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janeiro 28, 2015

Ineficiência do setor público: Culpa ou dolo?

Alexandro Afonso*

Em 02/03/2015 completo 5 anos de serviço público. Antes de me tornar servidor atuei por 10 anos consecutivos na iniciativa privada, sempre em áreas ligadas à engenharia mecânica. Neste artigo tenho a intenção de levantar uma questão que eu nunca vi ser tratada em nenhuma crítica à ineficiência do setor público: a questão da culpa e dolo. Ressalta-se desde o início de que não estamos tratando apenas sobre crimes, mas também sobre punições administrativas baseadas em erros cometidos por servidores. Não vou pormenorizar detalhes porque não sou especialista em direito, sou engenheiro. O termo “eficiência” é utilizado na concepção dos engenheiros.

Atuei por alguns anos na engenharia de produção de uma grande montadora. Vi por diversas vezes erros de operadores, erros de projeto e erros de engenheiros. Quando encontrávamos um erro qualquer a primeira coisa a se fazer era “arrumar o problema”, na linguagem de fábrica. Depois de consertado o defeito já era possível saber se houve dolo na conduta ou não. Se houve intenção do trabalhador em fazer acontecer o erro (sabotagem) ou não. Por óbvio, na maioria das vezes não havia intenção, era questão de mera culpa. Algumas vezes o dolo era indireto por desleixo, falta de profissionalismo ou mesmo falta de conhecimento (culpa consciente?). Nestes casos a decisão óbvia situava-se entre algumas soluções: treinamento, orientação, mudar o trabalhador de lugar (e tipo de trabalho) ou, em último caso, demitir, caso fosse custoso demais fazer aquele trabalhador parar de cometer os mesmos erros. Óbvio que este caso é muito pouco aplicado, eu não vi nenhum em 10 anos, as demissões que vi foram por baixo rendimento, nunca por um erro apenas culposo.

No serviço público a questão toma forma completamente diferente. Tudo por aqui vai parar no judiciário. A principal preocupação de qualquer servidor é ser processado por um cidadão, por outro servidor, pela administração ou mesmo pelo poder a que pertence (executivo, legislativo ou judiciário).

É consenso entre os servidores que basta haver culpa para a punição ser aplicável. Logo, pouco importa se houve intenção, se houve desleixo, stress alto, se o servidor não dormiu bem, se foi assediado moralmente para adotar determinada conduta, se isto ou aquilo. Pouco importa! Teve culpa? É culpado e deve pagar. A lógica parece bem simples, mas não é. Não vamos entrar em detalhes do judiciário como a questão de cada juiz decidir de forma diferente em alguns assuntos. Fiquemos no “princípio da supremacia do interesse público”. O Estado não pode perder nunca, então quem teve culpa (servidor) deve pagar e ponto final. Ledo engano, o Estado perde muito com esta conduta.

À primeira vista o “princípio da supremacia do interesse público” aplicado ao trabalho dos servidores parece algo correto e que traria “responsabilidade” ou “comprometimento” ou outro termo bonito como esses. “SÓ QUE NÃO”. Explico: não há um ser humano neste mundo que nunca tenha cometido um erro. Não há um que não cometerá um erro. Errar é inerente ao processo de aprendizado. Depois de aprendida a lição, fatores mil levam o melhor profissional a cometer pequenos erros. Ao punir qualquer erro considerando unicamente a culpa o sistema jurídico brasileiro implanta no núcleo do Serviço Público a ineficiência.

O servidor, sabedor de que a mera culpa o prejudica (no Brasil um simples processo já é a própria punição, psicológica no caso), passa por volta de 80% do seu tempo constituindo provas de que fez a coisa certa. A burocracia passa a ser tão amada pelos servidores que critica-la é quase um ataque à própria pessoa. Isto, obviamente, impede qualquer trabalho de ser eficiente. Afinal, apenas um quinto do tempo será utilizado para fazer o trabalho. Exemplos eu tenho muitos, mas vou citar apenas um: juntar impressos de telas de sistemas mantidos pelo próprio órgão. Oras, bastaria que o servidor olhasse os sistemas e se certificasse que está correto, não? A assinatura dele deveria receber alguma confiança. Afinal, por qual motivo, razão ou circunstância seria imprescindível juntar o impresso de uma tela de consulta em um sistema do próprio órgão que o mantém, o mesmo órgão do servidor, no processo? Oras, o sistema não é mantido pelo órgão? As informações dele não são confiáveis no tempo? Se este for o caso o problema é outro.

Sem título2A resposta dos profissionais mais experientes do serviço público para esta questão é simples: faça como quiser, mas eu colocaria o impresso para “ninguém poder dizer que eu não olhei”. Glória! Atingimos o pico da eficiência: provar que olhou. Você, leitor, acha que eu tenho uma resposta diferente? Não, meus caros. Junte impressos para provar que você fez a coisa certa. O sistema é implacável e basta um processo com um Juiz que tenha a opinião de que basta a mera culpa para você sair prejudicado. Aliás, só o processo administrativo ou judicial já vai te dar uma dor de cabeça que pode ser aliviada com estas “provas de que fez a coisa certa”.

Este fator nos leva a um paradoxo bem interessante. Os profissionais que mais trabalham se tornam os piores porque serão, estatisticamente, os que mais erram. E os profissionais que não executam nenhuma atividade, ou próximo a nada, nunca serão punidos porque não cometerão nenhum erro. Qual a razão de incentivar esta lógica? Há que se reclamar dos “moitas” que se formam no Serviço Público? Por quê? Considerando que o ser humano é egoísta por natureza, o “moita” estará unicamente buscando seus interesses pessoais. Mas é isto que queremos incentivar no serviço público?

Um amigo me disse uma vez que educar é incentivar o bom comportamento e punir o mau comportamento para mostrar que não é certo. Isto é muito óbvio. No serviço público a lógica pode ser diretamente aplicada. Se desejamos eficiência devemos incentivar quem agrega mais valor e não punir aquele que trabalhou muito e, por óbvio, teve maior chance de cometer um erro sem a intenção de fazê-lo.

Devemos punir aqueles que agem com dolo, com intenção de ter vantagens indevidas, quem faz advocacia administrativa, aqueles que são corruptos, os que “passam na frente” interessados “mais interessados” que outros interessados, etc. Se todas as corregedorias dos órgãos, o ministério público, as corregedorias gerias e outros órgão de fiscalização das atividades de servidores se concentrarem apenas nos casos em que há dolo, certamente haverá trabalho sobrando para servidores faltando porque normalmente as corregedorias são pequenas.

Infelizmente a solução neste caso é algo que beira o utópico. Seria necessária legislação específica tratando sobre erros cometidos por servidores em que ficasse bem claro que a mera culpa não é nem punível (eu digo punição zero mesmo) nem passível de abertura de processo administrativo e que seria necessário, imprescindível, a comprovação de dolo já para a abertura do PA. Os servidores precisam ter segurança e acreditar que caso cometam um erro não intencional em seu trabalho estarão protegidos pela lei contra punições ou algum tipo de assédio moral. Como isto é altamente improvável, mesmo porque essa discussão não existe na sociedade atualmente, temos que o Serviço Público está fadado à ineficiência por suas próprias regras e características.

Sem título3Para conforto do leitor, há um alento. Quando se implantam sistemas para tratar de determinados trabalhos a questão da culpa é completamente retirada do foco. Afinal, “foi o sistema que errou” e o sistema não é um servidor. Uma solução seria desenvolver sistemas para tudo aquilo que é passível de ser resumido em um roteiro (tarefas algorítmicas). Os seres humanos, dotados de inteligência, podemos deixar para as tarefas heurísticas, para o desenvolvimento destes próprios sistemas e para os casos de exceção que sempre existirão.

Por fim, estou certo que a culpa de um dos mais importantes fatores que determinam a ineficiência do setor público é a própria culpa. A solução é “tornar culpado apenas o dolo”. Resumindo: a culpa é da culpa, mas deveria ser do dolo.

Se eu estiver errado serei a pessoa mais feliz do mundo, neste caso me avise.

No próximo artigo pretendo tratar de outro ponto de ineficiência tão importante quanto este: gargalos criados “por competência” em leis e decretos.

afr.afonso@gmail.com

* Alexandro Afonso é Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

ARTIGOS de ALEXANDRO AFONSO

sindicais

janeiro 14, 2015

Esforço Útil

alexandroafonsoAlexandro Afonso*

Num esquema simples emprestado da física, temos duas situações de esforço X que gera um resultado Y (roda quadrada) ou Z (roda redonda)

Um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço como forma de melhorar o sistema ou o resultado. Muito pelo contrário, a redução do esforço é a busca primordial da humanidade. Engenheiros, por incrível que pareça, também são humanos. Porém, no campo da gestão e administração as coisas não são tão claras quanto nos eventos físicos já controlados pela humanidade. Para nossa alegria, a analogia nesse caso é direta. Vamos chamar de “indicadores de esforço” os “indicadores de procedimento”, já para o resultado temos, inclusive, o mesmo termo.

Se um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço para melhorar algo, por que motivo, razão ou circunstância um administrador utilizaria? A questão é mais simples do que parece. O administrador (este, não todos) toma como certo que quanto mais esforço for empregado, mais resultado será alcançado. Continuemos com a nossa analogia física x administração […] Continue lendo

sindicais

janeiro 14, 2015

Esforço Útil

Alexandro Afonso*

esforco-util-01

A figura acima é um esquema simples que peguei emprestado da física. Temos duas situações. Na primeira um esforço X gera um resultado Y (roda quadrada). Na segunda o mesmo esforço X gera um resultado Z (roda redonda). O resultado Z é melhor que o resultado Y.

Um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço como forma de melhorar o sistema ou o resultado. Muito pelo contrário, a redução do esforço é a busca primordial da humanidade. Engenheiros, por incrível que pareça, também são humanos.

Porém, no campo da gestão e administração as coisas não são tão claras quanto nos eventos físicos já controlados pela humanidade. Para nossa alegria, a analogia nesse caso é direta. Vamos chamar de “indicadores de esforço” os “indicadores de procedimento”, já para o resultado temos, inclusive, o mesmo termo.

Se um engenheiro nunca utilizaria um indicador de esforço para melhorar algo, por que motivo, razão ou circunstância um administrador utilizaria? A questão é mais simples do que parece. O administrador (este, não todos) toma como certo que quanto mais esforço for empregado, mais resultado será alcançado.

Continuemos com a nossa analogia física x administração. Aumentar o esforço para aumentar o resultado em física não faz sentido em todos os casos. Se você estiver falando de empurrar uma pedra (evento simples) faz todo o sentido, mas isto não se repete em um motor a combustão (evento complexo). Se você joga muito combustível na câmara de combustão o motor “afoga” e você não tem resultado nenhum. No motor há uma série de fatores que influenciam no resultado como, por exemplo, a taxa de compressão, a relação combustível/comburente, etc.

Em administração faz sentido? Não em todos os casos também. Os humanos têm limites físicos e psicológicos. Não necessariamente um aumento de esforço resultará em aumento de resultado. Vamos utilizar um conceito importante na engenharia: função limite. Se imaginarmos uma pessoa trabalhando em seu limite de 24 horas por dia, todos os dias do ano fica bem fácil entender que o resultado não é diretamente proporcional ao esforço. Há diversas variáveis físicas e psicológicas que interferem na relação. Se o humano não dormir (24 horas trabalhando) esforço adicional não vai trazer melhor resultado.

E, convenhamos, há alguma coisa mais complexa no mundo do que o corpo e, principalmente, o cérebro humano? Logo, na administração é muito mais importante medir o resultado já que nem a ciência atual conhece todas as faces do cérebro e da psicologia.

