Lambanças: Sacolas e Sacolinhas

Antônio Sérgio Valente

Continuando a série inspirada no saudoso Sérgio Porto e no seu impagável Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País), dentre as bobagens mais irritantes dos últimos meses, a questão das sacolinhas plásticas — que deixaram de ser oferecidas pelos supermercados aos seus clientes — está no topo da lista. Não tanto pelo custo transferido à clientela, mas pela descortesia dos comerciantes, pela mesquinharia da atitude, pela chantagem econômica, pelo descaso dos agentes políticos (incluindo deputados estaduais e o atual governador) em relação aos consumidores, e, sobretudo, pela justificativa rampeira que parece zombar da inteligência de todos os cidadãos.

Há algumas semanas, no programa Gente da rádio Bandeirantes de São Paulo, um representante dos supermercados, cujo nome faço questão de omitir, concedeu uma entrevista tensa, dessas que elevam a pressão arterial do ouvinte. O sujeito foi tão cínico, expeliu uns argumentos tão frágeis e ilógicos, que até os entrevistadores creio que tiveram lampejos de esganá-lo. Fiquei com a impressão de que para aquele entrevistado o público de São Paulo sofre de idiotia crônica.

Mas como disse a esposa de programa que matou o marido industrial, vamos por partes.

O motivo alegado para o não fornecimento das sacolinhas é a defesa do meio ambiente. Segundo a liderança dos supermercados, as malditas sacolinhas são jogadas no lixo, entopem os bueiros, poluem os rios e demoram séculos para serem absorvidas pela natureza. Já as caixas de papelão não, essas se dissolvem rapidamente.

Ora, em primeiro lugar, sabe-se lá em que carrocerias e armazéns imundos estiveram as tais caixas de papelão, sabe-se lá quais roedores e insetos as frequentaram, sabe-se lá quais químicas há em suas colas. Convenhamos que levá-las para casa não é decisão das mais higiênicas. E pior ainda seria descartar nelas o lixo doméstico. Sugerir um absurdo desses é típico de quem tem titica de rato na cabeça. O elemento devia ser detido por atentado à saúde pública.

Em segundo lugar, as sacolinhas sempre tiveram a dupla função de embalar as compras e depois os detritos da cozinha, do banheiro, do escritório, etc. Alguns cidadãos sensatos costumam separar o lixo por categorias (orgânico, papel, lata, plástico, vidro) e utilizam as sacolinhas na primeira triagem, antes do acondicionamento de cada grupo de dejetos em sacos pretos de maior porte e espessura. A alternativa que essas pessoas teriam, caso não houvesse as sacolinhas, seria comprar sacos de lixos convencionais, desses de20 litros, azuis ou pretos, que demoram mais para deteriorar-se, embora continuem sendo vendidos pelos próprios supermercados e ainda são fabricados com o mesmo material não biodegradável.

Está claro, portanto, que o objetivo da medida não é proteger o meio ambiente. Se fosse, a questão se resolveria facilmente: bastaria substituir as sacolinhas tradicionais por biodegradáveis e ponto final. E mais: por isonomia e eficácia, a medida teria de ser estendida para todo o comércio (roupas, sapatos, remédios, materiais de construção, etc). Ademais, os produtos vendidos pelos supermercados em sua maioria são embalados em plástico (óleos, macarrões, molhos, frios, carnes, perfumaria, material de limpeza, etc.), e a medida não alterou isso. Ou seja, essa lei tem mais lacunas que conteúdo. É um festival de incoerências. Vários pesos e várias medidas.

Economizar uns trocados, vender mais sacolas, sacolinhas e sacos de lixo, e adequar o Brasil à França dos Casinos da vida — são estas as mesquinhas razões da lambança. Ou, em outras palavras, tirar a facilidade, criar a necessidade, diminuir os custos, elevar as receitas e globalizar. O nome disso não é meio ambiente. O nome é grana.

