Fábrica de mentiras

João Francisco Neto

“As pessoas tendem a acreditar em notícias falsas”

As chamadas “fake news” (informações falsas ou distorcidas), espalhadas pelas redes sociais da internet, são uma nova epidemia que vem afetando o mundo todo. Contudo, não é de hoje que o mundo vem lidando com a questão das notícias falsas, principalmente aquelas que contaminam o ambiente político. Tempos atrás, esse papel cabia à “imprensa marrom”, ou seja, aos jornais e revistas que desqualificavam a imagem e a reputação das pessoas públicas. O diferencial, hoje, é a velocidade com que se propagam as notícias falsas.

O fato é que, depois da eleição do presidente Donald Trump, em 2016, o tema das “fake news” vem ganhando cada vez mais relevância, justamente pela possibilidade que elas têm de influenciar e distorcer o resultado das eleições. Sempre se soube do poder que os veículos de comunicação detêm para alavancar candidaturas. Tanto é assim, que muitos políticos são donos de jornais e de emissoras de rádio e TV, obviamente para uso próprio e da família.

Agora, o potencial de dano é infinitamente maior, em virtude da velocidade com que as notícias falsas se espalham pelas redes sociais. São tantas as informações que bombardeiam a internet, que as pessoas não têm condição de verificar se são mesmo falsas ou verdadeiras. Por isso, acabam não só acreditando nesses conteúdos falsos, mas, também, compartilhando-os para a sua rede de amigos, num processo de viralização.

Já foi observado que as pessoas tendem a acreditar em notícias falsas que, além de impactantes, correspondam, de alguma forma, àquilo em que elas acreditam. Além disso, quando se mesclam as notícias falsas com as verdadeiras, cria-se uma espécie de “realidade paralela”, em que não se sabe exatamente o que é verdadeiro e o que não é, dado o volume de informações embaralhadas.

O processo de impulsionamento de notícias falsas pode ser turbinado por meio de robôs (os bots), programados para movimentar centenas de perfis nas redes sociais, como se fossem pessoas. Na verdade, eles existem para disseminar e replicar mentiras pela internet. É óbvio que, por trás de tudo, existem mesmo pessoas interessadas no resultado. Com essa usina de informações falsas, instala-se, então, uma verdadeira fábrica de mentiras.

Por outro lado, os aplicativos de mensagens do tipo WhatsApp são o lugar preferencial para a difusão das “fake news”. São mensagens criptografadas, que circulam rapidamente através de correntes, que se encarregam de espalhar essas verdadeiras “lendas urbanas”, em que as pessoas do grupo acabam por acreditar como sendo uma “verdade delas”.

Como se vê, é real a possibilidade de as “fake news” provocar interferências nos processos eleitorais, como ocorrido recentemente nas conturbadas eleições italianas. O Brasil, que já alimenta dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas, corre agora o sério risco de sofrer interferências e manipulações nas próximas eleições de outubro. Fica aqui mais um alerta para as autoridades eleitorais. Enquanto isso, após a execução da vereadora Marielle Franco, estamos assistindo a uma verdadeira enxurrada de “fake news” de ódio e intolerância pelas redes sociais.

jfrancis@usp.br

* Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)
Monte Aprazível-SP

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