Se você “puxa” demais um trabalhador do conhecimento possivelmente reduzirá sua motivação e criatividade. Se você reduz a criatividade reduz a sua chance de conseguir algo inovador no futuro. Se você reduz a sua chance de conseguir algo inovador no futuro, compromete a melhora dos resultados, que é exatamente o inverso do que você, administrador, quer.esforco-util-02

É extremamente claro que estabelecer metas de esforço (procedimento) pode ser um tiro pela culatra. É também muito claro que quando fazemos isto estamos deixando completamente de lado a inovação e o aumento da eficiência do sistema (utilizando o conceito da engenharia de “esforço/resultado”).

Portanto, as administrações mundo afora que utilizam gestão por indicadores e metas deveriam colocar como prioridade zero a mudança para indicadores de resultado, mesmo que imperfeitos ou imprecisos. Estabelecendo metas de resultado como “consumo/km rodado” poderemos cada vez mais agregar valor ao nosso trabalho. E quando agregamos mais valor ao nosso trabalho temos plenas condições de exigir maior valorização da carreira e dos salários.

Vamos, de uma vez por todas, parar de empurrar pedras quadradas e buscar formas de arredonda-las.

afr.afonso@gmail.com

* Alexandro Afonso é Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

sindicais 

julho 31, 2014

– Coroné? Coroné? – Passa amanhã!

alexandroafonsoAlexandro Afonso

Século XXI exige democracia direta

Quando eu era menino e vivia em Diadema, cidade da região metropolitana de São Paulo, costumava sentar a tarde no beiral de casa (o da foto) com um amigo “da rua” e conversar sobre nada ou apenas olhar a paisagem (sim, naquela época Diadema era uma cidade cheia de árvores e com poucas casas).

Em frente a nós passava todo dia no mesmo horário um senhor que estava sempre embriagado, costumávamos chamar pessoas assim de “bêbados”. O apelido deste senhor era “Coroné”. Não “coronel”, era “Coroné” mesmo. Este meu amigo da rua sempre gostou de mexer com o Coroné. O motivo era simples: ele sempre respondia da mesma forma e era engraçado. […] Ela revela um traço profundo da cultura brasileira: a ditadura dos coronéis, formais e informais. Aquela lei não escrita que diz que todo brasileiro é incapaz de decidir por si próprio e precisa de “pessoas iluminadas e escolhidas” para fazê-lo. Ou mesmo aquela outra lei, também não escrita, que permite o cerceamento da liberdade de expressão seja no campo político ou no campo meramente idealista. Você ainda pode pensar em um monte de leis, nunca escritas, que derivam da cultura do coronelismo. […]

O que dizer, então, do nosso atual modelo de representação classista? Vamos colocar “no bolo” ambas as nossas entidades: Sinafresp e Afresp (a ordem dos fatores não afeta o resultado) […] Continue lendo

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julho 31, 2014

– Coroné? Coroné? – Passa amanhã!

Alexandro Afonso*

corone1Século XXI exige democracia direta

Quando eu era menino e vivia em Diadema, cidade da região metropolitana de São Paulo, costumava sentar a tarde no beiral de casa (foto) com um amigo “da rua” e conversar sobre nada ou apenas olhar a paisagem (sim, naquela época Diadema era uma cidade cheia de árvores e com poucas casas).

Em frente a nós passava todo dia no mesmo horário um senhor que estava sempre embriagado, costumávamos chamar pessoas assim de “bêbados”. O apelido deste senhor era “Coroné”. Não “coronel”, era “Coroné” mesmo. Este meu amigo da rua sempre gostou de mexer com o Coroné. O motivo era simples: ele sempre respondia da mesma forma e era engraçado.

Meu amigo gritava:

“- Coroné? Coroné?” (pronunciando a primeira vez de forma mais enfática e a segunda menos)

Ele respondia:

“- Passa amanhã!”

E todo dia repetia a mesma cena. Ao avistar o Coroné meu amigo gritava de onde estava: “Coroné? Coroné?”. E ele respondia: “Passa amanhã!”.

