Honra e política

João Francisco Neto

Os homens públicos – os políticos, em geral – nunca foram santos, mas já houve uma época em que suas atitudes e compromissos faziam sentido e deveriam ser cumpridos à risca. A honra, a palavra dada, a promessa, o compromisso moral, tudo isso tinha muita importância e deveria ser levado a sério. A pena para quem não cumprisse era a desmoralização, ou algo até mais trágico.

Há muitos exemplos disso, como a seguinte cena da história americana. Na 4ª eleição presidencial, no ano de 1800, houve empate entre os dois candidatos, Thomas Jefferson e Aaron Burr. As sempre complicadas regras eleitorais americanas dificultavam muito o desempate. Para isso, foi necessário que houvesse 36 votações no Congresso Nacional.

Num clima de grande tensão, Thomas Jefferson sagrou-se vitorioso. Inconformado, o candidato derrotado – Aaron Burr – acusou o seu desafeto político Alexander Hamilton de ter feito manobras para a sua derrota. Ambos eram caciques políticos que disputavam espaço no Estado de Nova York.

Os seguidos desentendimentos políticos fizeram com que Burr viesse a desafiar Hamilton para um duelo, com armas de fogo, procedimento legal à época, no vizinho Estado de Nova Jersey. Hamilton, hoje considerado um dos maiores vultos da história americana, aceitou o desafio, mas não acreditava e nem desejava que as coisas pudessem desaguar num final trágico. Infelizmente, Aaron Burr não pensava assim. O duelo ocorreria na manhã de 11 de julho de 1804, quando Burr, com um único disparo, atingiu Hamilton, que morreria no dia seguinte.

Esse fato foi uma tragédia que se abateu sobre a América, provocando uma das maiores comoções políticas de sua História, pois Hamilton era um dos principais teóricos do federalismo, herói da Guerra da Independência, além de ter participado da elaboração da Constituição americana. Foi também o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

Aaron Burr, embora vencedor do duelo, nunca mais se recuperou politicamente, e sequer moralmente. Teve de conviver para sempre com a pecha de ser o homem que tinha matado um dos “Pais Fundadores” da nação americana. Certo ou errado, naqueles tempos, as questões de honra pessoal se resolviam assim: lavando-se com sangue. Ainda hoje o seu ato amarga a reprovação do povo americano.

Hoje, os tempos são outros, e ninguém mais espera que os conflitos sejam resolvidos por duelos. Contudo, não custaria nada que os políticos atuais procurassem manter um mínimo de princípios, reserva pessoal, comedimento, honestidade e honra. Enfim, tudo aquilo que deveria ser normal para qualquer cidadão. Para as pessoas que se lançam na vida pública, o comportamento honrado deveria ser um verdadeiro imperativo moral.

Logo mais teremos eleições gerais, quando a população será tomada de assalto por figuras medonhas, que no espetáculo deprimente da propaganda eleitoral já demonstram o quão distante estão do ideal do homem público.

Por fim, uma simples curiosidade: o retrato de Alexander Hamilton encontra-se estampado na cédula de dez dólares americanos.

jfrancis@usp.br

* Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)
Monte Aprazível-SP

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