Noite e neblina

João Francisco Neto

“O mal está sempre à espreita, a qualquer tempo, em qualquer lugar”

            O extermínio em massa dos judeus na Alemanha nazista será sempre lembrado como um dos mais horrendos crimes cometidos contra a Humanidade. Um trauma que jamais será superado. As estimativas dão conta de que seis milhões de judeus teriam sido mortos nos campos de concentração construídos pelos nazistas, a partir de meados da década de 1930 e até o final da 2ª Guerra Mundial, em 1945.

            A memória humana é curta, de forma que, se não fosse a indústria cinematográfica americana, que, de tempos em tempos, produz um filme sobre o nazismo, esse assunto amargo já teria virado apenas uma página esquecida de um livro de História. Um dos últimos grandes filmes que abordaram essa temática foi o excelente “A Lista de Schindler” (1993), de Steven Spielberg. Isso se deve ao poderoso lobby judaico que sempre atuou junto à indústria do entretenimento de Hollywood.

            Em 1955, o cineasta francês Alain Resnais (1922-2014), a convite do Comitê de História da 2ª Guerra Mundial, realizaria aquele que seria considerado um dos melhores documentários sobre o Holocausto: “Noite e Neblina” (Nacht und Nebel, em alemão). Esse título intrigante tem origem num decreto baixado por Hitler, determinando que a eliminação de judeus e de todos aqueles que ameaçavam a segurança alemã fosse executada sob sigilo, como se fosse “na calada da noite e sob neblina”, para que ninguém pudesse ver claramente o que de fato se passava.

            Com efeito, toda a estrutura dos campos de concentração foi montada sob segredo de Estado, sem que população alemã tivesse pleno conhecimento do que realmente acontecia no interior daquelas imensas instalações. A realidade dos campos só foi revelada ao mundo após o final da 2ª Guerra, em 1945. Curiosamente, grande parte dos grandes campos de concentração estava instalada em território polonês, inclusive o maior deles, o de Auschwitz, que englobava dezenas de outros campos.

            O documentário, de apenas 32 minutos, deixa o expectador em estado de perplexidade ao expor um mar de crueldade humana, com milhares de corpos sendo juntados por pás-carregadeiras, cestas de cabeças ao lado de montanhas de cabelo humano, toneladas de ossos a serem utilizados na fabricação de adubo, e outras partes dos corpos humanos, destinadas à indústria de sabão. Trata-se de um filme parcialmente montado a partir de imagens produzidas pelas próprias autoridades nazistas. Vale ressaltar a bela e comovente trilha sonora, produzida pelo compositor alemão Hanns Eisler.

            Exibido ao público pela primeira vez no dia 29 de abril de 1956, no Festival de Cannes, o filme causaria um enorme impacto sobre as plateias, que viam pela primeira vez as surpreendentes imagens da barbárie dos campos de concentração. Até então, não havia todo esse repertório de imagens públicas de que dispomos hoje, o que faz com que agora as pessoas já estejam, de alguma forma, “familiarizadas” com a crueza das imagens.

            Na parte final do filme, quando da invasão dos aliados nos campos de concentração, o narrador indaga: “quem é o responsável por isso?”. Todos, um a um, desde o mais simples guarda aos comandantes, de forma covarde e melancólica, negam conhecer o responsável. No final, fica a advertência: o mal está sempre à espreita, a qualquer tempo, em qualquer lugar, e ninguém pode assegurar que aquilo não voltará a ocorrer novamente.

            A propósito, no antigo campo de concentração de Hinzert – quase na fronteira com Luxemburgo -, foi erguido um memorial em homenagem às vítimas do nazismo, com uma placa onde consta a seguinte advertência: “Sem ódio, mas, também, sem esquecimento” (Kein Hass, aber auch kein Vergessen).

            A esta altura, não faltará quem possa questionar qual seria o interesse em relembrar esse assunto, hoje. Afinal, tudo isso já se passou há tanto tempo… Mas, nesta maré de ódio e intolerância crescente em que o Brasil e o mundo vivem atualmente, nunca será por demais reforçar esse alerta: o mal está sempre à espreita!

jfrancis@usp.br

Agente Fiscal de Rendas, mestre e doutor em Direito Financeiro (Faculdade de Direito da USP)

ARTIGOS de JOÃO FRANCISCO NETO

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