A herança maldita do aposentado – Parte I

Carlos H. Peixoto

Adaptado do conto de E.T.A Hoffmann, “A mulher vampiro”

Arcádio acordou cansado naquela manhã. Na noite do dia anterior havia regressado de uma longa viagem: fora tomar posse da herança do pai, que falecera aos noventa e dois anos. O patrimônio que lhe coube se constituía de um sítio de doze alqueires, onde o pai passara os últimos vinte anos. Junto com o sítio, Arcádio recebera também o encargo de criar um franguinho de pescoço pelado, galináceo de estimação do finado e enrugado pai, franguinho do qual deveria cuidar como se cuidasse de um filho.

Depois de trinta e cinco anos de serviços prestados ao Governo do Estado, onde muito se chateara preenchendo relatórios inúteis e obrigado a conviver com toda sorte de maledicências, Arcádio aceitou de bom grado a herança, decidido a se enfurnar na roça. A esposa falecera há oito anos. Os dois filhos, ainda que casados, sugavam-lhe metade dos proventos. No final do mês, pouco lhe sobrava, mas o salário de aposentado, conquanto houvesse diminuído depois da Terceira Reforma da Previdência, ainda dava para alimentar mais um bico.

E assim o aposentado levava sua vidinha pacata, indo de quando em vez do sítio à cidade montado em seu fusquinha 68. Zeloso da memória do pai, no banco do carona trazia sempre por companheiro o pintinho de pescoço pelado. A bem da verdade, desde que se aposentara, nunca mais lhe passara pela cabeça ir tomar sabença — como lhe apoquentava um colega, também aposentado da mesma lavra — de a quantas andavam as lutas travadas pelos servidores públicos na capital, de onde só lhe chegavam as piores notícias: ladroagens, quebra de direitos, congelamento dos salários e outras desgraças propícias a lhe corroer o justo rendimento da aposentadoria.

Numa manhã cinzenta e fria, enquanto tomava uma caneca de café debruçado na janela da cozinha, Arcádio observava o franguinho, que docilmente bicava uma minhoquinha. O pintinho mais parecia brincar do que disposto a devorar o bichinho que comia barro. Nesse momento, distraído com as peripécias da avezinha, ouviu alguém lhe gritar que chegava pela porteira um parente por parte de pai. Ao ouvir o nome do tio, Arcádio recordou-se de que seu finado progenitor a ele se referia sempre com a mais profunda irritação, dizendo que o irmão era uma raposa traiçoeira, um folgado, que não valia o angu que comia.

O tio Firmino, verdadeira múmia conservada em formol, chegava pelo terreiro trajando um terno preto, de maleta na mão e sapato lustrado. Instantaneamente, a figura do parente, que deveria ter cerca de 70 anos, produziu em Arcádio uma repugnância impossível de se descrever aos leitores.

O velho tio lastimou que o finado irmão, contra ele possuído das mais cavernosas prevenções, inspiradas maldosamente por inimigos, o tivesse odiado de maneira tão implacável. Apesar das dificuldades por que passara, chegando quase a padecer de fome, o pai de Arcádio nunca o socorrera nem com um mísero pedaço de pão. Ia agora refugiar-se no interior, tendo acabado de receber uma boa comissão pela venda de planos de previdência privada. De passagem por aquelas bandas, Firmino não pudera resistir ao desejo de ver o filho do irmão, a cujo ódio irreconciliável sempre correspondera com profunda estima e consideração.

Estas palavras, pronunciadas com o acento tocante da sinceridade, conseguiram comover Arcádio, para o que extraordinariamente contribuiu a presença da encantadora figura que acompanhava o horripilante tio. Notando, finalmente, a boca aberta do sobrinho, da qual escorria um filete de baba, Firmino pediu escusas pela desfeita e apresentou-lhe sua filha Fredegunda.

Com o rosto afogueado, e gaguejando como um rapagão de dezessete anos, hipnotizado pela beleza da mocinha de ancas salientes (dezoito aninhos, olhinhos pretos amendoados, cabelos negros como as penas do anum preto, a pele branca e leitosa como a flor do copo de leite, belos e arredondados seios, as auréolas quase a furar o corpete do vestido), Arcádio desfez-se em mesuras, suplicando ao tio que lhe permitisse reparar os agravos cometidos pelo finado pai, devidos certamente à maledicência dos vizinhos, oferecendo-lhes hospitalidade no sítio.

