A máfia da calcinha cor de rosa – Parte 1

carlospeixotomCarlos H. Peixoto

Sagitário: “segredos de si para si, não há como guardá-los por muito tempo. Você se conta histórias, enrola-se na trama; como será o desenlace? Fique ligado, sagitariano, não perca o fio, caso contrário não se livrará do novelo que você mesmo criou. Liberdade de pensamento e liberdade de movimentos? As asas, você é quem se dá!” (Horóscopo do dia 11 de agosto)

Se você se gripar, tributarei seu espirro. Não me interessa seu nome ou posição, sou o cara dos impostos.

Enquanto os políticos nos rotulam de parasitas, eu me ocupava de manter a Lei e a Ordem tributária neste país de comédia. Não acredito em gnomos, muito menos na Justiça Fiscal, não perco um show de Roberto Carlos, mas alguém tem que raspar a merda de cachorro agarrada na sola do sapato e transformar essa merda em grana.

Poucas pessoas entendem quase nada sobre crime tributário e seus criminosos. A maioria dos roteiros de fiscalização, artigos e tratados sobre o tema, não passa de conversa fiada — vaidade de gente querendo aparecer. Os impostos, e o ofício de ter que lembrar alguém de pagar impostos, são dois assuntos chatos: com esse papo você não come ninguém.

Movido por estranha obsessão, eu queria ver com meus olhos, cheirar com minhas narinas e meter os pés e as mãos nos esquemas, tramoias e meandros que levavam executivos, traficantes, trabalhadores, gente comum, a fazer o diabo para escapar das garras do Erário. O mundo da picaretagem não me assustava. A bem da verdade, eu admirava os pilantras, queria estar bem próximo deles.

Raramente, ao começar uma investigação, eu tinha certeza do que estava procurando, até encontrar algum indício de falcatruas. O lance era manter a mente aberta, enquanto minha barriga pressionava a pélvis. Porém, quando o indício dependia de confirmação, como realização de diligências, era normal que esbarrasse na burocracia interna, no maldito sistema.

Para sobreviver em meu ofício sem enlouquecer, eu tinha duas opções: deveria tornar-me apático ou cínico, fechar os olhos a toda roubalheira, enquanto fingia cumprir minhas obrigações, fiel ao planejamento estratégico, ou ficar alerta e fugir das armadilhas do Sistema, lutando contra tudo e contra todos? Todos sendo os políticos, promotores que se julgam Deus, juízes que têm certeza, chefes incompetentes e criminosos de colarinho branco.

Eram 18h15 de uma agonizante segunda-feira. Dona Ivete, minha assistente, já havia ido embora. Fazia calor. Desliguei o ar condicionado, abri a janela. O tédio morno escoava do edifício fazendário para a rua, àquela hora apinhada de gente, tingindo automóveis, pessoas, ônibus, cachorro urinando no poste da esquina, buzinas, sorriso cansado da moça da banca de revistas, aposentados jogando damas com a dama da morte — o mundo, lentamente, envolto em bruma cinza ao cair da tarde. Eu precisava de um trago.

Separado há sete meses, alugara um apartamento de dois quartos no centro, próximo ao trampo. Fechei a sala, decidido a dar um tempo na Adega do Alemão. Sete chopes depois, me sentia liberto da couraça de funcionário público que me atormentava a alma: vinte e cinco anos de serviço público, a eterna luta contra a barriga, muitas pedras removidas, e nenhuma Máfia desbaratada.

Chegaria eu ao fim da linha sem realizar sequer um ato digno de nota?

Continua…

chpeixoto@oi.com.br

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