A goteira no telhado

Carlos H. Peixoto

“Vida é o que acontece enquanto você está fazendo outros planos.”  John Lennon

Eu sempre fui excelente naquilo que não me competia resolver. Antes de o sol bater nas bancas de revistas eu já havia lido todas as notícias através da internet. Não perco um telejornal. Sou especialista em solucionar problemas depois de acontecidos. Para vocês terem ideia, muito antes de A Troika recomendar o corte abissal de salários e benefícios dos cidadãos gregos, aprovados sem direito ao voto livre e soberano do povo, eu já havia encontrado a solução para reduzir os juros da divida pública da Grécia de forma suave, porém ninguém me deu ouvidos.

No nosso caso, vejam vocês, meus caros compatriotas, o BACEN durante décadas manteve os juros na estratosfera, de um lado pra reduzir o consumo e conter a inflação, e do outro estimulando a especulação em detrimento da produção. E agora, quando a crise bate em nossas portas, no ápice da desindustrialização nacional, com enxurrada de dólares e invasão dos importados, com as classes C e D endividadas até a raiz dos cabelos, vem os tecnocratas e nos prometem o Paraíso do Consumo. Em complô com a Banca Privada, os técnicos do Banco Central reduzem os juros, abrem as torneiras do crédito, incentivando o consumo através de novos empréstimos. Já dizia o filósofo da cicuta: a diferença entre o veneno e o remédio está na dosagem.

Quando eu tinha dezessete anos, mamãe virou pra mim e disse: “filho, nunca se case, o casamento é o Saara do sexo”. Mamãe suicidou-se aos quarenta; segui o conselho dela, e desde o dia que nasci até o dia de hoje continuo solteiro.

Eu estava com quarenta e oito anos, tudo corria bem com minha vidinha besta, até o dia em que fui convidado para ouvir uma palestra no Instituto de Desenvolvimento Goela Abaixo – IDGA. A primeira impressão que eu tive, ao me deparar com dois almofadinhas engravatados andando pra lá e pra cá, foi de uma total descrença. Como vendedor do Plano MORRA COM SAÚDE – uma tacada de gênio que conjugava Assistência Médica com benefício funerário -, eu me julgava esperto demais para acreditar em qualquer coisa que não brotasse de minha inteligência privilegiada. Mas os caras sabiam tudo sobre quase nada: “nosso método de gerenciamento pode ser aplicado em qualquer área, tanto em uma Usina Nuclear, quanto na solução da goteira no telhado, ou até mesmo na melhora de sua vida sexual. Ooopa? Tudo se resume em você identificar o problema e traçar um bom Plano de Ação” – dizia um idiota de gravata amarela.

Por que não, na solução dos problemas da nação? Voltei pra casa embasbacado. Nem com a inteligência do Bispo eu teria pensado numa forma tão simples e barata de ganhar dinheiro: o Gerenciamento Matricial da Receita. Mas o que me deixou fascinado foi a possibilidade que eu vislumbrei de fazer alguma coisa pra mudar de vida, e não ficar somente no blá-blá-bla Universal da Lamentação Humana. Atitude pró-ativa, esse era o lema.

Na noite daquele dia, dormi mal, tive pesadelos, sonhei que mamãe estava sendo perseguida por um dragão que soltava fogo, enquanto eu me via preso na torre do castelo, com as pernas imobilizadas por duas bolas de ferro. Acordei transtornado. De manhã, faltei ao trabalho, dirigi-me à sede do IDGA e pedi uma entrevista com o Mestre das Matrizes. O Doutor foi direto ao assunto:

__ Qual a sua meta de vida?

__ Quero matar minha esposa sem deixar vestígios.

__ Você tem uma foto dela?

__ Sim, aqui está.

Ele examinou a foto atentamente. Virou o verso e leu a dedicatória que eu mesmo escrevi.