O argumento de que na Europa não há sacolinhas é de uma macaquice tão grande que dá até vontade de trancar o sujeito num zoológico. Será que os defensores da ideia ignoram os costumes, hábitos e valores do seu público? Se em outros países as pessoas vão quase todo dia ao mercado, compram quatro bananas, três tomates, dois ovos, uma baguete, meio quilo de macarrão e um quartinho de pó de café, e depois voltam no dia seguinte, pois já passaram por centenas de guerras e racionamentos, acostumaram-se a ver poucos itens em suas despensas e geladeiras, aqui no Brasil é diferente — e graças a Deus que é assim. Aqui a gente gosta de fartura, de provisões nos armários, de geladeira cheia, de fruteira com dúzias e pencas. A classe média brasileira, e até mesmo as famílias que vivem com dois ou três salários mínimos vão ao supermercado de uma a quatro vezes por mês, à feira ou ao sacolão semanais, fazem suas comprinhas que costumam ter vários volumes, alguns em pacotes de 5 quilos, como o arroz, por exemplo, enquanto em certos países da Europa o arroz é artigo de luxo, vendido em pacotinhos de meio quilo, vai no risoto e olha lá.

Pode parecer ufanismo, mas os brasileiros gostam de passar bem. Nem sempre podem, mas os que podem, quando podem, adoram encher os carrinhos. E os que não podem, sonham com isso.

Além de macaquice, imitação de hábitos de outras culturas, trata-se de burrice dos supermercados. Dificultar o transporte dos produtos adquiridos pela clientela é suicídio comercial. Muita gente já está redescobrindo a alegria das feiras livres e indo a mercados da periferia nos quais a lei não pegou. Se por aqui eles vão bem das pernas, se vendem e crescem à beça, é justamente porque o brasileiro tem esse jeito farto de viver, detesta o miserê, os grãos contados.

E não é porque certas redes de fora estão cada vez mais vindo investir no Brasil, em busca do nosso público e de maiores lucros, que somos obrigados a mudar os nossos hábitos. Eles que se adaptem aos costumes brasileiros. E que as nossas instituições, a começar pelo CADE, fiquem de olho nessas fusões que resultam em concentração do setor, mitigam a concorrência e prejudicam o consumidor.

Mas não se culpe de antipatia só o franco-argelino, pois também o seu parceiro-rival, aquele hábil que se diz, tem culpa nesse cartório, é ele quem mais desmanda no setor com a benção do governo amém. Porque é óbvio que a infeliz ideia partiu dos supermercados, mas passou facilmente pelos deputados e por Alck-amém. O motivo é uma outra sacola: a da campanha eleitoral. O lobby das grandes lojas do ramo tem a cúpula do poder na palma da mão. Eles aprovam o que querem, sempre. Tiraram as etiquetas dos produtos, e todos sabem que boa parte dos preços nas prateleiras não são confiáveis, certos itens simplesmente não têm papeletas, outros as têm trocadas, induzindo o cliente a equívoco; há casos em que sequer os leitores óticos conseguem ler o código de barras. Conseguiram também a Substituição Tributária (que desonera lojas com maior poder de barganha e maiores margens), em concorrência desleal com pequenos mercados e forte estímulo à concentração do setor. Além disso, há as imposições que fazem aos fornecedores (bonificações, vendas de cabeceiras de gôndolas, pessoal para repôr estoques, etc), sempre visando maiores lucros e sem nenhuma oposição legal. Essas transações condicionadas e leoninas, praticadas pelas grandes redes, deveriam configurar abuso do poder econômico, mas quem já viu algum político se mexer para acabar com isso? Enfim, eles mandam e desmandam, o governo diz amém e o motivo é óbvio: a força do lobby da sacola eleitoral.

Por sua vez, também o Ministério Público e a Defensoria Pública dependem do governador de plantão, de modo que suas autonomias são relativas, a gente até entende isso, embora lamentando.

