A Casa do Sol Poente

Carlos H. Peixoto

Há uma casa em Nova Califórnia conhecida como a casa do sol poente. Sábado, dia de visita, desci do ônibus e caminhei por uma rua de terra batida, pisando com atenção para não esmagar inocentes formigas. Dentro de uma bolsinha de couro amarrada com barbante eu trazia somente o dinheiro da passagem de volta. Era um dia abafado, nenhum sinal de chuva, o velho e tolerante sol irradiava sua energia pela terra, abençoando igualmente bípedes, quadrúpedes e rastejantes. A lesma pegajosa do calor lambia cada milímetro de meu corpo, das canelas ao pescoço, fritando neurônios que pulavam como minhocas em asfalto quente no interior de minha cabeça raspada.

Depois de andar por três quadras parei em frente ao portão de madeira, limpei o suor da testa e li o nome no letreiro talhado em branco, enquanto me perguntava o que levara meu pai, homem rico e poderoso, empreiteiro, jogador compulsivo, viciado em sexo e em mingau de couve, a escolher aquele lugar para viver o resto de seus dias. Mamãe, costureira de luxo, tinha sido usada como “mula” por meu pai. Era ela quem transportava o dinheiro escondido em malas de roupas para ser distribuído entre políticos, policiais e autoridades dos três poderes. Na época eu tinha dezenove anos, sequer imaginava de onde vinha a grana que bancava minha vida inútil em Brasília. Até o dia em que a bomba estourou. Três meses depois, mamãe foi encontrada morta em um flat, engasgada com um osso de galinha.

Do outro lado do portão, encostado no batente de madeira, um velhinho de bermuda, camiseta e chinelos saboreava um sorvete no palito. Ele não me disse seu nome, também não perguntou o meu. Olhou-me longamente, reparando minha bata alaranjada; em seguida desceu os olhos até meus pés calçados com sandálias de pneu de caminhão, e quando sua vista cruzou novamente com meu rosto, sorrindo, ele me perguntou:

— Olá, veio ver seu pai?

Eu sorri de volta sem dizer palavra. O velho abriu o portão, e depois, passos ágeis sob canelas finas, tomou a dianteira, enquanto aplicava longas lambidas no sorvete, que me pareceu ser de chocolate, gostoso para aquele dia quente.

—  Seu pai nos contou que você é monge budista. É verdade?

—  Sim.

—  Tem muito tempo?

—  Em novembro faz doze anos que estou morando no mosteiro de Namgyal, em Dharamsala, na Índia.

—  Caramba! Doze anos em um mosteiro? E o que você tem feito por lá?

—  Passo os dias trabalhando, lendo e meditando.

—  Ah, isso deve ser bom — disse o outro, fingindo interesse. — Que roupa é esta que você está usando? Deve ser quente pra caramba, não?

Eu vestia uma donka, mas não respondi à pergunta. Inspirei fundo, soltei o ar devagar, respiração pranayama. Por trinta segundos desliguei-me do mundo. As dobras em “V” de minha roupa, bem abaixo do pescoço, simbolizam as mandíbulas do senhor da morte, para que eu nunca me esqueça de que um dia serei poeira assoprada pelo vento. “Acossados pela morte, devemos tornar significativos todos os momentos de nossa vida”, ensinava o mestre.

—  Eu também já andei nesse calor com roupas desconfortáveis — disse o velho, chupando o palito para aproveitar o final do sorvete. — Fui deputado por oito mandatos, governador, senador da República, dormia de terno e gravata. O povo me adorava. Já o Judiciário, bem que eles tentaram… mas não cheguei a ser julgado. Fui inocentado por justa prescrição.

Eu não via significado em prosseguir na conversa. Não havia nada de fascinante em minha “pessoa” que justificasse falar de mim por mais do que trinta segundos. O anfitrião insistia em tagarelar, gabando-se da fortuna que acumulara vendendo terras públicas aos miseráveis, negócio conhecido por “grilagem”, algo assim, até que em dado momento ele me perguntou:

—  Você não quer comprar um lote?