Passaram-se duas semanas. O inativo, estimulado pela inércia do tio, sempre que a ocasião lhe era propícia tomava a mãozinha da prima, cobrindo-a de beijos. Chegara à terceira idade, mas só agora experimentava, pela primeira vez, uma paixão arrebatadora, tornando-se-lhe impossível dissimular o que sentia, ainda mais que era impulsionado pela simpatia com que Fredegunda lhe correspondia.

Foi assim que a vida de Arcádio mudou da água para o vinho. Sentia-se ativo, fazia planos, voltara até a cantarolar as músicas de Nelson Gonçalves. Um dia, cansado de namorar debaixo do pé de goiaba, criou coragem e pediu Fredegunda em casamento. No dia seguinte, obtida a aprovação do tio, a mocinha respondeu-lhe que aceitava, com uma condição.

— Pode pedir, meu docinho de coco — falou, beijando mais uma vez a casta mãozinha da prima.
— Quero que você faça um plano de aposentadoria complementar.
— Minha flor, eu já sou aposentado!

Mais surpreso ficou o inativo, quando a prima, demonstrando profundo conhecimento acerca das vantagens extras da previdência privada — como ver-se livre da contribuição compulsória, e ainda a possibilidade de triplicar seus ganhos no mercado de ações —, explicou-lhe que o Governo oferecia um bônus vantajoso para o servidor público que trocasse a velha aposentadoria pela Nova Previdência Complementar.

Não por acaso, no mesmo dia em que Arcádio se decidira pelas bodas, apareceu por lá o chato do amigo que vivia a lhe cobrar participação nos atos da combalida Associação dos vagabundos com salário (como lhes chamara o ex-presidente FHC). Conversa vai, conversa vem, o amigo, assim que a noiva do aposentado entrou na sala trazendo a bandeja com o café, lançou os olhos no petisco que atendia pela graça de Fredegunda, adiantando-se, solícito: “Muito prazer”. Depois que ela saiu, o outro, em tom de alerta, prenunciou que aquele matrimônio seria a sua ruína (de Arcádio). O aposentado, desconversando, despachou o amigo, alegando compromissos inadiáveis.

Apesar dos quinze tipos de remédio que tomava, no geral o inativo gozava de boa saúde, e mais gozos teria ao acrescentar ao seu estoque uma famosa receita. No afã de ir até a Pharmácia, distante umas 12 léguas do sítio, por meio de estrada de terra, Arcádio se esquecera por completo do encargo que lhe deixara o pai — o pinto de pescoço pelado, que há muito pastava pelos campos.

Na condição de Corretor Previdenciário, Firmino viajara até a capital para encaminhar a papelada, na qual Arcádio assinara a opção pela Previdência Complementar. Feita a opção pelo Novo Regime de Aposentadoria, Arcádio esperava receber, com 50% de bônus, quinze anos de salários adiantados, calculados de acordo com a expectativa de vida do beneficiário. Implementada a nova opção, o Governo se obrigava a lhe pagar, mensalmente, o teto do Instituto Nacional da Seguridade Social.

Um acontecimento funesto retardaria, porém, o cumprimento dos desejos de Arcádio. Na manhã do dia da boda, dia combinado para o retorno de Firmino, o aposentado acabava de se levantar e pusera-se à janela, pensando com embriaguez na felicidade que o aguardava, quando se perguntou: O que será aquilo? Aprumou as vistas e divisou, no alto do morro, um ajuntamento de gente. Calçou as botinas e dirigiu-se ao local, na intenção de saber o que se passava.

Que cena! Caído, dentro de uma sepultura aberta atrás da capela, em decúbito ventral, jazia o futuro sogro, com a boca cheia de terra. Do lado de fora da cova, organizados em formato de cruz, viam-se quatro velas, metade de um charuto, uma galinha preta, morta — o sangue espalhado ao redor da sepultura —, uma garrafa de pinga pela metade, e no centro da macumba um papel amarfanhado, preso por quatro pedras.

Arcádio recolheu o papel, reconhecendo sua assinatura. O documento estava carimbado e protocolado pelas Autoridades Previdenciárias. No rodapé, em um quadro hachurado de amarelo, um lembrete: “o optante pela nova previdência complementar só poderá movimentar o saldo do Fundo decorridos cinco anos da mudança de Regime”.

Metendo o documento no bolso, o aposentado afastou o povaréu e ordenou que retirassem o corpo do tio de dentro da sepultura, para lhe dar um enterro digno.

continua…

chpeixoto@oi.com.br

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

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