Lambanças: Esposa de Programa

Antônio Sérgio Valente

O assassinato do industrial que empacotava alimentos e foi ele próprio empacotado pela esposa, em sacos de lixo, o esquartejamento, a lambança toda, revelou ao mundo — mais do que uma tragédia — uma inovação comportamental que dá perigosa feição à família.

Há milênios se sabe da prostituição e do adultério, da esposa e da amante, da matriz e da filial.

Não faz muito tempo surgiu na praça a figura da garota de programa, uma espécie de fusão entre a meretriz e a amante. Ou, definindo de outro modo, é uma prostituta ambulante combinada com dama de companhia. Ao contrário da rameira tradicional, a garota de programa não tem ponto fixo, não atende na esquina, na zona, no bordel. Está mais para a antiga cortesã, a meretriz de luxo que frequentava a alta roda. A garota de programa vai aonde o contratante indicar, à praia, ao campo, ao inferno, obviamente dependendo de preço e condições. Dispõe-se a viajar, ir ao restaurante, ao clube, à festa e tudo o mais praticar para o fiel cumprimento do trato, um bom trato no cliente. Os seus programas não são tão mínimos como os da prostituta tradicional, podem durar algumas horas ou avançar por dias e até semanas, dependendo do pacote. Há um detalhe relevante: a garota de programa não promete nem exige exclusividade.

Note-se que nenhuma das modalidades anteriores enquadram precisamente o relacionamento que o industrial esquartejado mantinha com sua algoz. Esmiuçando os pormenores do caso, a forma como os protagonistas se conheceram, o que ela fazia antes, a preferência renitente dele por certo tipo de mulher que entrega prazer em troca de dinheiro, o casamento com separação de bens, a pouca afinidade entre ambos, as brigas constantes, o adultério, tudo isso traz à luz uma personagem do mundo moderno da qual pouco se fala: a esposa de programa.

Pode-se afirmar que essa nova figura é uma evolução no conceito de garota de programa. É uma espécie de garota de programa com mais corda. No novo tipo de enlace há dois blocos nítidos de interesses: o financeiro e o hedonista. Grana e prazer. Corpo e matéria. Sensações apenas, sem amor. O espírito não entra na história. Moral e ética, nem pensar. Até mesmo a mente — que é como o HD do corpo, onde rodam todos os programas, inclusive os espirituais — dá pau. Já por essas características se nota que esse novo tipo de matrimônio, para usar uma surrada imagem humorística que um amigo costuma repetir, é como um submarino: foi feito para afundar.

Embora o conceito seja novo, está se alastrando rapidamente, sobretudo nos meios elitistas. Mas não se pode dizer que é evolução comportamental. Pelo contrário, é retrocesso. Até há um século sabia-se de casamentos arranjados pelos próprios pais, de filhos prometidos desde o berço, por interesse econômico ou político. Até na bíblia são relatados casos de pais poderosos que davam filhas em casamento em troca de vitórias em guerras, como Micol, por exemplo, filha de Saul, que a entregou a Davi, em paga por seus méritos de guerreiro. Os coirmãos portugueses também têm um caso emblemático que foi parar até nas páginas dos Lusíadas, de Camões: Inês de Castro era amante de D. Pedro, que era marido de D. Constança, mas a desposara por imposição paterna, do rei D. Afonso IV, pelo interesse da realeza, num casamento negociado e sem amor, pois o príncipe gostava mesmo era da amante plebeia. Em suma, tais casamentos se resumiam a três palavras: poder, negócio e crime. Estes ingredientes do arco da velha têm tudo a ver com o caso atual. A diferença está só num entra e sai de P. Por favor, não me leiam a amiga e o colega com malícia: sai o poder, entra o prazer. O fato é que o casamento por interesse ficou no retrovisor da humanidade. E reciclar comportamento superado, com pitadas de ingredientes nocivos ao corpo, à mente e ao espírito não é o que se poderia chamar de atitude evoluída.

Mas como diria a esposa esquartejadora, vejamos por partes como funciona essa volta piorada ao passado.

