A herança maldita do aposentado – Parte 2 – O casamento

Carlos H. Peixoto

Adaptado do conto de E.T.A. Hoffmann, “A mulher vampiro”

Fredegunda não verteu uma única lágrima pelo falecimento do pai. Arcádio também não. Aliás, ele não chorava desde a morte de seu cachorro Tião, picado por uma cobra surucucu, quando os dois amigos participavam de uma caçada no Vale do Ribeira.

No dia seguinte à missa de sétimo dia, temeroso de perder a oportunidade, o aposentado observou que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar as núpcias. Ao ouvi-lo, Fredegunda deitou-lhe os braços ao pescoço, e, derramando copiosas lágrimas, exclamou:

— Sim, meu amor, o casamento será a minha salvação!

Em uma cerimônia simples, trocaram alianças na igrejinha da vila. Pra evitar falação, não fizeram festa.

A lua de mel, passada no Pesque e Pague do Juca, foi um fiasco. Durante o dia o inativo ficou dando banho em minhoca, e quando chegou a noite, quarenta e cinco minutos antes do momento glorioso, Arcádio deu início ao ritual de elevação peniana.

Ansioso, depositou a dentadura no copo em cima da pia e engoliu, de uma só vez, duas cápsulas da pílula milagrosa. Olhou-se no espelho, com uma pinça arrancou vários pelos das narinas, outros das enormes orelhas. Abrindo a boca banguela, escovou as gengivas, depois a língua, cuspindo uma gosma amarelada — efeito dos remédios que tomava. Bochechou com Anapion e bafejou no espelho. O hálito melhorara.

Abriu o chuveiro na água fria e banhou-se, cantando “Boemia”, de Nelson Gonçalves. Enquanto se esfregava com a bucha de rama, notou que a pílula começava a surtir efeito: depois de dez anos de secura, ele ainda estava vivo. Parou de cantar, esforçando-se por raspar a sola dos pés, encardida pelo uso de botinas pulverizadas com polvilho antisséptico Granado. Desligou o chuveiro. No silêncio do chalé, ouvia-se apenas o coaxar dos sapos. O inativo estaria ouvindo demais? Ou seria alucinação auditiva? Parecia-lhe que o martelar dos batráquios ficava cada vez mais forte e próximo, como se uma orquestra de sapos estivesse prestes a invadir o quarto do casal.

Recolocou a dentadura na boca, vestiu a cueca samba-canção e saiu. Ao adentrar a câmara nupcial, as artérias latejantes do ancião congelaram-se diante da fantástica visão. A esposa, nua, o corpo leitoso, de olhos bem vendados, mãos amarradas na cabeceira, esfregava as pernas, lânguida: “Venha, meu querido.”

Foi então que ele ouviu um estalo seco, partindo não se sabe de onde. Ao voltar os olhos para o centro da cama, o aposentado viu surgir um sapo esverdeado, a boca imensa capaz de engolir um frango inteiro, inflado, olhos esbugalhados. Ato contínuo, a intanha pôs-se a mover a língua pra fora e pra dentro, bem em cima da virilha da esposa. E Fredegunda, gemendo, de olhos vendados, de nada se apercebia. Na certa, a virgem imaginava tratar-se dos carinhos do marido!

Eis que o enorme sapo, percebendo a presença do inativo, armou um bote e pulou pra cima dele. “Mamãe do Céu!” Apavorado, Arcádio só parou de correr quando se encontrou dentro da lagoa. Terminava assim a lua de mel do aposentado.

***

Na flor dos sessenta e oito janeiros, para satisfazer os caprichos de uma fêmea de dezoito anos não basta tomar droga contra a impotência.

Fredegunda, outrora tão carinhosa, foi mudando sensivelmente. Os olhos fundos e o rosto pálido pareciam indicar doença. Afastava-se de todos, e quando o marido a procurava, de noite, na cama, alegava sempre uma latejante dor de cabeça. Em vão, Arcádio se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Para poupá-la de preocupações desnecessárias, o aposentado deixara de lado o buraco em que se metera, ao assinar a opção pela Previdência Complementar. Desde o mês seguinte à assinatura do fatídico documento, tivera uma queda de sessenta por cento no salário, vendo-se obrigado a vender o apartamento que possuía na capital para arcar com as despesas domésticas, sem mencionar que os filhos ameaçavam interditá-lo, acusando-no de pródigo.

Um domingo, depois de voltarem da reza noturna, Fredegunda caiu em profundo abatimento, passando dois dias acamada. Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e o rosto se lhe cobria de palidez mortal. Arcádio andava pela casa, inquieto, varando a madrugada acordado. Havia no estado da esposa algo de inexplicável, ela não tomava o mínimo alimento, manifestava nojo por todas as iguarias, especialmente pela carne. Estranhamente, Fredegunda só aceitava milho cozido. Pouco falava; trancava-se no quarto ou buscava os recantos mais solitários do sítio.

Atormentado, o aposentado mandou chamar da capital uma celebridade médica. O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa e os desejos por estranhas comidas pareciam indicar que Dona Fredegunda estava grávida. Instintivamente, Arcádio encheu-se de orgulho, sem deixar de notar que depois de duas horas de consulta, a portas fechadas, Fredegunda lhe pareceu melhor, mais relaxada, o rosto corado.

Porém, dois dias depois a mulher caía novamente em profunda melancolia. Dona Fredegunda recusava-se a tomar os remédios, apesar das súplicas do fiel esposo. Sem saber o que fazer, Arcádio resolveu aceitar a carona do colega para comparecer à reunião da Associação dos Aposentados, ocasião que ele aproveitaria para ir pessoalmente conversar com o médico da esposa. Tirando as más notícias — uma idosa que morrera na fila do Hospital da Previdência, a merreca de aumento anunciada pelo governo —, Arcádio ouviu mais uma vez da boca do doutor que o estado da esposa era absolutamente normal.

— Coisa de mulher grávida — sentenciou o ginecologista, entregando-lhe o resultado do exame.

Grávida? Mas, grávida de quem? — matutava o inativo, no caminho de volta para casa, coçando a cabeça no exato local onde lhe restara um tufo de cabelos.

Passaram-se semanas e meses sem que a esposa se alimentasse a contento, exceto de milho, que ela agora só aceitava se fosse colhido verde — e na espiga. E quando tomava água, Fredegunda levantava a cabeça e dava três pulinhos, antes de engolir o líquido. O mistério continuava impenetrável. Chamado novamente, o médico vacilava: havia ali qualquer coisa que escapava ao saber humano.

Na décima visita do doutor, Arcádio, desconfiado, percebeu claramente que o estado da esposa ficava mais e mais enigmático, e as visitas do especialista, mais e mais frequentes.

continua…

chpeixoto@oi.com.br

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

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One Comment to “A herança maldita do aposentado – Parte 2 – O casamento”

  1. Bravo, Peixoto. Parodiando a Avenida Brasil, quem será que engravidou a Fredegosa? Terá sido o batráquio…? Terá sido o médico…? Ou será que ela já chegou “coberta” ao enlace…? Não percam o próximo capítulo…!

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