Era uma vez…

Amadeu Robson Cordeiro

Sempre fui um servidor público motivado. Motivado porque achava que trabalhar na administração pública era algo nobre, que valia a pena todo o meu esforço. Certo das minhas convicções, não me importava tanto o fato de ter começado ganhando tão pouco. Não me importava de acordar cedo, deixar de tomar café com a minha esposa, de dar bom dia aos meus filhos. Não importava com a má reputação que a condição de servidor exalava perante a opinião pública. Não importava com os atropelos da lei que via e hoje vejo acontecer diariamente a minha volta.

Assim, hoje eu digo: “Era uma vez um servidor público motivado”. Servidor que não se importava com o aproveitamento político e financeiro que a classe dirigente fazia em troca dos cargos de direção, como também, não se importava com a renúncia à dignidade vendida a troco de migalhas.

Sim, era uma vez… Foi uma vez. Não me importava pelas chacotas porque achava que a minha atitude, a minha motivação, o meu empenho e dedicação podiam mudar as coisas, podiam contagiar gente a minha volta, podiam até convencer que se todos pensassem assim, a administração deixaria de ser mais um campo de batalha política e de enriquecimento de alguns, em detrimento de tantos outros que se mantinham de cabeça erguida.

Era uma vez um funcionário público motivado que um dia começou a se preocupar com o fato de que as coisas não estariam mudando. Um dia em que reparou que as coisas tinham até piorado. Importou-se com o desrespeito governamental, ao ver os direitos conquistados por sua categoria funcional serem usurpados ditatorialmente. Importou-se quando se conscientizou de que moralidade é pano de fundo e que salários de gestores aglutinados ao privado, subestimam a classe dos servidores em geral.

Sim, este servidor que traça estas linhas se importou quando percebeu que o bem comum não merecia o mínimo de respeito pelo Poder dominante, e que este mesmo Poder era compassivo, complacente e abusado para servir os interesses econômicos em curto, curtíssimo prazo, de alguns poderosos que tinham comprado esse mesmo Poder.

Importou-se ao ver a justiça (a que fiscaliza, a que aplica as leis) algemada, encurvada, dobrada, e porque se convenceu de que a visão de futuro do bem comum que esse Poder maior tem é mais retrógrado desde o tempo em que a ditadura decretou a lei da mordaça na imprensa.

Era uma vez um funcionário público que perdeu a motivação. Que muitas vezes se acha um inocente, ou melhor, um otário, ao tratar bem todo mundo como pessoa e não objeto. Portanto, começo a perceber e entender porque é que alguns servidores tenham desistido de se empenhar no seu trabalho, preferindo ler jornal, telefonar a família ou fazer jogos no computador, como muitos Gerentes (chefes) assim o fazem, camufladamente nas barbas do Poder. Afinal, é o que o próprio governante os incita a fazerem.

Era uma vez um funcionário público motivado que começou a sentir náuseas cada vez que relembrava aquele político magro e cabeludo, que incitava as manifestações e se passava por atuante e combativo, que sempre ocupava as emissoras de rádio e tv para denunciar os desmandos e atos de corrupção da época. O político implacável da taxa exorbitante de iluminação, da injustiça, o defensor voraz do servidor público, o revoltado combativo com empregos de parentes na administração pública, ficando, assim, conhecido por pregar a ética, o respeito aos direitos adquiridos e a moralidade administrativa na defesa dos interesses da população da Paraíba. Hoje, como dirigente maior é arrogante e orgulhoso, e ousa debitar teorias que descaradamente contrariam toda sua prática de antigamente.

Era uma vez um funcionário público motivado… que já não o é. Agradeço ao senhor, meu caro ex idealista, meu atual governador.

amadeu.rmc@ig.com.br

Amadeu Robson Machado Cordeiro é Auditor Fiscal e colunista do www.blogdoafr.com.brwww.patosemcena.com.brwww.fenafisco.org.brwww.aafep.com.brwww.sindifiscopb.org.br e colaborador: www.clickpb.com.brwww.polemicaparaiba.com.br;

ARTIGOS de AMADEU CORDEIRO

NOTA DO EDITOR: Os textos dos articulistas não reflete necessariamente a opinião do BLOG do AFR, sendo de única e exclusiva responsabilidade de cada autor.

2 Comentários to “Era uma vez…”

  1. Só fui perceber no final que o autor estava se referindo ao fisco da Paraíba… achava que ele estava falando do fisco paulista.

  2. Bravo, Amadeu. Por aqui, em SP, também está assim. Aliás, onde essa gente pisa, fica assim. Enquanto no mundo inteiro só se fala em capital humano, num capitalismo não financeiro, com proliferação de empresas que nascem em bercários de ideias e de talentos humanos, com pouco interferência do capital, aqui navegamos contra o avanço da história: os recursos humanos por aqui são desprezados, relegados, como se os computadores pudessem substituir a inteligência humana, a habilidade, a competência.
    O pior é que eles atiram nos próprios pés, pois esse jeito de pensar leva a resultados cada vez mais pífios, a injustiças cada vez maiores, a governos medíocres.
    Parabéns pela visão crítica. Oxalá eles percebam como estão equivocados no tratamento que dispensam aos servidores concursados.

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