Mensagem de Natal

Curso de Pilotagem de
Carrinho de Supermercado

            Antônio Sérgio Valente

As festas de fim de ano vêm chegando e com elas um velho problema se agrava: o trânsito caótico dos carrinhos de supermercado. Crises de pressão alta e até infartos já ocorreram, após discussões causadas por displicentes que cruzam sem olhar para os lados, ou por condutores sossegados demais, que param onde lhes dá na veneta, em fila dupla ou tripla, não observam o fluxo contrário e ignoram os de trás, sem se dar conta de que obstruem a passagem.

E não me venham culpar o 13º salário, porque na Semana Santa a gravidade é a mesma e aqui o abono não interfere. Também não culpem Jesus Cristo, pelo amor de Deus, embora o suspeito esteja envolvido nos dois episódios. Nem as mães ou os pais, por suas datas. É que no resto do ano, sobretudo nos primeiros dias do mês, quando são pagos os salários, o problema se repete.

Segundo um amigo, metido a escritor, o motivo principal é a falta de educação. “O povo não foi ensinado a pilotar carrinho de supermercado. É uma lacuna no currículo escolar.” Ele defende a obrigatoriedade de um curso de pilotagem, com exame rigoroso, escrito e prático, com baliza e tudo. E multas, muitas e pesadas, inclusive ao estabelecimento que não instalar semáforos, placas e faixas no piso. Esse meu amigo é daqueles que defendem a tese da palmatória: só se aprende quando dói. Neste caso, quando dói no bolso, o órgão mais sensível do corpo humano, ele explica.

Argumentei que não daria certo, pois se até carteira de habilitação para dirigir caminhões se negocia por baixo dos panos…

Um outro amigo, espiritualista, disse que a causa é a falta de luz. Não, ele não culpa a Light ou a Eletropaulo. “O problema é que os seres humanos ainda não descobriram a centelha divina que brilha em seu interior. Infelizmente, a maioria ainda está cega, não sabe dessa luz. Mas há que ter esperança, um dia a gente chega lá”, ele é otimista.

Para um padre que conheço, diretor espiritual de muita gente, o problema é a falta de amor, de pensar no outro, de cristianismo no coração, de presépio na alma, é não fazer ao próximo o que não gostaríamos que nos fizessem. Notaram a sutileza da virada? Não é o suspeito que é a causa, mas o descaso com o que Ele disse.

Você pode escolher se vai ficar com falta de educação, de luz ou de amor. Pode levar duas ou até as três razões para casa, se couberem no carrinho e no cartão de crédito, é claro. Só não me estacione em fila dupla ou tripla, por gentileza. Na dúvida, faça como eu: aproveite as compras para caminhar e entrar em forma, deixe o carrinho bem estacionado, num corredor de pouco movimento, paralelo à gôndola ou junto a um pilar, onde atrapalhe o mínimo possível.

Na ida às prateleiras, aproveite para observar as pessoas, sorria, cumprimente. Se não tiver nenhum compromisso sentimental, pode até flertar, um olhar furtivo aqui, um mais maroto ali; só evite as piscadelas, mesmo as discretas, que já saíram de moda faz tempo. Se houver reciprocidade, puxe conversa, fale do molho, da páprica, do cabernet sauvignon em oferta, muita gente de bem já se deu bem. Mas cuidado: se alguém comentar o preço exorbitante do arroz, do feijão, do alho e da pinga, cai fora que é fria.

Na volta ao carrinho, exiba-se com o peru ou o chester num braço, o tender defumado ou o pernil de cordeiro no outro, um pouco de musculação não lhe fará mal. Segure, cobrindo o rótulo, a sidra e o vinho mequetrefes que costuma dar ao porteiro, que mesquinharia não fica bem ostentar. Já os panetones você pode abraçar e prender com o queixo, todos vão notar a sua enorme generosidade.

Enfim, relaxe, divirta-se e seja feliz nesse Natal.

E no Ano Novo também.

asgvalente@uol.com.br

ARTIGOS de ANTONIO SÉRGIO VALENTE

5 Comentários to “Mensagem de Natal”

  1. FELIZ ONTEM

    Em, 26 de dezembro.
    ________________________

    Monólogo de Natal

    “Aldemar Paiva”

    Eu não gosto de você Papai Noel!
    Também não gosto desse seu papel de vender ilusão pra burguesia.
    Se os meninos pobres da cidade soubessem o desprezo que você tem pelos humildes; pela humildade, eu acho que eles jogavam pedra em sua fantasia.