Esta pode parecer uma história de simples nostalgia, “só que não”. Ela revela um traço profundo da cultura brasileira: a ditadura dos coronéis, formais e informais. Aquela lei não escrita que diz que todo brasileiro é incapaz de decidir por si próprio e precisa de “pessoas iluminadas e escolhidas” para fazê-lo. Ou mesmo aquela outra lei, também não escrita, que permite o cerceamento da liberdade de expressão seja no campo político ou no campo meramente idealista. Você ainda pode pensar em um monte de leis, nunca escritas, que derivam da cultura do coronelismo.

Diadema é uma cidade rica com cidadãos pobres. Apesar do seu PIB/capita ser mais de R$ 30.000,00 em 2011, uns 50% maior do que a média brasileira, segundo o IBGE (http://pt.wikipedia.org/wiki/Diadema), o PIB está concentrado nos detentores das indústrias que obviamente não são a maioria da população. Para a maioria da população resta os empregos com salários de até 2 ~ 3 mínimos que, apesar da nova interpretação dos dados pelos órgão públicos, com certeza não corresponde à classe média.

O IDH desta cidade foi de 0,757 em 2010. Ela foi governada por um mesmo partido por anos a fio. Ocorreu uma explosão demográfica, não houve planejamento. Proteção da propriedade privada em Diadema era como lançar um anátema sobre alguém. Apesar disto a cidade cresceu e o único problema foi que a estrutura da cidade não evoluiu junto e os moradores ficaram com “aquela cidade” que eles têm hoje. Apenas relembrando, o sistema de planejamento e execução de políticas públicas foi o mesmo vigente hoje no Brasil todo: eleja alguém “preparado”, o considere um “iluminado capaz de resolver todos os problemas sozinho” e esqueça de tudo. Afinal, você “delegou” esta atividade ao “iluminado”. “Delegar” não é mais uma palavra na moda?

corone2Ok. Delegar atividade do trabalho porque não se pode fazer tudo é realmente uma coisa boa. Não há como negar. Aliás, o poder público peca por excesso de concentração nas decisões, o que nada mais é do que mais uma herança da “cultura coronelista”. Porém, não há como delegar decisões pessoais ou anseios pessoais porque, obviamente, eles são pessoais (dãhn).

O que dizer, então, do nosso atual modelo de representação classista? Vamos colocar “no bolo” ambas as nossas entidades: Sinafresp e Afresp (a ordem dos fatores não afeta o resultado).

Retiradas devidamente todas as referências a quaisquer diretores, presidentes, conselheiros e funcionários de nossas entidades, temos em ambas um modelo de representação “coronelista” (eu estou escrevendo unicamente sobre o modelo de representação, não há referência a nenhuma pessoa nem desejo que se faça esta ligação porque ela não existe). Bom, o modelo de representação é o seguinte: fale com o seu representante. As reuniões do conselho ocorrem à revelia dos interessados (pelo motivo óbvio de eles não estarem presentes). São decididas coisas que talvez possam ser contra o que a maioria gostaria ou pode ser decidida na mesma direção dos anseios. Resta ao final suspeitas sobre a posição dos conselheiros: se elas foram no mesmo sentido dos filiados ou não, se houve pressão da diretoria ou não, se não houve informações suficientes ou não, se a reunião anterior com os representantes teve participação ou não, etc.

O Sinafresp não fica atrás. Muito pelo contrário. O Sinafresp junta duas coisas bem distintas num “mesmo bolo”. Ao mesmo tempo em que utiliza um sistema de representação “coronelista”, uma vez que os sindicalizados não podem decidir diretamente, utiliza um sistema de “decisão colegiada” para ações da diretoria. (aqui vale também toda aquela história de eu não estar me referenciando a nenhuma pessoa e sim unicamente ao modelo de representação)

O quê? É isto mesmo? Eu não estou errado?

Bem que eu gostaria de estar, mas não. É isto mesmo. A única razão de existir um presidente é para dar a decisão final e, poft, tiramos a decisão final de suas mãos. Grande! Bello! Linda escolha! “Óh céus! Óh Vida!”.

