A geração nem-nem

João Francisco Neto

“Assistimos ao crescimento de outro fenômeno comportamental: a tardia emancipação dos jovens”

A partir do final do século 20, surgiu um fenômeno que atualmente tem sido percebido com bastante clareza no seio da sociedade: trata-se de uma geração de jovens, que, por uma razão ou outra, nem estudam e nem trabalham. Não fazem nem uma coisa, nem outra, e, muitas vezes, também não estão nem aí.

A principal causa que impede a maioria dos jovens de ingressar no mercado de trabalho é a falta de oportunidades para quem é recém-formado e não tem experiência. Porém, não menos importantes são as causas que levam grandes contingentes de jovens a abandonar os estudos. Aqui, o principal motivo da evasão escolar é a falta de perspectiva de grande parte dos cursos.

Nesse aspecto, um dos maiores gargalos está no ensino médio, período em que muitos alunos se entediam e perdem o interesse em assistir às aulas, muitas delas ministradas num padrão do século 19, enquanto o mundo inteiro pulsa sob os efeitos da quarta revolução industrial, marcada pelas tecnologias digitais.

Como são muitos os cursos que não preparam o aluno para nada, após a formatura o jovem se depara com uma enorme dificuldade para conseguir o primeiro emprego, ou um estágio. Os pais, testemunhas dessa falta de oportunidade e perspectiva, acabam acolhendo os filhos, que passam a viver numa situação aparentemente confortável, mas nada gratificante. São esses os jovens da chamada “geração nem-nem”.

Essa expressão engraçada começou a ser utilizada na Europa; mais especificamente na Espanha (“la generación ni-ni: ni trabaja, ni estudia”), para designar aqueles jovens que estão parados por diversos motivos: uns  não estudam e nem trabalham e também não procuram emprego; outros até procuram emprego, mas não encontram; outros tantos estudaram, porém nunca trabalharam, e por aí vai.

Aliado a isso, assistimos ao crescimento de outro fenômeno comportamental: a tardia emancipação dos jovens, que procuram estender ao máximo o período da adolescência. Não é difícil encontrar “jovens” que, já beirando os trinta anos, ainda adotam uma postura típica de adolescentes: não estudam porque já estão formados, também não trabalham, porque não encontram emprego. E assim vivem sob a confortável dependência e proteção econômica dos pais.

Com o tempo, vai se tornando cada vez mais difícil o ingresso tardio no mercado de trabalho, pois muitas empresas não vêem com bons olhos os jovens que por muito tempo não trabalhavam e nem estudavam. Para grande parte desses jovens, acaba restando a opção da informalidade, do subemprego, ou da eterna dependência econômica dos pais.

É comum encontrar jovens, que, por falta de opção, assumem funções que nada têm a ver com a sua formação original: são engenheiros que montam comércios, professores que trabalham na indústria, bacharéis em direito que prestam qualquer concurso público, etc.

É um novo desenho da sociedade capitalista que, ao mesmo tempo em que oferece um mundo de múltiplas possibilidades, tende a excluir aqueles que não conseguem se enquadrar no figurino das novas exigências do mercado de trabalho, que hoje requer uma boa dose de criatividade e empreendedorismo.

jfrancis@usp.br

* Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)
Monte Aprazível-SP

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