A culpa é do governador (*)

Antônio Sérgio Valente

Depois de trabalhar a manhã inteira num conto que patinava, desci à minha livraria de usados e distribuí os piparotes de praxe. Passei o indicador na poeira de uma estante e desenhei com o pó uma cruz na testa da Doris, a garota da flanela. Perguntei ao Martins, meu gerente, quando os livros comprados na semana anterior estariam finalmente limpos e etiquetados, mas não esperei pela resposta: estava careca de saber que precisávamos de mais auxiliares. Fiz um auê danado quando encontrei um Dom Casmurro ao lado de um Dom Quixote, os dois na letra D, como se nossa ordem não fosse por gênero e sobrenome de autor; quis saber quem era o culpado.

            — O coitado do estagiário faz colégio estadual lá no Grajaú — o Martins justificou. — Pouco sabe do Machado e provavelmente nunca ouviu falar do Cervantes. A culpa é do governador.

Eram duas da tarde quando peguei o rumo da Praça João Mendes. Estava em dúvida se devoraria um sanduíche de pernil ou duas fatias de pizza na padaria Santa Tereza. Procurava um lugar disponível no U do balcão, quando avistei, lá no fundo, o meu prezado e esquálido amigo Fonseca, o investigador. O mesmo bigode branco manchado de nicotina, os cabelos ralos já lhe prateando as têmporas e desertando do cocuruto. Tinha à sua frente um prato com azeitonas verdes, uma tulipa de cerveja e duas garrafas vazias. Acenei, mas ele fixara num ponto impreciso à sua frente um olhar vago de quem parecia não estar ali.

            — E aí, meu velho Maigret, já se aposentou?

Assustado com a palmada que lhe apliquei nas costas, Fonseca volveu tossindo do seu mundo perdido, arregalou os olhos e demorou a mostrar os dentes tartarosos.

            — Falta pouco, Flamélio, seu filho-da-mãe, falta pouco — finalmente ele disse, a mão direita estendida, a voz cada vez mais tragada pelo enfisema.

            — E a saúde, Poirot, como vai?

            — A saúde que se dane. Estamos divorciados.

            — Quanto otimismo, benza Deus.

            — Sério mesmo. Estou no fim. Você está vendo o meu último capítulo.

            — Não fala besteira. E aquele projeto de escrever, quando se aposentar, os casos de polícia lá do seu DP?

            — Esquece aquilo. O futuro já era.

            — Caraca… Por que tamanha desilusão, Mr. Holmes?

Ele abanou a mão direita e cometeu um esgar como quem diz: não vale a pena falar sobre isso. O balconista se aproximou e, ainda em dúvida, pedi um sanduíche de pernil e um chope, mas antes me vê uma fatia de Margherita, eu disse, que estou morrendo de fome e o meu amigo aqui vai me contar uma longa história, eu sei que vai.

            — Minha mulher me chutou — ele já me conhecia de outros carnavais, sabia que sou persistente, seria inútil esquivar-se. — Meus filhos não querem nem ouvir falar de mim. Pronto, acabou-se a história.

            — Alguma arte você deve ter aprontado.

            — Nada, não fiz nada. A culpa é do governador.

Nas últimas duas horas era a segunda vez que eu ouvia aquilo. A orelha esquerda do governador devia estar ardendo. Imaginei que Fonseca sofrera alguma punição funcional, teria sido suspenso ou exonerado, mas depois de cavar algumas respostas percebi que o problema era de outra natureza.

Fonseca disse que nunca foi o que se poderia chamar de um marido perfeito, um chefe de família exemplar.

            — Não nasci com vocação para monógamo. Os meus pais eram portugueses da gema do pastel de Belém, tenho sangue da mouraria nas veias, genoma de muçulmano, sabe como é… Fui desconvertido a cruz e água benta de cavaleiro templário, mas você sabe que mouro que é mouro jamais se conforma com mulher única. Conforme o bolso pode desfrutar de várias. Eu tinha cacife para duas e olha lá. Mas é claro que uma era paralela, ninguém podia saber, é a regra velada do jogo, você sabe como é…

Eu não sabia de nada: — Então sua mulher descobriu e lhe deu um belo chute no traseiro.

            Ele confirmou com a cabeça: — Como se eu fosse um vira-lata.

            — Mas que falta de consideração…!

            — Pois é. Um casamento de trinta e tantos anos… Acabar assim, tem cabimento?

