O novo na política

João Francisco Neto

“Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo”

O ano de 2018 promete ser bastante agitado em matéria de política; afinal, neste ano teremos eleições para presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Por isso, todos os partidos já saíram à caça de candidatos novos, que possam dar um ar de renovação às propostas políticas de sempre.

A classe política vem sofrendo um desgaste acentuado, em virtude dos sucessivos escândalos de corrupção apurados pela Operação Lava-Jato e pela perpetuação no poder das mesmas pessoas. São as velhas raposas da política, cuja preocupação central consiste apenas em se manter no poder, custe o que custar. Para isso, não pensam duas vezes em fazer todo tipo de acordos e conchavos imorais. Caso isso não dê certo, mudam de partido, como quem muda de roupa. Para se eleger, vale tudo, principalmente as promessas que já sabem que não cumprirão.

Por essas e por outras, boa parte da classe política teme não ser reeleita. Sob essa perspectiva sombria, os partidos já viram que será necessário apresentar “caras novas” como candidatos nessas eleições. É o que se convencionou chamar de “o novo” na política. É óbvio que se trata de mais um golpe para a eternização no poder dos mesmos grupos que aí estão há décadas, para não dizer séculos.

No Brasil, o mais notório exemplo de candidato “novo” foi o do ex-presidente Fernando Collor, que surgiu fulgurante na cena política, sendo eleito com milhões de votos. Parecia que, com ele, todos os nossos problemas crônicos seriam finalmente resolvidos. Deu no que deu, todo mundo viu. E, assim tem sido: o candidato apresentado como elemento “novo” na política, no fundo, só está lá para proteger os interesses mais antigos do seu grupo.

Sobre o tema do “Velho e o Novo”, o dramaturgo alemão Bertold Brecht escreveu um curioso poema que, numa passagem, dizia: “Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo. Assim marchava o Velho, travestido de Novo; mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho. Na verdade, o Novo vinha acorrentado a ferros e coberto de trapos. E o Velho (disfarçado de Novo) gritava: aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós”.

A História nos mostra exemplos interessantes dessa temática. No turbulento período que sucedeu o final da 1ª Guerra Mundial (1918), Mussolini surgiu como uma novidade no caldeirão político italiano, para, em seguida, fundar o fascismo. Pouco tempo depois, na Alemanha ocorreria o mesmo, com a ascensão de Hitler e seu partido nazista, inicialmente tidos como o “novo” na política.

O filósofo Antonio Gramsci costumava dizer que, em política, o problema ocorre quando o novo ainda não acabou de nascer e o velho ainda está por morrer. Nesse período de transição, muita coisa desagradável pode acontecer. No Brasil é preciso ter os olhos bem abertos porque, aqui, o novo já nasce velho.

jfrancis@usp.br

* Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)
Monte Aprazível-SP

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