O prazo do acordo com a esposa de programa é indeterminado, como no casamento convencional e no próprio concubinato, embora de menor duração que ambos, eis que na prática não costuma ultrapassar três anos. Os casamentos normais duram em média bem mais que isso e há exemplos de concubinatos que persistem por décadas. Porém, o submarino que leva a bordo esse novo casal difere das relações masculinas com a antiga meretriz e com a garota de programa, pois estas figuras combinam por encontro, tempo e/ou função, com vínculos efêmeros ou ocasionais, ao contrário da esposa de programa.

Aliás, a questão do preço é peculiar. Na relação com a meretriz e com a garota de programa o preço é cláusula indispensável. Já no casamento tradicional ocorre uma parceria econômica, podendo haver comunhão ou separação total ou parcial de bens, mas não se fala em pagamento de serviços sexuais e de companhia; quando muito se pode cogitar de umas flores de vez em quando, uns bombons, um vestido, até uma joia ou um carro, conforme o bolso, mas ai do marido que insinuar vínculo entre este mimo e aquele carinho. Por sua vez, na nova modalidade conjugal, com a esposa de programa, não há fixação de preço por serviço ou empreitada. O acordo é quase um contrato velado de trabalho no qual se estipula um salário com o título eufêmico de mesada. O valor é prefixado, assim como o índice de reajuste. Certos casos cogitam de rubricas variáveis, como produtividade e bonificação, conforme o índice de satisfação do usuário, o comprometimento e o empenho da esposa de programa. Não raramente esta faz jus a apólice de seguro e plano VGBL.

E para que não digam que esta crônica difere das outras, pois não critica a postura do governo nem a política tributária, é curioso notar que as rendas auferidas pela esposa de programa têm tratamento fiscal privilegiado: só há a incidência de ITCMD, como se fosse uma doação normal, à alíquota de 4%. Não se paga IR, FGTS, INSS, nada disso. É um absurdo que precisa ser revisto, pois fere o princípio da isonomia, sobretudo no comparativo com a prostituição comum, que é tributada pelo IR, como Outros Rendimentos, a alíquotas que podem chegar a 27,5%, e em algumas cidades também pelo ISS, com alíquotas variáveis de 2% a 5%. Mas é pouco provável que a matéria seja revista, pois corre à boca pequena que boa parte dos políticos já enquadrou os seus últimos conúbios nessa modalidade, de modo que se aprovassem a equiparação perderiam privilégios no bolso e na cama.

Ainda que haja muitas diferenças entre os conteúdos dos casais à moda antiga e os dessa nova versão, a aparência exterior é idêntica, pois na união com a esposa de programa ocorre uma espécie de teatro, com direito a prole, babá e empregada. Quem vê por fora pensa que aquele belo apartamento onde eles moram é um lar. Os vizinhos, o zelador, o porteiro, o síndico, os parentes, os colaboradores, ninguém percebe que aquilo é um arremedo de casal, um acordo entre partes, mera junção de corpos, sem amor. Ademais, o acordo muitas vezes é selado em cartório, perante o juiz, com direito a padre, pastor ou pai de santo, com festa, fotos e lua de mel. Quem não sabe dos bastidores daqueles dois, da pouca sintonia que há entre ambos, da transação que fizeram, nem imagina que ela é uma esposa de programa e ele um tremendo otário metido a esperto.

A causa dessa novidade é a pressa que suprime etapas da ligação sentimental. De cara, a esposa é recrutada num site ou num programa libidinoso. Não há o encontro casual, o flerte, a conquista, aquele brilho apaixonado no olhar, o encantamento, a vontade de estar junto o tempo todo, de ligar cinco vezes ao dia só para ouvir a voz do outro lado da linha, a descoberta gradual das afinidades e divergências, das virtudes e dos defeitos, a admiração mútua, a decisão de pisar no futuro de mãos dadas, um protegendo e apoiando o outro. Enfim, no casamento com a esposa de programa, não se fala de amor, só de prazer e grana. É trágico. Reduz o ser ao corpo.

E ao fechar esta crônica sanguinária, para que respingos não manchem a gola do rapagão ou as cutículas da bela senhorita que me leem, eis a única lição que se extrai dessa novidade: quem separa do corpo o coração joga literalmente a vida no lixo.

asgvalente@uol.com.br

ARTIGOS de ANTONIO SÉRGIO VALENTE

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

12 Comentários to “Lambanças: Esposa de Programa”

  1. caraca, bom demais!

