli Parisier, em palestra postada no sítio TED, alerta para os filtros bolha na internet. As ferramentas de busca, como o Google e até mesmo o Facebook, fornecem resultados de acordo com hábitos de acesso do usuário. Algoritmos poderosos filtram o que consideram ser o desejado para nosso perfil. Desse modo, alerta Parisier, “à medida que as companhias se esforçam para adaptar seus serviços às nossas preferências, ficamos presos dentro de uma bolha de filtros, de forma que não somos expostos à informação que poderia desafiar ou alargar nossa visão global. Isto, definitivamente, é ruim para nós e para a democracia”.

Acreditem, duas buscas sobre o mesmo assunto no Google, realizadas em máquinas diferentes, gerará resultados diferentes. Ao pesquisar a palavra “Egito”, por exemplo, de acordo com o perfil do cliente, um deles poderá receber apenas links sobre viagens, e nada sobre as últimas revoltas na Praça Tahir. O segundo, por sua vez, terá como respostas prioritárias informações sobre a História e a situação social do Egito. É o que se chama “customização” da internet. Ou seja: não basta criar um sítio, é preciso conhecer e manter cativos os clientes – só assim as empresas podem vender espaços para publicidade, e sem perceber o usuário estará comprando o que a Máquina está disposta a lhe empurrar.

Se antes o Estado controlava o súdito pela opressão, hoje o Estado-Mercado administra os impulsos dos indivíduos por meio da (in)diferença. Depois de conquistado o direito à individualidade, a partir das Revoluções Burguesas, de cidadão o súdito transformou-se em reles consumidor – um número de IP, uma senha, um número de cartão de crédito, assinatura digital, sequências de bytes armazenados no Sistema.

Da individualidade ao individualismo, à fragmentação e ao isolamento. O celular da moda não o salvará. Aonde você for, venha de onde vier, a indiferença será sua companheira, todos os seus passos estão sendo rastreados. Um código de acesso definirá o seu perfil. O site que você frequentar o delatará, e ao digitar palavras impróprias, sua mensagem estará sendo monitorada.

As vítimas do Terror, coincidentemente, são os mesmos clientes do Mercado. O Terrorismo visa seus inimigos de forma indireta, elegendo – diretamente – como alvo a população civil, pela indiferenciação e massificação do indivíduo – os mesmos métodos utilizados pelos Mercadores do Consumo.

Sejamos razoáveis, peçamos o impossível, dizia a moçada em maio de 1968. E armaram-se nas ruas as barricadas do desejo.

O sonho acabou. A imaginação jamais governará o mundo. A ação política, em vista do partidarismo, é desqualificada de antemão. Nenhuma Força é suficiente para demover a massa de seu imobilismo espetacular. Vote consciente, diz a propaganda. Contudo, a maneira como devemos participar já está formatada. A política tornou-se irrelevante, os candidatos são sempre os mesmos, suas ideias nos soam como anúncio de alvejante. O voto é utilizado para validar o Sistema, não para transformá-lo.

Nos eventos sociais, contente-se em fazer número. A opinião geral: “fiz a minha parte” “foi legal”, “valeu!”. E no domingo, devidamente participativo, assista ao seu programa favorito, antes de retomar a produção do mundo na segunda-feira. Replique milhões de mensagens eletrônicas. Prisioneiro da teia global, quanto maior o número de “amigos”, mais irrelevante se tornará sua mensagem, apenas uma entre bilhões.

A Terra está esquentando. A Grande Barreira de Corais da Austrália está morrendo. O gelo dos polos está derretendo. Crise: sinônimo de oportunidade – finalmente o Mercado terá uma chance real e factível de vender geladeiras para os esquimós. Cuide bem de seus cabelos – você precisará deles quando a radiação aumentar. Divirta-se. Viaje. Passe uns tempos em Nova York, mas fuja de Los Angeles antes do grande terremoto. Conheça o mundo para poder contar aos amigos. Faça filmes, tire milhões de fotos para provar que você existiu.

E então a massa fez-se Público. As manchetes se repetem. Você viu o vídeo da Luana? Ninguém se empolga por mais de quinze minutos. Amanhã, o barato será outro. Enfim, um novo e espetacular escândalo. Basta um vacilo para que em quinze segundos sua imagem corra o mundo pela internet.

A realidade é o que se passa nas telas da tevê, do computador ou do celular. O meio se alimenta do meio, não importa a mensagem. O acontecimento espetacular, a tragédia transmitida e retransmitida até o esgotamento da comoção, como um buraco negro, suga todas as possibilidades do real circundante, até que atinja o ápice de nossa apatia. Anônimos, por trás do simulacro eletrônico, nada é capaz de nos acordar desse transe hipnótico. Somos prisioneiros da hiper-realidade da qual nos fala Jean Baudrillard.

Para longe de nossas casas, o lixo industrial, a corrupção no Congresso Nacional, a fome na África, guerras, as Revoltas no Mundo Árabe, tempestades, ondas gigantes e assassinatos. A notícia é a nossa Dose Diária de Loucura – acalma-nos o desespero. Dentro de casa nos sentimos seguros, livres para transformar o mundo mudando o canal da televisão. Dentro do quarto, os atores principais não podem vê-lo, eles sequer desconfiam de sua presença – você é apenas um número no índice de audiência.

Por fim, quando tudo nos parecer sem graça e entediante, eis que surgirá uma nova corrente na internet, um novo grupo de discussão, um vídeo ou uma música compartilhada aos milhões. Se você quiser participar é só entrar na máquina, fingir que acredita e repassar essa mensagem para todos de sua lista.

chpeixoto@oi.com.br

Nota: publicado originalmente no sítio da REFAZENDA2010 em 02/12/2002, com revisão crítica e acréscimos feitos pelo autor em março de 2012.

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

One Comment to “A máquina de criar (in)diferença”

  1. dor,indiferença,corrupção,fumacinha preta, nojo,mentiras,vazio,poder, grana,enganos,escolhas erradas,……..

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