Isto resulta em decisões lentas e, às vezes, passíveis de questionamentos sérios (não como estes que não são tão sérios). Mas “no fundo no fundo” é apenas uma questão de escolha. O que desejamos para nossas entidades? Democracia direta com os indivíduos podendo fazer suas escolhas (autonomia) e se responsabilizando por elas, por exemplo, quando tomam a decisão de fazer algo que traz um malefício como o fim do diálogo com a administração, ou continuar com o modelo do “sempre foi feito assim”?

É óbvio que toda transição exige paciência e persistência. No começo nada são flores, mas no decorrer dos anos a dificuldade e as decisões erradas ensinam os participantes que devem pensar mais antes de decidir por “X” ou “Y” e, então, começam a desenvolver uma maturidade maior para estes casos e começam a, enfim, tomar decisões melhores. Neste modelo de democracia direta a única preocupação seria com a validade do processo de decisão, a “não manipulação” dos resultados e a efetiva execução das decisões pela presidência/diretoria das entidades. Nada que bons profissionais de TI (que a gente tem) não possam fazer. “Olá, estamos no século XXI”. Nada que bons presidentes e diretores não possam fazer também.

Eu poderia adentrar em aspectos da ciência comportamental que dizem que pessoas que tomam suas próprias decisões, são livres e responsáveis por seus atos vivem mais e melhor, mas como não sou acadêmico e meu conhecimento é reduzido nesta área, vou deixar para os especialistas. De qualquer forma, vale ressaltar que toda organização das instituições ligadas ao trabalho está passando por mudanças da forma de se organizar e de trabalhar. Há um processo de mudança do antigo modelo taylorista para modelos baseados na “teoria da autodeterminação e motivação intrínseca” como o “ROWE” (ambiente de trabalho voltado unicamente a resultados). Não é demais informar que aquelas instituições, órgãos, unidades ou famílias que adotam os modelos baseados na autodeterminação obtém mais sucesso do que seus pares tayloristas.

corone3A democracia direta é baseada também nesta teoria que cita que a motivação para fazer qualquer coisa por um impulso interno é prestigiada quando se tem “autonomia com responsabilização”, “excelência” (nem muito difícil nem muito fácil) e busca por “propósito”.

Já o seu colega taylorista inibe a autonomia, excelência vira piada de mau gosto e propósito se torna algo completamente deslocado da realidade. Criam-se “zumbis procedimentais s/a”, “mortos-vivos associados©” e “moitas amoitados®”. Ok, o modelo taylorista teve o seu papel na história. Mas sim, ele virou história. Não é demais lembrar: “Olá! Estamos no século XXI!”.

Portanto, meus queridos colegas, chegou a hora de pensarmos tudo no contexto de nosso querido século XXI. Chegou a hora de tomarmos as nossas próprias decisões. Chegou a hora de nos responsabilizarmos pelas decisões que tomamos como maioria. Chegou a hora da Democracia Direta nas instituições de classe, principalmente no Sinafresp! E se me perguntarem sobre o atual sistema de representação eu respondo:

-Coroné? Coroné?

-PASSA AMANHÃ!

.

Observação pertinente: todas as ligações aos termos “coronéis”, “coronelismo” e outros termos que possam ser considerados pejorativos não são atribuídos a nenhuma pessoa específica e trata-se unicamente de uma analogia ao sistema de representação das entidades de classe Afresp e Sinafresp que nada mais é do que uma cópia do modelo maior utilizado no Brasil. Não há como ninguém ficar melindrado com isto (ou pelo menos não há razão para tal) porque ninguém é um sistema de representação (óbvio). Além do mais, eu gosto bastante das pessoas que foram escolhidas conselheiras por minha delegacia em ambas as entidades e não tenho nada contra nenhum dos atuais diretores/presidentes ou passados. Mas, mesmo assim, eu peço desculpas antecipadamente caso qualquer um se sinta ofendido com qualquer termo utilizado neste texto. Repetindo, não estou aludindo a nenhuma pessoa e a intenção é unicamente contribuir para este debate que ainda não iniciou de forma séria. 2: sempre que escrevo um texto que “vai a público” fico com medo de retaliações. Nada mais é do que a cultura do coronelismo herdada pressionando por silêncio.

afr.afonso@gmail.com

* Alexandro Afonso é Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo

NOTA: O BLOG do AFR é um foro de debates. Não tem opinião oficial ou oficiosa sobre qualquer tema em foco. Artigos e comentários aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores.

janeiro 13, 2012

Já vi isto antes!

