A gripe espanhola, 100 anos

João Francisco Neto

Há cem anos, em 1918, quando o mundo começava a sonhar com o final da 1ª Guerra Mundial, eis que uma terrível epidemia se abatia sobre a humanidade, como se fora um castigo bíblico. Trata-se de uma terrível moléstia que ficaria conhecida sob o nome de “Gripe Espanhola”. Ao final de dois anos, calcula-se que tenha matado mais de 50 milhões de pessoas, um número muito maior do que havia morrido na 1ª Grande Guerra (1914-1918).

A gripe espanhola revelou-se uma doença atroz, que só tinha similaridade com a “Peste Negra”, que assolou a Europa durante a Idade Média. Como não havia vacina e nem medicamento eficaz, morria-se tanta gente que não havia caixões e tampouco sepulturas para todos; milhares de corpos eram simplesmente empilhados, para depois serem enterrados em valas coletivas.

A doença era uma infecção pneumônica provocada pelo vírus influenza. Em muitas regiões, manifestava-se com uma estranha particularidade: atingia principalmente a população saudável, entre 20 e 40 anos de idade, poupando os mais jovens e idosos.

Vale ressaltar que nunca houve comprovação técnica de que o vírus da gripe tenha efetivamente se originado na Espanha. O fato é a Espanha, que se manteve neutra durante a 1ª Guerra, foi o primeiro país a dar grande publicidade à epidemia, que na prática já havia se alastrado pela Europa.  E, de lá, para todo o mundo, inclusive o Brasil.

A doença tinha um caráter “democrático”, tendo vitimado igualmente tanto os pobres quanto os ricos e as celebridades. Dentre as vítimas fatais famosas estavam o sociólogo alemão Max Weber, e, no Brasil, o então presidente da República reeleito, Rodrigues Alves, que não chegou a tomar posse de seu segundo mandato.

Acometidos pela gripe, muitos sobreviveram, como o próprio rei da Espanha, Alfonso 13, os presidentes norte-americanos Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt, além de personalidades como Walt Disney, Greta Garbo, Franz Kafka, entre tantos outros.

Quando a epidemia – na verdade, uma pandemia – chegou ao Brasil, inicialmente não foi levada a sério. Alertadas sobre a gravidade da situação, as autoridades sanitárias brasileiras não adotaram nenhuma estratégia de combate e prevenção à terrível e contagiosa doença. A população da cidade do Rio de Janeiro, então a capital da República, ainda se encontrava traumatizada pelos recentes desdobramentos da Revolta da Vacina.

Esse desleixo, aliado às más condições sanitárias locais fez com que a epidemia se alastrasse rapidamente pelo país, chegando até a Amazônia. Ao final, os relatos são de que, só Rio de Janeiro, as vítimas fatais chegaram a 15 mil pessoas.

A esta altura, alguém poderá indagar: mas qual a importância de se falar hoje dessa epidemia que ocorreu há um século? De fato, embora pareça algo perdido no tempo, convém ficar sempre alerta e não desprezar a possibilidade de uma nova epidemia de doenças, como o vírus ebola, a dengue, a gripe suína, a gripe aviária, a febre amarela, entre tantas outras. Em todos os casos, a prevenção será sempre o melhor remédio.

jfrancis@usp.br

* Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)
Monte Aprazível-SP

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5 Comentários to “A gripe espanhola, 100 anos”

  1. Excelente o artigo. Oportuno e relata parte importante da história, alertando sobre a necessária e indispensável prevenção sanitária.

    • Caro Hércules Cordeiro,

      Agradeço-lhe pela atenção que você dedicou a este pequeno texto.
      De fato, a ideia era essa mesma, alertar para um evento tão grave – ocorrido há mais de 100 anos -, e que pode se repetir, e agora em proporções muito maiores, devido ao brutal aumento da população.

  2. Interessante curiosidade histórica, principalmente quando vemos que também por desleixo de um governo inapto, corrupto e completamente alienado aos reais interesses públicos primários da nação brasileira, a febre amarela e outras doenças já irradicadas há décadas começam a incomodar a saúde pública do país novamente em muito pelo congelamento dos investimentos em saúde pública.
    Que tristeza ver o país ser mergulhado nessa espiral caótica apenas porque a população envolvida por uma série de sortilégios da mídia não enxerga o mal e apoia quem não deve, empoderando esta verdadeira camarilha que aí está a nos infligir o mal por todos os lados! 😦

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