A posição do governador, primeiro ao não vetar a lei, e depois ao afirmar que não está proibida a distribuição das sacolinhas, os supermercados podem oferecê-las ao público, sem problema, não é ilegal (como quem diz não tenho nada a ver com isso, é uma questão entre os clientes e os supermercados), é imitação pura de Pôncio Pilatos. Se bem que o romano teria feito melhor: lavaria as mãos. O fato é que o governador Alck-amém se omite como se não estivéssemos diante de um oligopólio.

Sem dúvida, essa lambança das sacolinhas bem que merece ir para a lista do Febeapá, criação do inesquecível Sérgio Stanislaw Ponte Preta Porto, a quem dedicamos, em memória, esta série.

asgvalente@uol.com.br

ARTIGOS de ANTONIO SÉRGIO VALENTE

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

3 Comentários to “Lambanças: Sacolas e Sacolinhas”

  1. Lambanças: Sacolas e Sacolinhas | BLOG do AFR . com

    blogdoafr.com/2012/06/23/lambancas-sacolas-e-sacolinhas/

    13 horas atrás – Espaço independente para integração dos Agentes Fiscais da Receita Estadual.

    Valente. O Google já te achou. O dom de escritor deve ser desenvolvido. Parabéns!

  2. Felizmente, a internet tem facilitado a divulgação de protestos contra (mais uma) medida exótica que quer, a todo custo, convencer o consumidor que a sacolinha plástica é uma espécie de vilã da história. Pelo contrário, tem trazido muita irritação e decepção do eleitor pelos políticos que fingem não entender. Fico feliz pela nossa categoria poder marcar posição neste tema de interesse público, através desta saborosa crônica do estimado colega Valente.

  3. Acaba de ser produzida pela APAS (Assoc. Paulista dos Supermercados) outra tentativa de manter a lambança após o fim do TAC por decisão do Conselho Superior do Ministério Público: dentre as propostas apresentadas hoje à tarde, a APAS quer distribuir sacolinhas retornáveis, para serem abatidas como crédito na compra seguinte. Ou seja, querem outra vantagem: fidelizar o cliente.
    E ademais, se não posso usar a sacolinha para descartar o lixo doméstico, terei de comprar sacos de lixo convencionais, desses de 20 litros, que continuam sendo fabricados com material NÃO BIODEGRADÁVEL. Ou seja, para a dona APAS que se lixe o lixo e o meio ambiente. Aliás, a propósito, o mesmo representante da APAS informou que está tratando com a Associação dos catadores de lixo a respeito do recolhimento desses sacos para posterior reciclagem. E a gente pergunta: se é para fazer isso com os sacos de lixo, por que não com as velhas e malditas sacolinhas não biogradáveis? O mal que elas faziam ao meio ambiente era até menor do que o dos sacos de lixo.
    Agora está MAIS EVIDENTE AINDA que o que a APAS quer é tirar as sacolinhas do custo indireto dos seus filiados (que reduz lucro) e transferir o ônus para o consumidor. E esse acordo de reciclagem, cá entre nós, é conversa mole para boi dormir.
    Esperamos que o MP, a DEFENSORIA PÚBLICA, a SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE e o PROCON desta feita não se exponham ao rídiculo aceitando essa nova proposta da APAS. Que tenham peito de fazer a coisa certa, em PROL EFETIVO DO MEIO AMBIENTE, que é determinar o fornecimento de sacolinhas BIODEGRADÁVEIS, em substituição às sacolinhas plásticas que eram distribuídas antes da lambança. Tão “graciosamente” como antes. São mais caras? Que tirem o custo da VANTAGEM que as grandes redes tiveram com a ampliação da Substituição Tributária a partir de 2008, que favoreceu enormemente os comerciantes com maior poder de barganha, exatamente as grandes redes, e que por isso mesmo operam com margens brutas mais elevadas.

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