O fariseu e o publicano

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Antônio Sérgio Valente

Não apenas o apóstolo e evangelista Mateus (que era publicano, coletor de impostos para Roma) relatou o carinho de Jesus pela classe fiscal. Também o evangelista Lucas (que era médico e recontou o que ouvira dos lábios de Pedro, de Paulo e de outros apóstolos, discípulos e testemunhas oculares) narra duas passagens em que este fato é realçado. A primeira foi em forma de parábola e aqui vai. A segunda virá oportunamente, quando entrarmos em Jericó.

Por ora, estamos a caminho de Jerusalém, depois de atravessar a fronteira entre Galileia e Samaria. Jesus vai pregando nas pequenas aldeias situadas ao longo da margem direita do rio Jordão, por uma estrada que dá em Jericó e depois, derivando a oeste, alcança Betânia e a seguir Jerusalém. A parábola é contada numa das aldeias do caminho, o evangelista não informa exatamente em qual. Lucas a narra nestes termos (Lc 18, 9-14):

Disse também a seguinte parábola a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais. “Dois homens subiram ao Templo para orar: um fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Ó, Deus, dou-Te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de tudo quanto possuo.’ O publicano, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó, Deus, tem piedade de mim, que sou pecador’. Eu vos digo: este voltou justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” (Lc, 18, 9-14)

Já sabemos que o termo publicano designava o coletor de impostos, servidor do Império Romano, embora fosse cidadão nativo, eis que Roma adotava a estratégia de delegar a governança e a administração direta das regiões invadidas a líderes locais. Por exemplo, Herodes, o Grande, o rei que ordenou a matança indiscriminada de recém-nascidos, governou toda a Palestina na condição de rei judeu aliado ao Império Romano. Os herodianos, partidários de Herodes, entendiam que a melhor maneira de suportar o jugo imperialista era a aliança pacífica. Mesmo morto o rei, a ideologia herodiana persistiu, dividindo-se a governança entre seus três filhos (Arquelau, Herodes Antipas e Filipe), por regiões. Arquelau, que governava a Judeia, a Samaria e a Idumeia, seria deposto por Roma, que adotaria ali outra estratégia: nomearia procuradores de origem romana e não mais de origem local. Pôncio Pilatos era o procurador ao tempo da vida pública de Jesus. Já Herodes Antipas, também filho de Herodes, o Grande, persistiu na condição de rei aliado, governando a Galileia e a Pereia; foi ele quem determinou a decapitação de João Batista.

Os publicanos, por servirem ao Império Romano, não eram bem vistos pela comunidade judaica, que os considerava como traidores, como aliados do invasor. Eram acusados não só de praticarem a escorcha tributária, mas também, à boca pequena, de chatinagem, de fazer negociatas ao cobrar os tributos, de aceitar gratificações dos seus conterrâneos. Tinham fama explícita de pecadores contumazes.
Já os fariseus nomeados na parábola representavam uma facção político-religiosa de muita importância na sociedade judaica. Embora em minoria, ocupavam postos no Sinédrio, o tribunal religioso judeu, e se opunham ao poder civil, entendendo que só Deus era o rei de Israel, de forma que o poder deveria ser exercido pelos religiosos, e não pelos partidários de Herodes, nem pelos representantes do Império Romano.

Os fariseus eram extremamente rigorosos na exigência do cumprimento das normas religiosas e se jactavam disso. Entendiam que o respeito a essas normas é que manteria viva a cultura e a própria nação judaica. Acolhiam não apenas os livros do Pentateuco, mas também todos os demais do Antigo Testamento, acreditavam na ressurreição dos mortos e na existência de anjos, o que os diferenciava doutrinariamente dos saduceus (casta religiosa dominante e aristocrática de Jerusalém, adeptos da cultura e autoridade romanas).

Jesus contestou em várias ocasiões os saduceus e os herodianos, mas não por serem partidários da aliança judaico-romana, e sim por sua hipocrisia, vaidade e orgulho no exercício do poder. Empregara este mesmo critério para criticar os fariseus, que se opunham à aliança judaico-romana, eram mais avançados na exegese religiosa (aceitavam todo o Antigo Testamento, e não apenas os livros do Pentateuco), nisto conciliavam-se com a doutrina de Jesus, mas ao mesmo tempo eram rigorosíssimos na observância das regras acessórias, na imposição de sacrifícios à população, desconheciam a misericórdia e sofriam de hipocrisia, vaidade e orgulho exacerbados. Aliás, esses males atingiam também os escribas (copistas e intérpretes de textos religiosos, alguns eram fariseus, outros saduceus), tanto que mereceram inúmeras críticas contundentes feitas por Jesus.

A propósito, das facções da época, Jesus só não criticou os zelotes e os essênios. Os primeiros se opunham ao Império Romano, protestavam contra a dominação, mas não tinham conotação religiosa, no que se distinguiam dos fariseus. Era um movimento popular de protesto. Um dos apóstolos de Jesus era zelote: Simão, o zelote. Já os essênios, por outro lado, representavam uma seita religiosa, uma variante aguerrida do judaísmo. Não assumiam bandeira política, mas viviam o que pregavam, não eram hipócritas, vaidosos e orgulhosos como os fariseus e os saduceus. Os essênios eram paupérrimos, humildes, desprezados, e por isso Jesus tinha carinho por eles. Alguns apóstolos eram oriundos do grupo essênio. Um essênio de expressão foi João Batista, primo e precursor de Jesus; vivia estoicamente, sem recursos, e não era hipócrita, não só dava exemplos em sua própria vida do que pregava, como também dizia exatamente o que pensava, sem meias palavras. Aliás, por este último motivo João Batista seria decapitado por ordem do rei.

Voltemos ao fariseu da parábola. Embora a linha doutrinária de Jesus se afinasse com a dos fariseus, sobretudo quanto à ressurreição dos mortos, à existência de anjos e à acolhida de textos sagrados posteriores ao Pentateuco, manteve ríspidas divergências com essa facção. Contestava-lhe o formalismo e o rigor excessivos, a dureza dos seus corações, o jugo pesado que impunham aos demais, o radicalismo de seus juízos no Sinédrio, a prática impiedosa da justiça, um descaso com a ternura, com a miséria do próximo, enfim, com a misericórdia. Os fariseus tinham um ar de superioridade e arrogância, um menosprezo pelos que eram diferentes deles, gabavam-se de sua suposta virtude, vaidosamente. E como Jesus tinha um carinho especial pelos que eram menosprezados, humilhados, perseguidos e difamados (pobres, indigentes, leprosos, prostitutas, adúlteras, publicanos), frequentemente indispunha-se com aquele grupo.

Observe-se o comentário de Lucas ao introduzir a parábola a respeito de alguns que confiavam muito em si mesmos, tendo-se por justos e desprezando os demais. É uma evidente alusão ao orgulho e à vaidade dos fariseus. Note-se também os adjetivos que o fariseu atira no resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros. O coletor de impostos, o publicano, já por si só é um adjetivo na boca do fariseu, que sequer o qualifica como ladrão, ou injusto, ou adúltero; ele é publicano e isto basta, é da mesma laia dos outros, talvez pior, está a serviço da escorcha romana, do excesso de exação, ou então é chatinador, é corrupto, é traidor da pátria, é indigno, é hediondo… Dou-te graças por não ser (…) como este publicano. Sinta-se o orgulho, a vaidade e o desprezo pelo próximo que permeiam a oração do fariseu.

Já o publicano, coitado, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu (…) Não se sentia digno daquele ambiente virtuoso. A humildade do cobrador de impostos, a consciência plena das suas mazelas são de comover: ‘Ó, Deus, tem piedade de mim, que sou pecador’.

Todos sabiam da vida dos publicanos. Embora à época não houvesse escuta telefônica, havia o cochicho. Os fariseus, saduceus, pescadores, produtores rurais, comerciantes e aristocratas sabiam, por experiência própria ou de ouvir falar, das escorchas e das chatinagens da vida. Aliás, muitas destas últimas eram propostas por eles próprios aos publicanos. E ficavam muito aborrecidos quando os cobradores de impostos as recusavam, quando aplicavam a lei romana ao pé da letra, impiedosamente.

Portanto, de duas uma: o publicano ou era da turma da escorcha, ou da turma da chatinagem. Os que se desviavam de um e de outro grupo, viviam na corda bamba, a lei aplicavam com parcimônia e sem exageros, equilibrando-se entre as pressões de um lado e de outro, obedecendo instruções superiores, mas atenuando as ordens absurdas, e mantendo-se vigilantes, atentos ao entorno, cingindo os rins para dominar-se, fazendo vista grossa para muita coisa, e frequentemente fingiam-se de surdos, cegos e imbecis. E ainda assim carregavam na consciência o peso da dúvida sobre a justiça que imprimiam em seus atos, uma certa omissão aqui, outra acolá, um ou outro gravame insuportável (que a lei romana era tida como escorchante), e assim caminhavam pela corda bamba do equilibrista.

Não era fácil ser publicano. A culpa era sua amiga inseparável. Por isso, era preciso rezar. Humildemente. Publicano que não rezasse, perdia-se, desencaminhava-se. O publicano da parábola estava rezando: ‘Ó, Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.’ Esse, mesmo que fizesse um caminho com sinuosidades, com quedas e desvios, não perderia o rumo, não perderia de vista a direção correta, seria justificado, seguiria em frente. E quem afirma isto não é o cronista, mas o próprio Jesus no texto evangélico: “Eu vos digo: este voltou justificado para sua casa e o outro (o fariseu) não”.

Portanto, publicano do século XXI, mire-se na parábola e tente justificar-se. Você pertence ao grupo pelo qual Jesus tem um carinho muito especial. Sente-se à mesa com ele, ouça o que ele tem a dizer, como fizeram os colegas de Mateus, em Cafarnaum, e como farão os de Zaqueu, em Jericó.

Mas isto, Jericó, já é assunto da próxima crônica.

asgvalente@uol.com.br

ARTIGOS de ANTONIO SÉRGIO VALENTE

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco.
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4 Comentários to “O fariseu e o publicano”

  1. Valente, tu és porreta.
    Oportuna, atual, e antes do mais, um alento para nossa classe, tão escorchada, aviltada, por cima e por baixo.
    Lembrar nestes tempos horríveis que estamos vivendo o Perdão, o Amor, a Misericórdia, sentimentos que estão tão faltantes nos dias de hoje, e, mais raros nesta terra que um político honesto.
    Viva!

  2. Concordo. Que belo artigo.Obrigado por escreve-lo para nós.

  3. Ao Teo Franco o meu mais profundo agradecimento por republicar esta crônica fisco-cristã. Ao Farah, meu irmão gêmeo de alma com o qual infelizmente tão pouco convivi, e ao Marco, que se deram ao trabalho de comentar, muito obrigado e um grande abraço, O Natal já passou, mas o seu espírito não passe dentro de nós.
    Que 2015 seja um ano mais generoso e de muitas conquistas para todos nós.

  4. Muito bonita e reconfortante a tua crônica Antônio. Encontramos nos ensinamentos de Jesus todo o remédio para nossas mazelas que são milenares. O espírito natalino tem que existir o ano todo com o exercício da caridade e misericórdia. A cada um a sua consciência. Essa é implacável! Muita paz e amor a todos no ano novo!

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