    Talvez você não se lembra mais, eu cresci me tornei rapaz, sem nunca esquecer daquilo que passou.
    Eu lhe escrevi um bilhete pedindo o meu presente.
    A noite inteira eu esperei contente.
    Chegou o sol, mas você não chegou.
    Dias depois meu pobre pai cansado me trouxe um trenzinho velho, enferrujado, pôs na minha mão e falou:
    Tome filho, é pra você. Foi Papai Noel que mandou!
    E vi quando ele disfarçou umas lágrimas com a mão.
    Eu inocente e alegre nesse caso, pensei que meu bilhete, embora com atraso, tinha chegado em suas mãos no fim do mês.
    Limpei ele bem limpado, dei corda, o trenzinho partiu, deu muitas voltas.
    O meu pai então se riu e me abraçou pela ultima vez.
    O resto eu só pude compreender depois que cresci e vi as coisas com a realidade.

    Um dia meu pai chegou assim pra mim como quem tá com medo e falou:
    filho, me dá aqui seu brinquedo, eu vou trocar por outro na cidade.
    Então eu entreguei o meu trenzinho quase a soluçar, como quem não quer abandonar um mimo, um mimo que lhe deu quem lhe quer bem.
    Eu supliquei… Pai!
    Eu não quero outro brinquedo, eu quero meu trenzinho.
    Não vai levar meu trem, pai!
    Meu pai calou-se e de seu rosto desceu uma lágrima que até hoje, creio, tão pura e santa assim, só Deus chorou, ele saiu correndo, bateu a porta assim, como um doido varrido.
    A minha mãe gritou: José! José! José…
    Ele nem deu ouvido, foi-se embora e nunca mais voltou.

    Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou.
    Sem pai e sem brinquedo, afinal, dos meus presentes não há um que sobre da riqueza de um menino pobre, que sonha o ano inteiro com a noite de Natal!
    Meu pobre pai, mal vestido, pra não me ver naquele dia desiludido, pagou bem caro a minha ilusão.
    Num gesto nobre, humano e decisivo, ele foi longe demais pra me trazer aquele lenitivo; tinha roubado aquele trenzinho do filho do patrão!
    Quando ele sumiu, eu pensei que ele tinha viajado, só depois de eu grande minha mãe em prantos me contou que ele foi preso, coitado!
    E transformado em réu. Ninguém pra absolver meu pai se atrevia.
    Ele foi definhando na cadeia até que um dia, Nosso Senhor, Deus nosso Pai, Jesus, entrou em sua cela e libertou ele pro céu.
    __________________________

    ailton vale
    Auditor Fiscal da Receita Estadual de Minas Gerais

  2. Meu caro Sérgio Valente, você se expressou muito bem no falar de luz e do amor, dois fundamentos máximos que justificam os festejos natalino e falou, também, com muita sutileza, sobre a educação que falta nas pessoas no convívio uns com os outros, retratando senas do nosso dia-a-dia nos supermercados. Muito legal. Cê sabe, que eu mesmo já levei muitas trombadas (rsrsrs) de carrinhos de supermercado no calcanhar, provocados por naqueles pequenos congestionamentos de anda e para… anda e para… naqueles corredores estreitos, seguindo sempre a dona da pensão nossa de cada dia. Parabéns pela belíssima crônica natalina!

  3. Ailton Vale, comovente a história do Aldemar Paiva, que você trojuxe, sobre o Papai Noel.
    Histórias parecidas ocorrem na vida real todos os dias.
    Feliz Ano-Novo para você.

  4. Sebastião, você sabe a admiração é recíproca.
    O consumismo detona o espírito natalino. No final das contas, o pessoal praticamente esquece que a festa comemora o nascimento do Menino-Deus, aquele que mais tarde iluminaria o mundo com as bem-aventuranças, ensinaria a humanidade a rezar o Pai-Nosso, faria milagres impressionantes, contaria umas parábolas educativas sobre a justiça e o amor, sobre os valores que realmente importam, os tesouros que não enfurrujam…
    Feliz pós-Natal para você e sua família, muita alegria no reveillon, e um Ano-Novo com muita saúde a você e seus familiares, paz, sucesso, dinheiro no bolso e cuecas novas…

  5. corrigindo: “tesouros que não enferrujam…”

PARTICIPE, deixando sua opinião sobre o post:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: