Minha empresa, minha família

Amadeu Robson Machado Cordeiro*

Senhor Governador

AMADEU ROBSON MACHADO CORDEIRO, brasileiro, casado, funcionário público estadual, pai de família, portanto, proprietário de uma pequena empresa familiar, vem mui respeitosamente à presença de Vossa Excelência expor, para em seguida pedir:

1. Sou proprietário de uma pequena empresa familiar que mantém ligações umbilicais/sanguíneas com quatro filiais – não concubinas e sim filhos – que ainda, por razões do destino, não conseguiram desgarrarem-se por completo do amparo da matriz;

2. Senhor Governador Ricardo Coutinho, a minha empresa sobrevive há 32 anos pelos serviços funcionais que foram prestados ao Estado e, exatamente agora, na sua administração vem passando por sérias dificuldades de ordem financeira, motivado pelo não repasse de valores (PCCR) que a minha modesta empresa familiar é detentora, por lei e direito;

3. A minha empresa senhor governador, não tem outra fonte de renda, não participa de licitações, não tem terrenos para negociar com grandes empresários, não tem reserva milionária em caixa, enfim, minha empresa não tem um CNPJ, opera tão somente com a matrícula 87.747-6 (a matriz) e suas filiais com modestos CPF’s;

4. A minha empresa senhor governador, não é como a sua empresa que lhe oferece casa, comida de primeira qualidade, mordomos, cozinheiros, ajudante de ordem, segurança particular, auxilio paletó, diárias gordurosas, transporte aéreo e terrestre, piloto, motorista e outras benesses, tudo com o dinheiro de pequenas empresas como a minha e de muitos paraibanos;

5. A minha empresa senhor governador, paga água, luz, telefone, empregada doméstica, jardineiro, compra alimentação e vestuário, etc…O teco-teco que por aqui ronda não é nenhuma aeronave, são os amortecedores estourados de um carro, adquirido em 60 (sessenta) parcelas, que até pouco tempo estava com o emplacamento atrasado havia 05 (cinco) meses. Geralmente, senhor governador, o transporte para a visita de algumas das minhas filiais é feito através de coletivo público, não o coletivo girassol de sua propriedade;

6. A minha empresa senhor governador, ao contrário da sua, durante 32 (trinta e dois) anos funcionava em imóvel alugado, somente agora, depois de muita batalha é que conseguiu através da Caixa Econômica Federal um financiamento de sua sede própria, parcelada em suaves 336 meses, ou seja, 28 (vinte e oito) anos. Assim, senhor governador, quando quitá-la o sócio-proprietário estará beirando os 80 (oitenta) anos, se for da vontade do Senhor nosso Deus;

7. A minha empresa senhor governador, tanto a matriz, quanto as filiais, se encontram com os planos de saúde beirando o atraso, portanto, nenhum membro pode adoecer. Aliás, uma das filiais nesses nove meses pela frente estará constituindo um pequenino depósito fechado, o que significa uma expansão empresarial que requer mais despesas;

8. A minha empresa senhor governador, como a de muitos paraibanos esta prestes a pedir concordata, pois não podemos aderir ao Refis e por prevalecer a vossa vontade não existe nenhum Termo de Acordo. Assim, nos vemos obrigados a pedir socorro aos grandes agiotas bancários da praça, isso, se tivermos margens consignável em nossos contra-cheques;

9. A minha empresa senhor governador, tem sonhos, tem esperanças que se renovam a cada dia. Ela não tem medo de ir à luta. Ela tem sede de conquistas. Mesmo sem bola de cristal senhor governador, a minha empresa e suas filiais observam a inversão de valores que hoje paira em nosso meio. As pessoas da minha geração e também da sua, tinha uma cultura de seriedade, de honra e respeito, extensivo na nossa atividade profissional, ao comércio e por via de conseqüências ao serviço publico e à política. O exemplo maior eram os governantes senhor governador;

10. A minha empresa senhor governador vive honestamente e não faz falcatruas e se indigna quando vem à luz corrupção e negociatas de políticos com dinheiro público, mas, infelizmente, a verdade horroriza mais que o próprio crime, ao invés de envergonharem-se pelo voto de inocentes que o elegeram;

11. A minha empresa familiar senhor governador (a matriz), perdeu uma gratificação paga pela empresa que o senhor administra. Nada mais justo e posso até dizer, afinal, mesmo tendo-lhe acompanhado em outras épocas, recentemente fiz opção diferente. Mas outras empresas senhor governador, que lutaram, que apostaram, que verteram copiosamente gotas de suor na sua consagração, estão em situação de penúria, penhorados até o pescoço.

12. A minha empresa familiar senhor governador, foi criada com muito carinho e das cantigas de ninar da pequena infância, cantarolávamos musiquinhas características da nossa época. Hoje, na empresa que o senhor administra, existem pessoas cantarolando:

Eu sou rico, rico, rico, de marre-marré-marré
Eu sou rico, rico, rico, de marre decê.
Eu de pobre fiquei rico, de marre-marré-marré
Eu de pobre fiquei rico, de marre decê”.

E adivinhe senhor governador quem canta esta:

Escravos de Jó, jogavam Caxangá, tira bota deixa ficar,
Guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá.
Guerreiros com guerreiros fazem zigue-zigue-zá”.

13. Ziguezagueando senhor governador, esta uma parte da sua equipe que, por falta de autonomia administrativa em face do temor reverencial, se tornam inertes, omissas, cingidas numa desvelada reação camuflada, algemadas ao vosso comando, presas aos vossos mimos.

14. Ziguezagueando também ficaram as empresas dos guerreiros do fisco, minha categoria funcional, por inocentemente acreditarem em suas palavras, em sua amizade, dada a sua convivência pacifica e harmoniosa com que freqüentavas a nossa sede. Mas a verdade Sr. Governador é que o Fisco paraibano é forte, o fisco paraibano é unido e acima de tudo é entidade de luta e não se dobra nem abdica dos seus direitos.

15. A minha empresa senhor governador Ricardo Coutinho, como a de muitos colegas está a anos luz de distância da constelação da sua empresa. Mas tome cuidado. A nossa pode ser negativada no SPC e SERASA, a do senhor não corre este risco, porém, pode ser negativada no Cadastro Eleitoral das pequenas empresas (barnabés) espalhadas por este Estado a fora.

16. A minha empresa familiar senhor governador, ouviu as suas ponderações e justificativas quando do aumento da tarifa da Cagepa, lembra? Vossa Excelência alegou que nenhuma empresa sobrevive sem reajuste, assim, ratificando com clareza o meu respeito e sabedor das raízes da sua dignidade como homem público, é que suplico a Vossa estimada atenção no sentido de autorizar o pagamento do que nos é devido, não só da minha empresa, mas de todas as pequenas empresas familiares mantidas pelo erário público que o senhor administra, por se tratar de questão de JUSTIÇA.

N. TERMOS.

P. DEFERIMENTO

Amadeu Robson Machado Cordeiro
Auditor Fiscal – 87747-6

*Amadeu Robson Machado Cordeiro é Auditor Fiscal da Paraíba e colunista do www.patosemcena.com.br; www.fenafisco.org.brwww.blogdoafr.com.br

amadeu.rmc@ig.com.br

 

NOTA: Os textos dos articulistas não reflete necessariamente a opinião do BLOG do AFR,  sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

ARTIGOS de AMADEU CORDEIRO

3 Comentários to “Minha empresa, minha família”

  1. Bela alegoria, Amadeu. Talvez o governador perceba que quem vai à URNA é o CPF e não o CNPJ.

  2. Muito bom.

  3. Amadeu,

    Muito bom o seu artigo. Conhecendo-o como lhe conheço, não me surpreende. Parabéns.

    Noel

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