    Carlos Peixoto
    Ipatinga MG

  2. “Será que nunca faremos
    Senão confirmar
    A incompetência
    Da América católica
    Que sempre precisará
    De ridículos tiranos”

    Há “putas” piores que muitas putas por aí…

    Os erros e as responsabilidades têm suas gradações. Não se deve jamais desprezar essa realidade.

  3. Caro Valente,
    Como a polícia diz, este crime teve requintes de crueldade, no entanto serviu para, mais uma reflexão, tão bem trabalhada com o seu (aí sim) requinte literário para abordar aspectos mais profundos que atuam no comportamento social contemporâneo.

  4. Obrigado ao Carlos e ao Teo Franco pelos comentários.

    Quanto ao colega Metafórico, que reproduz versos do Caetano Veloso, extraídos da canção Podres Poderes, convenhamos que não é dos melhores textos do compositor. Aliás, o Caetano de protesto é o pior dos Caetanos. Ele critica a moral cristã que colonizou a América, mas se esquece de que a Europa também é cristã. Talvez ele preferisse que a América fosse uma outra África… Ou será que ele estava pensando em muçulmanizar a América…? Convenhamos, não é o melhor dos Caetanos.
    O fato é que a moral cristã foi a que introduziu no mundo os conceitos mais evoluídos que a humanidade já conheceu: o amor, a ausÊncia de vingança, o desprendimento em relação ao mundo meramente material, o autoconhecimento interior, etc. Que há problemas no mundo cristão — guerras, misérias, etc. — não há dúvida, mas em outras partes do mundo esses problemas são ainda maiores (sobretudo no Oriente Médio, África e Índia). E também não há dúvida de que sem os referidos conceitos cristãos (amor, compreensão, etc) o mundo seria muito pior. Não é por culpa dos conceitos cristãos que a América tem capengado. Pelo contrário, sem aqueles conceitos temos o apagão que produz desfechos como o da Esposa de Programa.
    Obrigado ao Metafórico por ter trazido o tema.

  5. “Obrigado ao Metafórico por ter trazido o tema.”

    kkkkk…

    Valente,

    Na verdade a minha intervenção teve um alvo, digamos, mais profano. O seu texto foi só um gancho…

    Mas você há de concordar que a estrofe abaixo é bem bolada:

    “Enquanto os homens exercem
    Seus podres poderes
    Motos e fuscas avançam
    Os sinais vermelhos
    E perdem os verdes
    Somos uns boçais…”

    É verdade. Deixamos de fazer o que poderíamos fazer e fazemos o que não deveríamos.
    Serve para um monte de coisas: conduta pessoal, profissional, política, atuação sindicial, e por aí vaí.
    A canção é muito inteligente porque, de certo modo, resume esse nosso agir hipócrita.
    Como dizia um velho professor da faculdade: “Na Suécia, mulher honesta é aquela que não passa cheque sem fundos.”
    abs.

  6. atuação “sindical”.
    e por aí “vai”.
    (corrigindo)

  7. Pois é, Metafórico… Mas eu prefiro o Caetano da “cajuína cristalina em Teresina”. Prefiro o poeta Caetano que sente ao poeta/prosador Caetano que filosofa.
    É que, quando filosofo, ele mistura conceitos. Ele deixa implícito na letra uma espécie de complexo de subdesenvolvimento (sul) americano, como se fôssemos seres inferiores ao resto do mundo, todos nós uns cretinos, porque somos cristãos, porque fomos civilizados com o cabresto regrado do europeu, porque nossos hábitos no trânsito são ignorantes, porque avançamos os sinais vermelhos da vida, porque somos todos corruptos, etc. Isto só para ficar na segunda estrofe que você traz. Mas a letra inteira dessa música está repleta de outros exemplos meio assim.
    O problema é que isso é apenas meia-verdade. Não somos todos uns boçais, não. E não pense que lá fora é muito diferente daqui. Mesmo em sentido metafórico, os que avançam sinais vermelhos e param nos verdes, tanto no trânsito como no resto da vida, lá fora não muda muito. Pelo contrário, o mundo inteiro está ultrapassando sinais vermelhos e parando nos verdes. Mas se é assim, por que centralizar a crítica tropicalista só contra nós próprios que vivemos entre os trópicos? Por que somos mais pecadores do que os outros?
    Acho que isso é complexo de subdesenvolvimento…
    Tudo bem, você dirá, a crítica contra os podres poderes é geral, não é só contra os tupiniquins. Pô, mas então compara o mundo de hoje com o mundo de 1000 anos atrás…! Não dá nem para comparar, tamanha a evolução.
    A verdade é que boa parte da humanidade ainda é ignorante, inculta, estúpida, grosseira, tem poucas luzes, ainda há guerras e violências, mas isso não quer dizer que somos todos uns boçais. Isso é miopia filosófica. É ver muitos menos do que há. Para mim, não somos todos uns boçais, não. Há uma névoa atrapalhando a nossa visão, a visão dos nossos governantes, do nosso povo, a nossa própria, nem sempre acertamos, mas ser humano é isso aí, é ser imperfeito,
    Mas gostei mesmo da intervenção, Metafórico, fora de papo, sem kkkk. É sempre bom ‘conversar’ com quem gosta de poesia… Abraço alegórico, meu caro Metafórico.