Canto de Mara, o mundo alardeado pelo velho não me interessava. Acostumado ao silêncio do templo, eu não conseguia acompanhar o falatório do outro. Sentia-me confuso, escapava-me o sentido oculto das palavras, há muito que eu não praticava o português.

Entramos no terrreno pisando sobre pedras cravadas no gramado. Ao largo, o tapete de grama era delimitado por uma lagoa onde garças buscavam alimento. Adiante, uma casa grande e azul, janelas brancas abertas em bandeira, dois homens podavam uma árvore, outros juntavam folhas. Acima, do lado esquerdo do portão de entrada, elevava-se uma construção clara, ornada com colunas romanas, cúpula, estátuas no jardim e tudo o mais, semelhante a um teatro. Em patamar inferior, degraus faziam com que o pátio de entrada do teatro terminasse em uma larga piscina. Ao redor, próximos às sombras das árvores, homens, todos idosos, protegiam-se debaixo de guarda-sois coloridos.

Não vi meu pai, e antes que eu perguntasse por ele, escutei risadas vindas do outro lado da piscina. Virei o rosto e vi seis mulheres em trajes minúsculos. Uma morena de cabelos curtos, olhos negros, empurrava uma cadeira de rodas, e sentado na cadeira… meu pai! Ao me ver, ele gritou:

— Júnior!

Eu detestava ser chamado de Júnior.

—  Papai! Pensei que o senhor estivesse preso!

Meu rosto estava em fogo, minhas mãos tremiam, eu não sabia se empurrava meu pai na piscina ou se apreciava os corpos das mulheres, seios livres debaixo das camisetas, nádegas perfeitas repartidas num único fio. Não conseguia me concentrar, dividido entre a beleza das mulheres e a feiura decrépita de meu pai. Depois de doze anos sem olhar para a cara de réptil do homem que me doara um espermatozoide, brotou em mim um sentimento de inadequação, o mesmo sentimento contra o qual eu lutara na adolescência e que me fizera partir para a Índia.

—  Preso? Você já viu algum empreiteiro preso no Brasil? E quem iria financiar as campanhas políticas? Veja meus companheiros de asilo. Iguais a mim, são corruptos que não foram punidos. Passamos dos setenta, o país se esqueceu de nós, e nós nos esquecemos de morrer. Tá vendo aquele velho de bigode ralo? É o Zezé Sarnento, ele tem quase cento e vinte anos e vai concorrer a um novo mandato no Senado. Pois então, com a grana que acumulamos, inauguramos o melhor asilo, exclusivamente para homens, que nenhuma Justiça é capaz de pagar.

—  O senhor continua o “mesmo” — eu disse, tocando a mão inerte de meu pai, aproximando-me da morena. Eu nunca havia sentido olor tão maravilhoso, nem quando acendia os melhores insensos do Nepal. Será que elas transam com meu pai?

—  Exceto pelo derrame, que me deixou impotente, dentro de minha mente eu continuo o mesmo, trepando feito um cavalo, comendo e trapaceando. Já dizia Gabriel Garcia Marques, citando Cícero em Memórias de minhas putas tristes: “Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro”. Venham, vamos brindar! Tragam champanhe! Meu filho voltou para casa!

 ***

Naquele dia, eu não bebi. Mas toda minha filosofia de vida foi colocada à prova, quando vi duas dúzias de idosos felizes como crianças, depois que as mulheres tiraram as roupas e mergulharam na piscina.

chpeixoto@oi.com.br

PERFIL e ARTIGOS de CARLOS H. PEIXOTO

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2 Comentários to “A Casa do Sol Poente”

  1. Olá Carlos
    Não sei se é uma crônica ou um conto. Sei que gostei e a medida que lia imaginava a cena. Muito bom e parece que já assisti esse filme.
    abrs.
    Alceu

  2. Téo, a charge do professor e sua equação da corrupção resume tudo…

    Carlos

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