Alexandro Afonso

Os últimos acontecimentos sindicais do fisco paulista me relembraram a infância. Na TV Cultura havia um desenho animado que eu não me lembro o nome, mas o chamava de “Arrume Tudo”, o nome do principal personagem. Esta série chamava a atenção para as broncas e frases feitas dos pais da época durante a educação de seus pequenos filhos, coisa que pouco vemos atualmente, mas isto é um outro assunto. O nome dos personagens são ações, e tais atitudes encaixam-se perfeitamente no cotidiano sindical […] Leia o artigo completo

janeiro 13, 2012

Já vi isto antes!

aafonso4pAlexandro Afonso

Os últimos acontecimentos sindicais do fisco paulista me relembraram a infância.

Na TV Cultura havia um desenho animado que eu não me lembro o nome, mas o chamava de “Arrume Tudo”, o nome do principal personagem. Esta série chamava a atenção para as broncas e frases feitas dos pais da época durante a educação de seus pequenos filhos, coisa que pouco vemos atualmente, mas isto é um outro assunto. O nome dos personagens são ações, e tais atitudes encaixam-se perfeitamente no cotidiano sindical.

Vejamos alguns:

Pare com Isso e Arrume Tudo: é o pedido.

Brinque Lá Fora: é o chamado sindical.

Fique Calmo: é a decisão da categoria.

Agora Não: é a resposta sindical.

Passado o tumulto sem conseguir nada…

Sossega e Silêncio: é o que se estabelece.

Lave seu Rosto: é o início do ano.

Penteie seu Cabelo: é a retomada.

Coma as Verduras: é o alimento da “mobilização” via “jornal de grande circulação”.

Escove os Dentes: é o resultado da análise da ação.

Tentando reativar a “mobilização”…

Vá Para a Cama e Não Faça Isso: é a vontade.

Tome Cuidado: é o conselho dos “experientes”.

Pedindo a Pauta de Reivindicações…

PEC, NIBA, FUBA, BLA BLA BLA…….

E a resposta do…

Grande e Briguento EU DISSE NÃO!: é a palavra final do outro lado da negociação.

Vá Tomar Banho: é o sentimento dos sindicalizados frente a um sindicato cada vez mais sem rumo.

Pare com Isso e Arrume Tudo e esses são seus amigos: Penteie seu cabelo, Lave seu Rosto, Brinque Lá Fora e seu brinquedo favorito, O pequenino Fique Calmo, e o chato Agora Não!, As duas abelhas Sossega e Silêncio, o dorminhoco Vá Para a Cama e Não Faça Isso, Tome Cuidado, Coma as Verduras, Escove os Dentes, e o Grande e briguento EU DISSE NÃO*

Links: Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=HRfYtrri1Es e Proposta de camiseta para manifestações: http://www.elo7.com.br/estes-sao-arrume-tudo-e-pare-com-isso/dp/3FDED

Alexandro Afonso (AFR-SP)

afr.afonso@gmail.com

Fonte: http://tamanhogg.blogspot.com/2005/11/arrume-tudo-e-pare-com-isso.html

“Stoppit e Tidyup foi uma série infantil britânica de desenhos animados originalmente transmitido pela BBC em1988. Asérie foi criada por Charles Mills e cérebro de Terry, a dupla por trás CMTB Animation, que já tinha criado um claymation chamado The Trap Door. Além dos personagens principais Stoppit, uma bola vermelha de penugem e Tidyup, uma protuberância maxixe amorosa roxo.” Fonte: http://filmow.com/arrume-tudo-e-pare-com-isso-t27830/

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Classe de Gérson