            — E por uma coisa tão boba…

            — Pois é. Foi o que eu disse a ela. Ainda se a Laura fosse uma mulher completa…

            — Laura é a paralela?

            — Não, a Laura era a minha mulher, a titular. Ótima com a casa, a comida, as roupas, os filhos, mas na cama, cá entre nós, é até chato falar, não era qualquer parada que ela topava.

            — Sei, não precisa entrar em detalhes.

            — Então eu me enrosquei com a Cleonice.

            — E a Cleonice… essa é… completa?

            — Tudo que você imaginar. Tudo. Fora de papo.

Naquele momento era melhor não imaginar nada: o chope e a pizza tinham acabado de chegar e não me faz bem cometer dois pecados capitais ao mesmo tempo: ou bem a gula, ou bem a luxúria, talvez uma após a outra, mas as duas simultaneamente me dão náusea.

            — Mas e o governador, como é que ele entra na história? É culpado por quê?

           — A culpa é do governador — ele reiterou, enquanto eu devorava a fatia de Margherita. — Mas não pensa que vai ficar em pizza, não. Consultei um advogado e ele me disse que vai estudar se cabe indenização.

Segundo Fonseca, ele e a tal Cleonice vinham se enroscando duas ou três vezes por semana, no pequeno apartamento onde ela mora, num conjunto habitacional do Ipiranga, perto da favela de Heliópolis. Ele pagava parte das contas, a luz, a água, o telefone, o condomínio, vez ou outra uma comprinha, mas nunca falava de aliança no dedo da pobre Cleonice, que era manicure, mas estava se cansando daquela mesmice, não queria mais saber de manipular mãos, sonhava com outras manipulações. Fonseca observou que nos últimos meses ela formulara perguntas sobre o que a esposa dele fazia e deixava de fazer. Embora incomodado, lançou o interesse na conta dos ciúmes e ingenuamente retribuiu algumas respostas verdadeiras.

Foi assim que a ardilosa Cleonice ficou sabendo que quem ia ao banco pagar as contas do sagrado lar de Fonseca era sua santa esposa Laura, a mais econômica das mulheres: ia à feira de sábado na meia hora final, quando tudo é mais barato; colecionava folhetos de propaganda de supermercados para comprovar as ofertas e exigir do mais próximo a cobertura dos menores preços; só comprava eletrodomésticos nas liquidações de balanço anual; e, ultimamente, depois de ver na tevê um comercial do governo, até nota fiscal ela vinha pedindo aos comerciantes, indicava sempre o CPF do marido, que o veículo da família estava em nome dele, e ela queria abater do IPVA do ano seguinte o imposto das compras.

O investigador achava aquilo uma bobagem, nem quis se cadastrar, mas a esposa cuidou de tudo, pediu ao filho caçula que digitasse o CPF do marido no site da Fazenda, ditou-lhe a senha e anotou o caminho dos cliques, que para simplificar o filho incluiu no rol dos favoritos do computador. Uma vez por mês, a zelosa Laura, esposa do Fonseca, consultava os créditos, denunciava os que não constavam na lista e reclamava até dos centavos. Fonseca achava engraçada a muquiranice da patroa.

E também levava na graça as perguntas da Cleonice. Tanto que numa tarde de junho, antes do Dia dos Namorados, para satisfazer a curiosidade da Número Dois, contou-lhe assim por contar as peripécias econômicas e internéticas da sua cônjuge meeira. A Regra Três riu, mas logo ficou muda e pensativa. Fonseca bem que notou, armava-se mais que uma trama, uma tramóia no olhar da Cleonice. Experimentou sacar o saca-rolhas que usava na delegacia, um que normalmente lhe dava de beber o vinho da verdade, mas naquela tarde esta não veio. Vieram, isto sim, súbitos, todos os lábios gulosos da Cleonice, de modo que o investigador acabou esquecendo a tramóia no olhar.

Só voltou a lembrar-se em setembro, quando entrou em sua própria casa e viu na sala duas malas prontas e os olhos vermelhos de sua santa Laura, que lhe apresentou dois envelopes pardos. Ele abriu o primeiro e viu diversos tíquetes de compras feitas em junho.

            — O que significa isso?

            — Compras que o canalha do meu marido fez: numa joalheria, num supermercado, numa perfumaria, numa drogaria, num restaurante e num… num motel…

            — Laura ameaçou chorar, mas se conteve.