__ Peraí! Isso não é uma mulher!… É uma boneca?

__ Sim. Essa boneca é a minha esposa. Qual o problema? Eu não posso matá-la?

****

Eu morava com Mitsuco em uma casinha de dois quartos financiada pelo extinto BNH, construída em um bairro apelidado de Pombal. Disposto a colocar em prática meus novos conhecimentos, o final de semana me impunha uma escolha difícil: traçar um Plano de Ação para resolver minha vida sexual ou sanar o problema da goteira no telhado. Em obediência aos preceitos do Santo Ofício, que receitava o sexo carnal apenas para garantir a procriação da espécie, havia um ano e oito meses que eu copulava apenas com Mitsuco, uma linda boneca de plástico adquirida dos Estados Unidos por Cinco Mil Dólares. Bastou eu colocar o pé na porta da sala para ouvir a voz programada da japonacha.

__ Amooor, você chegou? Como foi seu dia? Você me parece tão cansado…, vem cá, deixa eu te fazer um carinho…

__ Agora não, baby. E você, minha safadinha, o que fez o dia todo? Malhou muito na Academia? Você está tão sexy… – Dei um beijinho em Mitsuco, sentada no sofá, exatamente onde a deixei antes de sair para o trabalho, vestida com uma camisola diáfana.

Linda, cabelos negros e lisos, coxas grossas, bumbum arrebitado, sete modelos de vulva, porém eu já estava enjoado de transar com ela, o que me levou a decidir, de imediato, a colocar em prática o Plano de Ação para estancar a goteira no telhado. O upgrade em minha performance sexual ficaria para outra encarnação.

Mãos à obra!

Peguei lápis, prancheta e a caixa de ferramentas e subi no terraço. Primeiramente, conforme mandava a cartilha do IDGA, foquei o problema, rabiscando dentro de um círculo no papel: “A GOTEIRA NO TELHADO”. Depois, provoquei em minha cabeça uma tempestade cerebral que me deixou até zonzo. Em menos de duas horas eu já havia estudado o telhado, enquadrado o problema e definido as ações. A meta de minha vida naquele momento era o pé de manga, cujos galhos se estendiam sobre o telhado. Como ele estivesse bem carregado (o pé de manga), de vez em quando alguma fruta despencava, rachando as telhas, o que de início provocou uma pequena goteira, que foi crescendo, crescendo, se acumulando e infiltrando na laje, e de repente eu me via utilizando guarda-chuva dentro de casa. E não é que tomar decisões pelo método racional chega a ser prazeroso?

Gastei umas quatro folhas pra rascunhar o plano de ação: desde as ferramentas exigidas na operação, até o que fazer com os galhos a serem podados.

Entardecia, mas distraído com a tarefa sequer me dei conta das nuvens escuras que se aproximavam. Absorto em alcançar a meta do dia, desconsiderei os primeiros pingos de chuva. Subi no pé de manga levando uma moderna serra de mil e uma utilidades que eu havia comprado em longas prestações, com juros suaves de 10% ao mês. Serra, serra, serra, serrador…

Passados dez minutos do início de execução do plano, e eu já havia me esborrachado no chão:

__ Kabuuuunnnn!!!! – um raio atingiu o galho, partindo-o ao meio.

Como no mercado de ações, onde “tudo que sobe um dia tem que descer”, hoje faz doze dias que estou no hospital – paralisado dos pés à cabeça. Por enquanto, consigo mover somente os olhos, mas a minha mente nunca esteve tão desperta. “O que será que deu errado em meu Plano de Ação?!” (…) “É isso!”, exclamei com os botões de meu pijama, já que o raio me deixara completamente mudo. “Eu não havia atentado para as variáveis exógenas do problema!” Tampouco para as variantes psicológicas, que fizeram com que eu escondesse dos vizinhos meu casamento com uma boneca de plástico. Percebi que a vontade louca de consertar o telhado não passava de uma desculpa, pra eu me ver livre de Mitsuco, pelo menos por alguns minutos.

Fatalidade, ou falha no detalhamento do Plano de Ação? Eu jamais saberei. Nunca mais vou andar. O médico disse que estou condenado a passar o resto da vida em cadeira de rodas. O que me entristece é que eu nunca mais voltarei a sentir prazer com Mitsuco. Estou pensando em vendê-la, quem sabe apuro pelo menos três mil dólares.

chpeixoto@oi.com.br

Nota: publicado originalmente no sítio da REFAZENDA2010 em 02/12/2002, com revisão crítica e acréscimos feitos pelo autor em março de 2012.

ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

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