  8. Finalmente uma bela crônica, bem ao estilo Rodriguiano, para sair um pouco da rotina. O fechamento foi genial: “quem separa do corpo o coração joga literalmente a vida no lixo”. Apesar de não ser entendido no tema, lembro ao caro Valente que a profisão tratada remonta ao paleolítico, onde, obviamente, o pagamento pelos serviços prestados era feito em forma de “cumbucas d´agua” ou uma boa “pele de cervo”….e olha que naquela época não havia internet, psicólogos conjugais, detetives, divócios, cronistas…… opa! opa!! vou parar por aqui, pois como disse, não entendo desse assunto…..

  9. Caro Barroso, obrigado pelo comentário, gosto muito mesmo do Nelson Rodrigues, tanto do cronista esportivo como do teatrólogo, você acertou na mosca.
    Agora, quem não entende nada desse assunto sou eu… Só escrevo de ouvido…
    Mas no nosso meio já ouvi muitas histórias a respeito, temos colegas especialistas na matéria…
    O fenômeno é universal e antiquíssimo. Dizem que surgiu antes mesmo da sonegação e dos fiscais, pois estas duas últimas figuras só surgem com a organização do poder, com os reinados. Há registros da função até na Torá judaica, nos evangelhos, em textos vedas (dos indianos) e por aí vai.
    É que o homem foi feito de barro, Barroso, mas o barro virou carne e o espírito foi soprado nele. Então o homem se transformou num animal espirituoso… Aliás, mais animal do que espirituoso… Segundo o Raul Seixas e o Paulo Coelho, o homem só usa 10% da sua cabeça animal. Não sei se para calcular eles recorreram ao Homem que Calculava, do Malba Tahan, ou se foi com base em algum roteiro de alguma SEFAZ, mas creio que eles não erraram muito, não.
    O problema é que tudo muda na vida e agora a atividade mais antiga do mundo está se travestindo, está usando máscaras e se pulverizando de tal modo na sociedade que quase já não se sabe mais quem é quem. Como cantou a Elis Regina, “A coisa tá virando zona / é cada um por si e todo mundo na lona / tá cada vez mais down…”
    Abração, Barroso.

  10. Em tempo: a música que a Elis Regina cantava foi composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho: “Alô! Alô! Marciano”. O sentido era outro, político, mas vale também para a situação abordada na crônca.

  11. Valente… cada vez melhor, parabéns pela crônica maravilhosa, onde você aborda com muita propriedade a função da moderna “Esposa de Programa” com suas implicações tributárias, lembrando ainda que até R$ 40.000,00 há isenção até dos 4% do ITCMD.

    Grande abraço…Getulio

  12. Abração, grande Getúlio, amigo dos bons tempos de Moóca. Saudade do amigo. Vê se aparece no almoço dos aposentados para gente pôr a conversa em dia. Obrigado pelo comentário. Bem lembrada a isenção de até 2500 UFESPs. Já as outras têm de se contentar com a faixa de isenção da tabela do IR, que é bem menor… Acho que é por isso que elas pouco declaram… É “diferença de ‘levantamento’ “…

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