            — Os cupons estão na internet, item por item: anel, brincos, pingente, perfume, roupas íntimas, preservativos, lasanha vegetariana, vinho tinto chileno…

            — Não é possível, deve haver algum engano.

            — Está tudo certo, já apurei. Mandei um detetive investigar.

            — Mas eu é que sou o investigador aqui nesta porcaria de casa.

            — O senhor andou comprando jóias para sua amante, no Dia dos Namorados. O seu CPF está nos cupons, pode verificar.

            — Não é possível, eu nunca faria uma asneira dessas…

            — Poupe-me das suas mentiras e abra o segundo envelope.

Fonseca fez o que ela mandou e viu diversas fotos recentes nas quais ele aparecia ao lado da Cleonice numa lanchonete, num estacionamento de certo supermercado, ambos dentro do Palio cujo imposto Laura pretendera mitigar, e algumas, provavelmente tiradas de algum apartamento do bloco oposto ao da Cleonice, não deixavam margem a dúvida: mostravam a amante e ele nus, em plena ação.

Depois de admitir que o detetive fizera um belo trabalho, embora aquela história dos cupons fosse pura armação, ele discorreu sobre a mouraria, o alcorão, a questão do genoma, a função dos garanhões no mundo animal, a cultura muçulmana… Mas a resposta foi um aperto rancoroso de lábios e olhos, a porta da rua escancarada e um gesto que o mandava embora para sempre.

            — Nunca mais ouse pôr os pés nesta casa.

Antes de sair, ele implorou, aduziu as lacunas da esposa, os seus pudores na cama, ela relevasse as fraquezas dele, perdoasse e tal. Mas os novos argumentos só pioraram as coisas, ela o empurrou porta afora e em seguida lhe jogou as malas.

Isso passa, ele pensou, tudo passa debaixo do sol.

Mas estava enganado. A mulher e os filhos, com o auxílio de um jovem advogado metido a esperto, impuseram-lhe a mais rancorosa e definitiva expulsão de suas vidas. Confiscaram-lhe a parte que lhe cabia no único imóvel que tinha e metade dos vencimentos. Foi proibido até de aproximar-se da casa em que vivera com sua família, sob pena de prisão.

            — Passei o último Natal num quarto de pensão da rua Aurora.

            — E a Cleonice? Por que não vai morar com ela?

            — Não, aquela tem água de coco na cabeça.

            — Mas você disse que ela era completa…

            — E é. Completa, sim. Ô, se é. Completamente idiota. Pensou que se a Laura descobrisse, eu seria expulso de casa e ficaria disponível para ela.

            — E acertou. De idiota ela não tem nada.

            — Idiotíssima. Morar com ela seria jogar um jogo marcado. Não admito isso. Além do mais, ela me traiu. Até para pagar o almoço no motel em que foi com o Piauí, o porteiro, deu o número do meu CPF. Isso não se faz, é sacanagem.

            — Quer dizer então que, numa única rodada, o velho mouro da Alfama perdeu suas duas mulheres.

            — Pois é. E me diga se a culpa é ou não é do governador, desse maldito big brother que ele inventou?

            — Bem, eu diria que… Poxa, Fonseca, mas você também abaixou a guarda.

            — Mas eu vou pedir indenização, ah se vou.

asgvalente@uol.com.br

(*) Conto publicado na revista O Escritor, da UBE – União Brasileira de Escritores, nº 121, edição de julho de 2009, ao tempo em que o Sr. José Serra era governador de São Paulo, no segundo ano de vigência da Nota Fiscal Paulista. Naquela ocasião, os cupons fiscais, com todos os itens de mercadorias adquiridas, eram expostos no site da Nota Fiscal Paulista, e para acessá-los bastava digitar o número do CPF e a senha. Depois da reclamação do Fonseca, embora não necessariamente por isso, as coisas mudaram um pouco. Não muito. Mas então já era tarde: a Laura nunca mais quis nem ouvir falar do ex-marido.  

ARTIGOS de ANTONIO SÉRGIO VALENTE

NOTA: Os textos assinados não refletem necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

2 Comentários to “A culpa é do governador (*)”

  1. Já sabia das qualidades do Valente mas que excelente escritor ele é, gostei muito da estória, e da forma da escrita.

  2. Obrigado, Bianchi. Bom saber que alguém gostou.

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